Ela mandou entregar um cofre.
Dentro dele estava todo o material referente a Daniel.
O registro da transferência de dois milhões de reais, o vídeo do conflito no canteiro de obras e alguns documentos avulsos de correspondência.
Felipe conferiu item por item e confirmou que tudo estava ali.
Aninha, ela não guardou nenhum backup?
Vocês já verificaram?
Sim. Os dispositivos eletrônicos, o armazenamento em nuvem e as contas vinculadas dela foram todos limpos.
É impossível limpar tudo com tanta perfeição.
Mas, dentro do alcance do que podemos rastrear no momento, realmente não há mais nada.
Tranquei o cofre.
Mesmo que ela tenha guardado alguma cópia, sem os contatos e os canais em São Paulo, esses arquivos não teriam força para causar nenhum estrago se fossem expostos.
Viviane deixou São Paulo no terceiro dia.
Antes de partir, ela fez algo que eu não previa.
Pediu para Seu Jorge me entregar uma carta.
A carta era muito curta.
Anita, eu não fui uma boa mãe. Não preciso que você me diga isso, eu mesma sei.
Eu não te abandonei no passado porque você se parecia com o seu pai. Isso foi uma provocação que a Camila inventou para te desestabilizar.
O verdadeiro motivo foi que eu mesma não conseguia mais sobreviver. O seu pai me agredia com muito mais crueldade do que agredia você. Quando fugi, não consegui pensar em mais nada.
Isso não é uma justificativa. Mas é a realidade.
Você está vivendo melhor do que eu. Esse é o meu único consolo.
Cuide-se.
Terminei de ler a carta.
Dobrei-a e a guardei na gaveta.
Não a queimei.
Mas também não voltei a lê-la uma segunda vez.
Ao meu lado, Dona Clara perguntou: Aninha, você acredita no que ela escreveu?
Acreditar ou não já não faz mais diferença.
Ela se foi.
Esse assunto está encerrado.
Dona Clara soltou um suspiro.
Mas as coisas não se encerrariam tão rápido assim.
Viviane havia partido, Camila aguardava o parto em Curitiba e o material fora recuperado.
No entanto, a barreira com Daniel ainda não havia sido superada.
Ele voltava para casa todos os dias.
Sentava-se à mesma mesa comigo para jantar todos os dias.
Mas a distância entre nós era ainda maior do que antes.
Ele não mencionava mais Camila.
Não mencionava mais Viviane.
E também não voltava a repetir aquela frase de que o nosso casamento só teria uma saída.
Ele se tornou extremamente silencioso.
Retornava todos os dias, cuidava dos assuntos da empresa, analisava alguns documentos e depois ia dormir.
Às vezes, ao acordar no meio da noite, eu conseguia sentir que ele estava sentado ao lado.
Sem acender as luzes.
Sem pronunciar palavra.
Apenas sentado ali.
Em uma dessas noites, mudei de posição na cama e ele julgou que eu estivesse dormindo.
Proferiu uma frase em tom muito baixo.
Aninha, você ainda é a Aninha que eu conheci?
Não abri os olhos.
E também não respondi.
Eu não sabia como responder.
Eu ainda era a Aninha que ele conhecera?
Talvez não.
A Aninha que ele conhecia esperaria dez anos por ele, sofreria um aborto por ele e pularia da janela com um barrigão para salvá-lo no momento do sequestro.
Aquela Aninha entregaria toda a sua doçura e fortaleza a ele, guardando apenas as cicatrizes para si.
A Anita de agora possuía a sua própria empresa, as suas próprias conexões e as suas próprias cartas.
A Anita de agora já não precisava se esconder atrás dele.
Porém, ele já não reconhecia a Anita que não se escondia atrás dele.
O problema era dele, não meu.
Capítulo 28
A reviravolta surgiu um mês depois.
O filho de Camila nasceu em Curitiba.
Era um menino.
Marcos ligou para avisar Daniel.
Após desligar o telefone, Daniel permaneceu sentado no escritório por um longo tempo.
Em seguida, veio me procurar.
Aninha, o bebê nasceu.
Fiquei sabendo.
Gostaria de ir até lá ver.
Fiquei apenas olhando para ele.
Pode ir.
Você não vai me impedir?
A criança é sua. Você tem o direito de ir ver.
Ele estacou junto à porta, hesitando por um momento.
Aninha, quer ir comigo?
Não.
Ele partiu.
Três dias depois, ele retornou.
Trazia uma fotografia.
O rostinho todo enrugado de um recém-nascido, dormindo nas mantas.
Ele pousou a foto sobre a mesa.
Não fez menção de me mostrar, mas também não a ocultou.
Apenas a deixou ali.
Lancei um olhar de relance.
Se parece com você.
Ele pestanejou, surpreso.
Aninha...
Eu dizer que se parece com você não significa que eu aceite a situação.
Eu sei.
