Ele se virou e subiu as escadas.
A porta do quarto foi batida com força.
Dona Clara recolheu os guiozas de caranguejo.
Aquele maço de lírios, pedi para ela jogar no lixo.
Capítulo 10
A reviravolta na situação aconteceu de forma muito abrupta.
Três dias depois, Camila foi internada.
Ameaça de aborto.
Não foi obra minha.
Eu sequer tinha cruzado com ela.
Diziam que o estado emocional dela estava instável demais e, somado à constituição física frágil, a gestação nunca esteve firme.
Daniel permaneceu no hospital por três dias e três noites sem pregar o olho.
Essa notícia me foi dada por Marcos.
Cunhada, desta vez não estou inventando nada, o Daniel está completamente desesperado.
O tom de Marcos ao telefone era cauteloso.
O médico disse que o bebê corre o risco de não resistir.
Continuei sentada na sala de casa, esperei ele terminar de falar e desliguei.
Se resiste ou não, o que eu tenho a ver com isso?
Mas, após desligar o aparelho, percebi que minhas mãos tremiam.
Três anos atrás.
No mesmo hospital.
A mesma ameaça de aborto.
Naquela época, Daniel também permaneceu de vigília por três dias e três noites.
Cuidando de mim.
No fim, não foi possível salvar o bebê.
A criança se foi.
Tive uma forte hemorragia na mesa de cirurgia, e os médicos emitiram dois alertas de estado crítico.
Ele passou seis horas em pé no corredor.
Quando saiu de lá, as costas da camisa estavam encharcadas de suor.
Ele segurou minhas mãos, colou-as contra o peito dele e repetiu inúmeras vezes:
Feche os olhos, não precisa olhar, eu fico na frente para te proteger.
Essa foi a frase que ele mais me disse desde a infância.
Desde quando meu padrasto erguia garrafas de bebida para me agredir, até quando eu perdia a consciência de dor na sala de parto.
Ele sempre colocava o próprio corpo na frente, usando as mãos para cobrir os meus olhos.
Feche os olhos, não precisa olhar, eu fico na frente para te proteger.
Agora, na frente de quem ele estava se colocando?
Balancei a cabeça negativamente.
Não quero mais pensar nisso.
Peguei meu casaco e saí de casa.
Não fui ao hospital.
Fui até o apartamento de Camila.
Daniel não estava lá, e os guarda-costas o acompanharam até o hospital.
A senha da fechadura eletrônica do apartamento já havia sido descoberta por Felipe antes de o bloqueio acontecer.
Digitei a senha.
A porta se abriu.
Aquele apartamento era mais acolhedor do que eu imaginava.
Havia marcas da rotina de duas pessoas por todos os cantos.
Bilhetes adesivos colados na geladeira exibiam a caligrafia de Daniel.
O leite está na segunda prateleira, tome dois copos por dia.
Hoje vou chegar um pouco mais tarde, pode comer primeiro, a comida está na panela.
Mila, não saia por aí à toa, está frio lá fora.
Mila.
Ele a chamava de Mila.
E a mim de Aninha.
O peso de um apelido carinhoso, pelo visto, podia ser distribuído entre duas pessoas ao mesmo tempo.
Não mexi em nenhum objeto da casa.
Apenas permaneci de pé no centro da sala, olhando ao redor.
Foi quando avistei um envelope de papel pardo deixado sobre a mesa de centro.
Havia duas palavras escritas nele.
Anita.
Era a caligrafia de Camila.
Eu já a tinha visto nos prints de mensagens que ela enviara antes.
O envelope não estava lacrado.
Dentro dele, havia uma carta e uma pasta de arquivos.
A carta continha apenas poucas linhas.
Irmã Anita, se você está lendo isto, significa que finalmente não aguentou e veio até aqui.
Quanto mais o Daniel tenta ocultar o meu passado, mais você quer saber. Eu te conheço.
Mas ele não me deixa te contar pessoalmente, por isso precisei usar este método.
Abra a pasta de arquivos e dê uma olhada.
Depois de ver tudo, você vai entender o motivo de o Daniel me amar e não amar você.
E vai entender também por que tive a audácia de ir à sua casa e me sentar na sua cadeira.
Prepare-se para a surpresa.
Abri aquela pasta de arquivos.
Primeira página.
A cópia do documento de identidade de Camila.
Nome original: Viviane.
Segunda página.
Uma certidão de nascimento.
No campo da mãe: Viviane.
Minha mão travou.
Terceira página.
Uma fotografia.
A mulher na foto aparentava pouco mais de quarenta anos, muito bem cuidada, maquiagem impecável, vestindo um conjunto de alta-costura.
Era a mesma mulher que acompanhara Camila até a minha casa da última vez.
No verso da foto, estava escrito:
Mãe.
Quarta página.
Um laudo de exame de DNA.
Indivíduos testados: Viviane e Viviane (Camila).
