Ela encarou Silas, com os olhos repletos de dúvidas.
Portanto, ele já possuía um noivado firmado e, mesmo assim, insistia em propor casamento a ela?
Silas, contudo, sequer olhou na direção dela e determinou com frieza: "Eu não consenti com esse noivado."
Yago ergueu as sobrancelhas e ironizou com um sorriso: "Irmão mais velho, você agora vai desobedecer até as determinações do avô?"
Os dois se fixaram em um confronto silencioso, permitindo quase sentir a tensão no ar.
Portanto, tratava-se de um noivado arranjado pelos patriarcas da família que ele se recusava a aceitar, e por isso calhara de escolher a ela como saída.
Ela compreendeu a situação.
O empenho que Silas demonstrara para ajudá-la no passado a deixara um tanto constrangida; contudo, ao perceber que ele também agia movido por interesses próprios, ela sentiu um alívio interno.
"Jovem mestre Silas, o veículo reserva acaba de chegar." O motorista interveio.
Silas assentiu com a cabeça e, ignorando a presença de Yago parado bem diante da lateral, empurrou a porta diretamente: "Não utilize a figura do avô para tentar me pressionar."
Provavelmente pego de surpresa pela atitude, Yago cambaleou alguns passos para trás antes de recuperar o equilíbrio.
Silas se transferiu para o veículo reserva, e Samara desceu do carro para acompanhá-lo imediatamente.
Yago a encarou e fingiu surpresa: "Eu não havia reparado na sua presença antes, quem seria a senhorita..."
A satisfação maliciosa em seus olhos era evidente; Samara direcionou um olhar de desdém a ele e ironizou:
"Então recomendo que procure um oftalmologista com urgência, para não conseguir enxergar uma pessoa inteira bem diante de você."
Yago paralisou.
Os dois entraram no veículo reserva e o motorista deu partida imediatamente.
Deixaram para trás apenas a fumaça do escapamento e o agente de trânsito que se aproximava: "O outro veículo trafegava em linha reta e o senhor cortou a frente, a responsabilidade total é sua."
Dentro do carro, Silas fixou os olhos nela e questionou: "Você não está furiosa?"
Ao encarar aquelas pupilas que se assemelhavam a águas profundas, ela hesitou por um momento sobre qual sentimento expressar.
"Seja sincera." Silas percebeu a hesitação dela.
"...Não estou furiosa." Aquela era a verdade.
Samara encarou o homem e continuou: "A intenção de provocação do seu irmão era evidente, eu não sou tão ingênua."
Assim que proferiu a frase, sentiu orgulho de sua própria percepção.
Contudo, a afirmação não obteve a resposta que ela esperava por parte de Silas.
"As suas costas estão sangrando."
Capítulo 21
Diante daquela afirmação, Samara paralisou por completo.
Só então ela percebeu a sensação de umidade em suas costas, com o tecido da roupa colado à pele.
Provavelmente os movimentos bruscos durante a colisão haviam reaberto os ferimentos.
Contudo, ela trajava roupas de cor preta intencionalmente, como ele conseguira notar aquilo...
Silas contraiu as sobrancelhas: "Manchou o encosto do banco."
Samara virou o rosto para verificar e visualizou uma nítida mancha de sangue vivo sobre o couro marrom do assento.
O sangramento trouxe a dor intensa de volta, fazendo-a franzir a testa enquanto tentava articular uma justificativa em sua mente.
Silas, porém, já ordenava ao motorista que alterasse a rota em direção ao hospital.
"Não há necessidade, eu..." Samara tentou recusar, mas o olhar severo e imperturbável de Silas a silenciou.
"Vamos ao hospital." Ele determinou com um tom de autoridade inquestionável.
Seu coração ficou inquieto, e ela começou a projetar estratégias de reação em sua mente.
Assim que ela removesse a roupa para a avaliação médica, todos os ferimentos de chicotadas em suas costas seriam expostos.
Aquilo seria extremamente difícil de explicar.
Samara observava a paisagem passar rapidamente através do vidro do carro, arquitetando uma saída para a situação.
...
Hospital.
"Permaneça do lado de fora, não entre."
Samara determinou a Silas.
Silas fez menção de recusar, mas ela se antecipou: "O ferimento está localizado em minhas costas e precisarei remover a vestimenta, não me sinto confortável com a presença de outras pessoas."
A justificativa foi suficiente para conter os passos dele.
"Tudo bem, aguardarei por você aqui fora." Silas respondeu com o tom neutro habitual, liberando o braço dela.
Samara observou a enfermeira fechar a cortina de isolamento por completo, sacou uma adaga imediatamente para posicioná-la contra o pescoço da profissional e cobriu a boca dela, ameaçando em voz baixa:
"Informe que são apenas dois cortes superficiais por lâmina, compreendido?"
Como Silas estava posicionado bem atrás da cortina, Samara manteve a voz extremamente baixa, quase sussurrando rente ao pescoço da enfermeira.
A profissional arregalou os olhos com uma expressão de puro pavor e permaneceu estática.
