Ela havia cerrado os dentes, sem permitir que nenhum som escapasse.
Pelas diretrizes da organização, sabotar uma missão exigia punição.
E demonstrar dor resultava no acréscimo de mais um açoite para cada gemido.
Após a conclusão dos trinta açoites, suas costas não possuíam nenhuma área intacta.
A pele estava dilacerada, em carne viva.
"Obrigada à organização." Entorpecida pela dor intensa, Samara manteve o corpo rígido e respondeu com a voz totalmente rouca.
O líder deixou uma última instrução: "Afaste-se de Silas e não colabore mais com ele", virando as costas para sair em seguida.
Aquilo era uma advertência direta para ela.
Caso ela desobedecesse, o desfecho seria a caçada de todos os membros da organização contra a vida dela.
Samara aplicou a medicação em silêncio, improvisou uma bandagem rápida e deixou o subsolo.
O salão do primeiro andar continuava mantendo a iluminação baixa, a atmosfera sensual e a música ensurdecedora, com as pessoas dançando de forma frenética.
Líderes e assassinos, metade em transe e metade lúcidos.
Aquela máxima de fato era real.
Ao encarar a densa escuridão da madrugada, a dor em suas costas a fez contrair as sobrancelhas.
Samara acenou para chamar um táxi e se dirigiu para casa.
Assim que chegou, deitou-se na cama e adormeceu imediatamente.
Após um período indeterminado, o toque do celular a despertou.
"O que aconteceu?" Samara atendeu diretamente, sem verificar a identidade do autor da chamada.
"Esteja na portaria em dez minutos, estou passando para te buscar para nos casarmos."
Capítulo 19
A voz de Silas ecoou pelo receptor do celular, mas o conteúdo deixou Samara sobressaltada:
"Casar... Ah!"
Com o susto, ela esqueceu a dor em suas costas e tentou se impulsionar com as mãos para se levantar da cama. Uma pontada aguda de dor a atingiu, fazendo suas mãos fraquejarem e ela desabar novamente sobre o colchão.
"O que aconteceu?" Silas demonstrou ansiedade.
Ela imediatamente mordeu o lábio inferior, contendo o gemido de dor.
"Não é nada..." Contraindo as sobrancelhas, ela rolou na cama com lentidão para se levantar e questionou: "Por que tanta urgência?"
Silas hesitou por um segundo: "A situação com o seu ex-marido já foi totalmente resolvida, não deveríamos nos casar?"
"Mas isso é repentino demais, eu ainda não estou preparada." Samara usou intencionalmente um tom recatado ao falar.
Que tipo de absurdo era aquele? No estado atual em que se encontrava, sentia dor até para caminhar, como poderia se apresentar a alguém?
Silas soltou uma risada leve: "A cerimônia de casamento será organizada sem pressa, por hora vamos apenas registrar a união e assinar os documentos."
"Não podemos deixar para outro dia?" Ela cerrou os dentes e continuou: "Hoje não é um momento oportuno."
"Como hoje não..." O homem hesitou na fala, "Você está se sentindo mal?"
Samara tocou os ferimentos em suas costas; embora estivessem em fase de cicatrização, qualquer movimento provocava dor.
Ele acertara em cheio, ela de fato estava indisposta.
"Sim, eu estou indisposta."
Ao escutar a resposta, Silas demonstrou consideração: "Então nós vamos diretamente ao hospital."
"Ah, não há necessidade disso", ela interveio apressadamente.
Com o corpo coberto por ferimentos daquele jeito, se ela de fato pisasse em um hospital, tudo estaria arruinado.
"Não é nada grave."
Silas pareceu surpreso por um milésimo de segundo diante das palavras e, como se decifrasse algo, determinou: "Então enviarei funcionários à sua casa, permaneça em repouso."
Samara calculou o pior cenário; seu objetivo era justamente evitar o encontro com ele, que diferença faria ele vir até a casa dela ou ela ir ao encontro dele?
"Existe alguma justificativa de grande peso para que seja justamente hoje?" Ela sentiu total impotência.
A voz de Silas soou com a firmeza habitual através do aparelho, transmitindo uma sutil interferência que fez o coração dela afundar.
"Amanhã é o aniversário de falecimento da minha mãe, eu gostaria de apresentá-la à nora."
O tom dele pareceu ainda mais grave do que o costume, tocando o lado sensível dela ao recordar de seu mestre...
Samara cerrou os dentes para se levantar e cedeu: "Esteja na portaria em dez minutos, nos vemos lá embaixo."
...
No carro.
Ela observava Silas discretamente; ele mantinha a expressão neutra habitual, mas exibia uma postura ainda mais melancólica.
"Você está bem?" Ela questionou.
Silas permaneceu em silêncio, depositando um recipiente com água morna e açúcar mascavo na palma da mão dela.
Samara encarou o líquido com surpresa e o viu retirar uma manta para cobrir seu abdômen e pernas, enquanto dizia:
"Peço desculpas por fazê-la sair de casa mesmo estando indisposta."