Conclusão: Vínculo de maternidade confirmado.
Quinta página.
Outro laudo de exame de DNA.
Indivíduos testados: Viviane e Anita.
Conclusão: Vínculo de maternidade confirmado.
Fechei a pasta.
O papel em minhas mãos tremia.
Não era medo.
Não era tristeza.
Era uma sensação de impacto que parecia brotar de dentro dos ossos, mais pesada do que os golpes do meu padrasto, mais dolorosa do que a perda do meu filho.
Minha mãe.
Viviane.
A mulher que me abandonou aos seis anos de idade e desapareceu sem deixar vestígios.
Enquanto eu era espancada pelo meu padrasto até sangrar, enquanto quase fui vendida, enquanto Daniel matava para me salvar e mofava na cadeia por dez anos.
Onde ela estava?
Ela estava criando outra filha.
Deu a ela o mesmo nome, Viviane.
Comprou alta-costura para ela, deu a ela uma grande casa para morar e permitiu que ela crescesse sem nenhuma preocupação até os vinte e três anos.
E então, essa filha que ela criou com tanto zelo veio roubar o meu marido.
Dormiu na cama do meu marido.
Engravidou de um filho do meu marido.
Sentou-se na cadeira da minha casa.
E me chamou de irmã.
E a minha mãe, que havia sumido há vinte anos, estava parada logo atrás dela, sorrindo enquanto me observava.
O celular tocou.
Era o número de Camila.
Atendi.
A voz dela veio do outro lado da linha, carregada daquele eco característico de ambiente hospitalar.
Irmã, já terminou de ler?
Gostou da surpresa?
Você cresceu sem mãe, eu sempre tive a minha. Você cresceu na lama, eu cresci no luxo.
E agora eu tirei até o seu marido de você.
Irmã, me diz uma coisa: no fim das contas, de qual de nós a nossa mãe gosta mais?
Um outro som ecoou ao fundo da ligação.
Era a voz de Daniel.
Mila, com quem você está falando no telefone?
Camila cobriu o microfone do aparelho, deixando escapar apenas poucas palavras abafadas.
Pude ouvir Daniel dizer alguma coisa.
Em seguida, Camila retomou a ligação.
Irmã, o Daniel chegou, preciso desligar.
Ah, esqueci de te contar mais uma coisa.
A nossa mãe disse que, na época, ela não te levou junto não foi porque não quis.
Foi porque você se parece demais com o seu pai. Olhar para você causava repulsa nela.
Por isso ela levou apenas a mim.
Boa noite, irmã.
A ligação caiu.
Fiquei parada na sala daquele apartamento, cercada por fotos de Daniel e Camila cobrindo as paredes.
E, no intervalo em que Camila e Daniel conversavam há pouco, consegui captar uma frase.
Não foi dita por Camila.
Foi Daniel.
Ele disse: "Feche os olhos, não precisa olhar, eu fico na frente para te proteger".
Ele deu aquela frase para ela.
Capítulo 11
Fiquei parada naquele apartamento por dez minutos.
Depois, guardei a pasta de arquivos na bolsa e saí.
Quando o vento da noite invadiu o meu colarinho, foi que finalmente recobrei a lucidez.
Elas pensaram que aquele dossiê seria uma faca.
Que ao ser cravada, me faria rolar pelo chão de tanta dor.
Mas elas se esqueceram de um detalhe.
Eu fui criada entre facas.
Ao entrar no carro, disquei para um número.
Felipe, os seus equipamentos já foram devolvidos?
Foram sim, Aninha.
Preciso que faça uma coisa para mim.
Puxe o livro de registro de acionistas daquela empresa que está no meu nome e envie para mim.
Felipe silenciou por dois segundos.
Aninha, você tem certeza de que quer mexer com o lado de lá?
Certeza absoluta.
Depois de desligar o telefone, encostei-me no banco de trás e fechei os olhos.
Ninguém sabia que, nesses cinco anos em que Daniel brilhava nos holofotes, metade do fluxo financeiro por trás dele era sustentado por mim.
Anos atrás, quando ele passou de operário a mestre de obras e conseguiu o seu primeiro pequeno projeto, faltavam três milhões de reais para o capital inicial.
Fui eu quem deu esses três milhões.
De onde veio?
Usei aquela casa antiga deixada pela minha mãe como garantia para um empréstimo de um milhão e peguei mais dois milhões emprestados com conhecidos.
Ele não sabia de nada.
Achava que eu tinha conseguido o dinheiro emprestado com parentes.
Mais tarde, os negócios dele foram se expandindo cada vez mais, e eu, aos poucos, transformei aqueles três milhões em uma empresa de investimentos.
Não usei o nome de Anita.
Utilizei outra identidade.
Olívia.
No círculo de investimentos de São Paulo, havia um nome muito discreto, mas de imenso peso: Olívia.