A enfermeira engoliu em seco de forma involuntária, fazendo a pele do pescoço roçar levemente contra o fio da adaga, e assentiu com a cabeça imediatamente.
"Aconteceu algo?" Silas questionou do outro lado ao notar a quietude incomum.
Ela liberou a enfermeira, deitou-se na maca lentamente e respondeu: "Não é nada, estou apenas aguardando a enfermeira iniciar os procedimentos com o curativo."
Silas não emitiu mais sons.
Ela removeu a blusa, expondo as costas dilaceradas em carne viva, arrancando um suspiro de sobressalto da enfermeira.
A pele alva exibia marcas profundas de açoites cobertas de sangue.
"Como está a situação?" Ele questionou do lado de fora.
"Tudo sob controle." Samara respondeu.
"Samara, não tente me enganar." A voz de Silas soou grave.
O coração dela se contraiu, e ela rebateu: "Não estou enganando, se não acredita, pergunte à enfermeira."
A profissional respirou fundo para estabilizar a voz e colaborou: "De fato, as incisões são superficiais."
A enfermeira utilizou a tesoura para remover as bandagens antigas de Samara passo a passo.
O contato do metal frio navegando por sua cintura e costas provocava arrepios involuntários.
Seus pelos se arrepiaram, e ela contraiu os punhos fechando os olhos para combater suas reações instintivas.
Desde o falecimento de seu mestre, todas as vezes em que sofria ferimentos, ela própria realizava os curativos e medicações em isolamento.
Permanecer naquela posição de total vulnerabilidade, dependendo das ações de terceiros para tratar suas feridas, provocava uma forte rejeição interna.
Silas questionou por trás da cortina: "Que tipo de ferimento é esse?"
Samara contraiu as sobrancelhas com força e direcionou um olhar severo para a enfermeira.
A profissional respondeu: "Apresenta características de cortes por lâmina."
Silas demonstrou dúvida: "Como você sofreu esses cortes?"
Sua mente trabalhou rapidamente, e ela apresentou a justificativa que havia arquitetado: "Eu não sei."
"Não sabe?"
"Despertei no meio da madrugada e percebi a presença de um invasor armado com uma faca próximo à cama; ele me desferiu dois golpes e fugiu em seguida."
A justificativa de Samara era totalmente absurda, mas continha os elementos necessários para convencer Silas.
Ele possuía uma mente complexa e detalhista; apresentar uma justificativa perfeitamente estruturada e lógica apenas despertaria suspeitas, sendo melhor adotar um tom absurdo para dar margem às interpretações dele.
Como esperado, Silas acionou o celular imediatamente para ordenar: "Houve uma invasão na residência de Samara na noite anterior, realizem uma verificação completa."
Samara sentiu o coração se estabilizar.
Silas continuou: "A sua residência atual já não oferece segurança, você se transferirá para o meu endereço ainda hoje."
Capítulo 22
"Ai— Ai!"
Uma dor lancinante veio de suas costas, e ela não conseguiu se conter, deixando um grito escapar.
"O que houve?" A cortina se moveu, e Silas parecia prestes a invadir o espaço.
"Não é nada!" Ela o impediu imediatamente e disse à enfermeira: "Pode continuar."
Com o preparo psicológico feito, Samara mordeu firmemente o lábio inferior e não emitiu mais nenhum som.
Até que o curativo fosse finalizado e a bandagem estivesse pronta, ela não ouviu mais nenhum ruído vindo de trás da cortina.
"Pronto." A enfermeira recolheu as bandagens usadas e abriu a cortina para sair.
Ela se levantou e olhou para trás, deparando-se exatamente com um par de olhos imperturbáveis.
O tecido branco da cortina ainda oscilava suavemente atrás dele, e Samara estagnou no lugar de imediato:
"Você não deveria estar do lado de fora?"
Silas a fixou com o olhar: "Você mentiu para mim, Samara."
O coração dela afundou: "Você viu?"
"Vi." Diante daquela confirmação, ela congelou por completo.
Então as justificativas que ela havia proferido há pouco...
"Foram trinta açoites no total", os olhos dele eram sombrios e enigmáticos, e ele exibia a testa levemente contraída, tornando impossível decifrar seus pensamentos.
A mente de Samara estava confusa, incapaz de arquitetar uma explicação plausível: "Eu..."
Silas ergueu a mão para interromper a fala dela, direcionando um olhar que carregava um profundo tormento e compaixão:
"Isso aconteceu porque eu te levei à mansão do Yann naquele dia? A organização descobriu e por isso você foi punida?"
A atmosfera inteira estagnou no mesmo instante.
"Você..." Samara sentiu que a situação era desfavorável e contraiu as sobrancelhas, "Do que você está falando?"
Silas, contudo, ignorou a reação dela e avançou passo a passo: "As diretrizes do Pub Semiacordado determinam que membros isolados que sabotem uma missão devem receber trinta açoites."
Diante daquela constatação, o coração dela despencou para o fundo do abismo.
"Como você conhece os detalhes do Pub Semiacordado com tanta precisão?"