"Dizem que isso ajuda a aliviar o desconforto."
Dito isso, ele a fixou com as pupilas brilhando, parecendo verificar se a medida surtia efeito.
Samara compreendeu imediatamente que ele havia interpretado a situação de outra forma.
Ela fez menção de afastar a manta, mas pareceu recordar algo; seus olhos brilharam, ela aceitou a bebida e sorriu: "Obrigada."
Silas interrompeu os movimentos por um instante e baixou os cílios.
"A formalização deste casamento de fato está sendo precipitada..."
"Mas encaro isso como o início de uma nova fase em nossas vidas."
Ela sentia a mente tomada por pensamentos complexos.
Especialmente ao recordar a advertência do líder na noite anterior, sentia-se sem saber como reagir.
Um forte ruído de colisão rompeu o isolamento do silêncio entre os dois.
O veículo sofreu um forte solavanco, e o motorista acionou o freio de emergência imediatamente.
Havia acontecido um acidente.
O motorista exibia uma feição totalmente atordoada e exclamou assustado diante do cenário, justificando-se: "Aquele veículo surgiu de forma abrupta, a culpa não foi minha!"
Exatamente na lateral direita do passageiro, a lataria estava amassada pelo impacto de um carro preto que havia colidido contra eles.
Silas ignorou o ponto da colisão, contraiu as sobrancelhas com força e encarou Samara: "Você está bem?"
Pelo impacto da batida, seu corpo sofreu um solavanco que acabou afetando as feridas em suas costas, fazendo um gemido de dor escapar por entre seus dentes: "Hum..."
Gotas de suor frio já cobriam sua testa.
"Não... não foi nada." Ela afastou a mão de Silas.
Os olhos de Silas se tornaram hostis, indicando que ele estava prestes a explodir, mas a cena foi interrompida por batidas no vidro do carro.
"Irmão mais velho, sou eu, Yago!"
Capítulo 20
Yago era o terceiro jovem mestre da família Silas.
No período em que investigara Silas no passado, ela também estendera o levantamento de dados à família dele.
Do lado de fora do vidro, o homem exibia a pele clara, lábios bem delineados e cabelos cacheados, ostentando pupilas de aparência inocente que remetiam a uma criatura indefesa.
Contudo, naquele ambiente hostil e cruel da família Silas, como seria possível a existência de alguém verdadeiramente inocente?
"O que você está fazendo neste local?" Silas abaixou o vidro do carro e questionou.
"Vim passear com o meu amigo!" Yago apontou na direção do indivíduo atrás dele.
O sujeito esboçou um sorriso tenso e se aproximou com cautela para apresentar desculpas: "Peço perdão pela inconveniência, mestre Silas, a falha foi minha."
Silas manteve os cílios baixos, sem revelar nenhuma expressão.
A postura dele deixou o sujeito ainda mais constrangido e nervoso, a ponto de amassar a borda da própria roupa com os dedos.
Yago compreendeu o cenário, fez um gesto com a mão dispensando o amigo e se apoiou na lateral da janela de Silas, alargando o sorriso:
"Irmão mais velho, ele acabou de tirar a habilitação e eu estava acompanhando o treino dele... Não seja tão severo com ele."
O olhar de Silas se tornou gélido: "Você agora tem autoridade para determinar as minhas ações?"
O sorriso de Yago se acentuou: "Irmão mais velho... não foi essa a minha intenção..."
"Ele é o meu amigo, me dê esse voto de consideração e não estenda a punição a ele."
A fala de Yago era carregada de uma proximidade forçada, provocando um estremeção no íntimo de Samara.
Silas exibia uma postura imponente e uma forte pressão, deixando-a intimidada a ponto de evitar falas longas diante dele; contudo, o terceiro jovem mestre parecia imune àquela pressão, sendo capaz de agir de forma manhosa diante daquela figura severa.
Silas direcionou um olhar frio a ele e desdenhou: "O seu voto de consideração não tem valor nenhum para mim."
Seu tom era gélido e repleto de arrogância, carregando uma sutil ironia nas palavras.
Yago estagnou no lugar; Samara percebeu um lampejo de inconformismo passar pelos olhos dele por um milésimo de segundo, aumentando seu estado de alerta contra ele.
Contudo, em um instante ele retornou à feição habitual: "Irmão mais velho, se você recusa o meu voto de consideração, deve ao menos respeitar a posição da família叶."
Família叶?
Ela recordou da jovem que visualizara no passado, a herdeira principal daquela linhagem.
Movida pela curiosidade, ela direcionou o olhar para Yago e escutou a afirmação dele: "Afinal, você mantém um compromisso de noivado com a Zoé."
O noivado...
Ao escutar a revelação, Samara ficou totalmente em choque.
Yago continuou falando como se não tivesse notado a presença dela ali: "Após o casamento ser formalizado, seremos todos da mesma família, e a harmonia favorece os negócios."