O que pretende fazer?
A criança receberá o meu sobrenome. A pensão alimentícia será depositada mensalmente. E a Camila não retorna para São Paulo.
Ela concordou com isso?
Ela não tem margem de escolha.
Assenti com a cabeça.
Há mais uma questão.
O quê?
Vou desvincular os negócios de Olívia da sua cadeia de suprimentos.
A fisionomia dele mudou drasticamente.
O que isso significa?
A minha fatia de participação naquelas três empresas essenciais da sua cadeia de suprimentos será transferida gradualmente para um terceiro independente ao longo dos próximos seis meses.
Após a transferência, Olívia e o Grupo não manterão mais nenhum vínculo comercial direto.
Por que quer fazer isso?
Porque não quero mais estar amarrada a você.
Ele silenciou por um longo tempo.
Você quer o divórcio?
Não se trata de divórcio.
Você mesmo disse que o nosso casamento só teria uma saída.
Mas casamento é casamento, negócios são negócios.
Posso continuar sendo a sua esposa, mas não aceito mais ser o seu acessório.
Você comanda a sua empresa, eu comando a minha.
Você segue o seu caminho, eu sigo o meu.
Daqui para frente, cada um cuida da própria rotina. Sob o mesmo teto, mas com total independência.
Ele ficou me encarando.
É isso o que você quer?
Esse é o melhor desfecho que posso aceitar.
Ele baixou os olhos.
Colocou as duas mãos nos bolsos.
Tudo bem.
A partir daquele dia, eu e Daniel nos tornamos formalmente um casal de fachada.
Morando na mesma mansão, utilizando escritórios separados e cuidando de carreiras independentes.
Ocasionalmente nos cruzávamos à mesa de jantar, trocando duas palavras com total polidez.
Na maioria das vezes, sequer nos encontrávamos.
No entanto, havia um detalhe que não mudava.
A cada dia quinze do mês, ele deixava um maço de lírios sobre a mesa do meu escritório.
Sem cartões, sem mensagens.
Apenas pousava as flores ali.
Eu jamais as joguei no lixo.
Mas também nunca toquei no assunto.
Nesse equilíbrio singular, o tempo avançou por três meses.
Três meses depois, um acontecimento rompeu a calmaria.
Vovó Helena adoeceu.
Foi internada.
O estado de saúde dela não era bom.
Quando me cruzei com Daniel no corredor do hospital, já passava das duas da madrugada.
Ele estava escorado na parede, com a gravata frouxa e as mangas da camisa dobradas até os cotovelos.
Ao me ver, a expressão dele suavizou por um instante.
Você veio.
A enfermidade da vovó, como eu deixaria de vir?
A idosa dormia no quarto do hospital.
Permanecemos do lado de fora da porta.
O que disseram os médicos?
Será necessária uma intervenção cirúrgica. Os riscos não são baixos.
Fiquei observando aquela figura frágil através do vidro.
Aquela senhora.
Anos atrás, quando todos os outros viraram as costas para o Daniel, ela gastou uma fortuna com advogados por ele.
Quando eu estava grávida, vinha ao hospital me acompanhar.
E, antes do fórum, me garantiu que estaria do meu lado.
Ela jamais tomara partido de forma injusta.
Era apenas uma idosa que almejava ver o neto vivendo bem.
O que ela disse enquanto estava consciente?
Daniel silenciou por um momento.
Disse que gostaria de nos ver reconciliados.
Não respondi.
Disse também que, se não conseguisse resistir à cirurgia desta vez, o único lamento seria partir sem nos ver retomando o que éramos no passado.
O corredor estava perfeitamente deserto.
A iluminação era de um branco pálido.
Aninha.
Hum.
Você acha que ainda somos capazes de retomar o passado?
Fiquei apenas olhando para ele.
Esse homem.
Aos dezessete anos, por minha causa, golpeou um homem até a morte com uma barra de ferro.
Passou dez anos na prisão e, ao sair sem possuir nada, partiu sozinho para construir a vida em São Paulo.
Em cinco anos, passou de carregar tijolos no canteiro de obras a presidente de um grupo imobiliário.
Cada passo dado por ele, na sua origem primeira, visava me proporcionar uma vida confortável.
No entanto, ao longo desse caminho, ele se perdeu.
Deixou-se encurralar pelos segredos de Viviane.
Deixou-se enredar pela doçura de Camila.
Entregou a outra pessoa as palavras que pertenciam a mim.
Utilizou aquela minha frase para consolar outra mulher na frente dela.
Disso tudo, eu não me esqueceria.
Mas também não esqueceria a frase que ele gritou para mim aos dezessete anos.
"Anita, você está livre!"
Se somos capazes ou não de retomar o passado, não é uma pergunta para ser respondida no dia de hoje.
Virei-me e entrei no quarto do hospital.
Passei a noite inteira sentada ao lado do leito da idosa.