"Se você não for embora, eu mesma me mudo para aí."
A segunda gravação mostrava a segunda visita dela, acompanhada de Viviane.
"O Daniel me deu a chave reserva desta mansão e disse que eu posso vir quando quiser."
"O que você fez comigo da última vez, eu não contei a verdade para o Daniel. Então, querida, agora você me deve um favor."
A terceira gravação era a nossa última conversa por telefone.
"Você cresceu sem mãe, eu sempre tive a minha. Você cresceu na lama, eu cresci no luxo."
"E agora eu tirei até o seu marido de você."
"A nossa mãe disse que, na época, ela não te levou junto porque você se parece demais com o seu pai. Olhar para você causava repulsa nela."
Após a reprodução dos três áudios, o grupo das esposas veio abaixo.
Mas os dois registros das câmeras de segurança foram ainda mais devastadores.
O primeiro mostrava a terceira visita de Camila, quando ela acariciava a barriga diante da câmera e dizia em tom de total deboche: "Irmã, você ainda quer tentar algo?".
O segundo exibia a imagem dela me ligando logo após ler o dossiê no apartamento. Ela sorria ao telefone dizendo "Gostou da surpresa?", enquanto os guarda-costas observavam tudo de perto.
Toda aquela imagem de coitada e indefesa se despedaçou diante dos áudios.
Isabel limitou-se a escrever uma única frase no grupo: "Escutem, vejam e tirem suas próprias conclusões".
Em menos de duas horas, a postura do círculo das esposas mudou radicalmente.
A Senhora Franco foi a primeira a compartilhar os áudios em suas próprias redes, com a legenda: "Realmente, não se pode julgar ninguém pelas aparências".
Camila Guedes postou um pedido de desculpas no grupo: "Eu não conhecia a totalidade dos fatos, peço desculpas pelo mal-entendido com a Anita".
Lívia foi ainda mais direta: "Uma pessoa dessas ainda tem a audácia de publicar textão se fazendo de vítima? Que repulsa."
Ao cair da tarde, o cenário nas redes sociais públicas também começou a se inverter.
Alguns usuários cortaram trechos dos áudios e os publicaram; o volume de visualizações disparou rapidamente.
A hashtag "A amante que ataca a esposa legítima" substituiu os tópicos anteriores.
A seção de comentários do longo texto de Camila passou de opiniões divididas para um linchamento virtual unânime.
"Então você era a verdadeira provocadora desde o início."
"Carregar o filho do marido de outra mulher e ainda ter a audácia de ir à casa da esposa tripudiar, cadê a vergonha na cara?"
"A mãe é ainda pior, abandona a filha legítima por vinte anos e volta para roubar o genro?"
Camila apagou o texto longo.
Mas já era tarde demais.
Os prints da publicação circulavam por toda parte.
Às onze horas daquela mesma noite, a campainha tocou.
Abri a porta.
Camila estava parada na entrada.
Sem guarda-costas, sem Viviane, completamente sozinha.
Os olhos dela estavam inchados como pêssegos.
A maquiagem estava toda borrada.
Anita!
Ela invadiu a casa e agarrou o colarinho da minha roupa com força.
Por que você está fazendo isso comigo?!
A força dela era surpreendente.
As mãos dela tremiam.
Você já venceu! Já desmascarou a minha mãe! Já destruiu a minha reputação! O que mais você quer de mim?!
Afastei as mãos dela.
Camila, na primeira vez em que você me ligou, você por acaso pensou no dia de hoje?
Quando veio à minha casa e se sentou na minha cadeira, pensou no dia de hoje?
Quando se colocou na minha frente acariciando a barriga para tripudiar, pensou no dia de hoje?
Ela deu um passo atrás.
Aquelas coisas... aquelas coisas foi a minha mãe quem mandou eu fazer. Ela disse que só assim conseguiria te forçar a ceder o lugar.
E o fato de ter sido ordem da sua mãe anula o que você fez?
Você é uma pessoa adulta, tem mãos, pernas e discernimento. Escolheu se deitar com o marido de outra mulher, escolheu vir provocar a esposa legítima.
E agora vem me dizer que foram ordens da sua mãe?
Ela ficou sem palavras.
As lágrimas rolavam em sequência pelo rosto dela.
Anita, eu te suplico. Me deixe em paz.
Eu vou embora. Vou pegar o bebê e sumir de São Paulo, nunca mais apareço na sua frente.
Pode ser?
Fiquei observando-a.
Aquela jovem de vinte e três anos.
Usando um vestido todo amarrotado, com o rosto coberto de marcas de lágrimas e uma das mãos protegendo a barriga.
Se fosse em outra situação, talvez eu me comovesse.
Mas me lembrei de três anos atrás.
Eu deitada na mesa de cirurgia.
Perdendo sangue.
O médico me dizendo para me preparar para o pior.
Daniel esperando por seis horas do lado de fora.
E, ao sair, ele me dizendo: Aninha, vou te compensar pelo resto da vida.
E a compensação era outra mulher carregando um filho dele.
Tarde demais.
Virei-me para subir as escadas.
A pessoa a quem você deve suplicar não sou eu.
É a sua mãe.
Foi ela quem te infiltrou nessa jogada.
E apenas ela pode te tirar dela.
Mas, olhando a atual situação em que ela se encontra, temo que ela mesma esteja ocupada tentando se salvar.
Camila desabou sentada no chão, chorando a ponto de soluçar por inteiro.
Dona Clara a amparou para fora.
Assim que a porta se fechou, Dona Clara perguntou em tom baixo: Aninha, você acredita quando ela diz que vai embora?
Não.
Enquanto a Viviane estiver aqui, ela não vai embora de verdade.
Viviane é o pilar dela, mas também é a sua prisão.
Ela julga ser livre para escolher ir embora, mas Viviane jamais permitiria.
E, como previsto.
No dia seguinte, Camila apareceu novamente.
Não veio me procurar.
Foi atrás de Daniel.
Passou a tarde inteira de vigília na porta da empresa dele.
Diante de todos os funcionários da empresa.
Exibindo aquela barriga de cinco meses.
Chorando e suplicando para que ele a levasse dali.
Capítulo 25
Quando Daniel desceu, uma multidão já havia se aglomerado ao redor da entrada da empresa.
Funcionários, pedestres e pessoas tirando fotos.
Camila estava agachada na beira do canteiro de flores, com as duas mãos envolvendo a barriga, chorando a ponto de faltar o ar.
Ao lado, alguém gravava um vídeo.
Marcos andava de um lado para o outro, ansioso.
A cunhada não tem como vir, e a Senhorita Camila também não aceita conselhos, Daniel, desça logo por favor.
Daniel caminhou até parar na frente de Camila.
Ele não se agachou.
Permaneceu de pé, olhando para ela de cima para baixo.
Camila ergueu o rosto borrado de lágrimas.
Daniel, me leve embora com você. Vamos deixar São Paulo, serve qualquer lugar.
Eu não quero mais status, não quero casa, não quero nada.
Eu só quero ficar com você e ter esse bebê.
O número de curiosos aumentava a cada instante.
Alguns já cochichavam entre si.
Daniel não pronunciou palavra.
Ele se agachou, tirou o paletó e o colocou sobre os ombros dela.
Em seguida, amparou-a para que se levantasse.
Venha comigo lá para cima primeiro. Não fique aqui.
Não vou!
Camila desvencilhou-se da mão dele com um puxão.
Você não cumpriu nada do que prometeu à minha mãe da última vez! Disse que a colocaria na gestão, mas no fim ajudou a Anita a desmascarar tudo no fórum!
Você enganou a minha mãe! E me enganou também!
Você só usou a gente do início ao fim!
Os curiosos começaram a gravar a cena com os celulares.
Marcos ensaiou dar um passo para intervir, mas foi contido por um olhar de Daniel.
A voz de Camila ficava cada vez mais alta.
A minha mãe tem razão, você e a Anita estão do mesmo lado! Vocês se aliaram para zombar da gente!
Você me deixou grávida e agora quer me descartar. Qual é a diferença entre você e o meu pai!
Aquela frase caiu como uma pedra sobre a multidão.
Os burburinhos ganharam força.
Alguns mostravam pena.
Outros assistiam como se fosse um espetáculo.
Alguém começou a criticar Daniel.
Que cafajeste.
Tem família e ainda faz esse tipo de coisa.
Coitada da garota.
A fisionomia de Daniel fechou.
Nesse momento, um carro estacionou na beira da calçada.
A porta se abriu e eu desci.
A multidão abriu passagem espontaneamente.
No instante em que Camila me viu, o choro cessou.
Todos os olhares se concentraram em mim.
Caminhei até parar na frente de Camila.
Parei.
Terminou de falar?
Os lábios dela se moveram, mas nenhum som foi emitido.
Você despejou um bando de palavras agora há pouco. Disse que ele te enganou, te usou e quer te descartar.
Então, deixe-me te fazer uma pergunta.
Quando a sua mãe contou com o que o chantageava e o coagia para ficar com você, qual foi a sua reação?
Ela não respondeu.
Quando a sua mãe te contou, você por acaso disse "mãe, isso não está certo"?
Ela baixou a cabeça.
Quando a sua mãe mandou você ir à minha casa me provocar, achou que havia algo de errado?
Quando se colocou na minha frente acariciando a barriga para tripudiar, pensou por um instante que eu também já havia carregado um filho dele, que se foi?