A noite caía pesada sobre Paraisópolis.
A chuva insistia em cair, fina no começo, depois forte, batendo nas telhas de zinco, transformando as vielas em rios improvisados e espalhando o cheiro de terra molhada pelo ar.
Mariana carregava a mochila térmica cheia de brigadeiros, equilibrando cada passo nas pedras escorregadias. Pedrinho corria ao lado, tropeçando constantemente nos paralelepípedos, tentando ajudar.
— "Você vai derrubar tudo de novo!" — resmungou Mariana, ajustando a mochila.
— "Desculpa! Eu só queria ajudar..." — disse Pedrinho, arfando.
Ela respirou fundo, tentando ignorar a preocupação que crescia dentro de si. Havia algo estranho naquela rua. Um movimento que não parecia natural.
E então ela viu.
Atrás de uma lixeira, quase escondido pela escuridão e pela chuva, um homem estava caído.
Sujo, molhado, com roupas rasgadas e braços machucados. A cabeça apoiava-se no chão, ligeiramente inclinada.
Ele parecia exausto, febril, indefeso.
Mariana congelou por um instante. O instinto gritava para passar reto, mas havia algo naquele homem que a impelia a se aproximar.
Pedrinho parou, olhando para ela.
— "Quem é ele?"
— "Não sei…" — respondeu Mariana, a voz trêmula. — "Mas não posso deixá-lo assim."
Ela avançou devagar, sentindo a água da chuva escorrer pelo cabelo e pelo rosto. A cada passo, o coração acelerava, misturando medo e compaixão.
Os olhos do homem abriram-se por um instante. Escuros, confusos, doloridos. Ele tentou se levantar, mas o corpo fraco não permitia. Mariana inclinou-se e tocou sua testa, sentindo febre.
— "Meu Deus… está queimando." — sussurrou.
Ela olhou ao redor, observando a rua deserta, a escuridão da favela e as sombras que se moviam entre os barracos.
E então percebeu os três homens parados a alguns metros, conversando baixinho e trocando olhares suspeitos.
— "Ei… o que vocês querem com ele?" — Mariana chamou, a voz firme apesar da chuva.
Um dos homens apontou para o desconhecido e sorriu.
— "Você quer levá-lo? 500 reais."
O coração de Mariana disparou. 500 reais.
Para qualquer um poderia ser pouco, mas para ela, naquele momento, representava semanas de trabalho, cada centavo contado, cada economia escondida, inclusive parte do sonho de abrir sua própria confeitaria.
Ela olhou para o homem caído, fraco e indefeso, e sentiu um aperto no peito. Se pudesse fazer algo, não hesitaria.
Respirou fundo, tentando pensar. Pedrinho olhava para ela com olhos arregalados, percebendo a gravidade da situação.
— "Não posso deixar isso acontecer." — murmurou, mais para si mesma do que para o menino.
Ela sabia que precisava de ajuda, mas naquela noite só podia decidir uma coisa: não ignorar aquele homem.
Com passos firmes, Mariana afastou-se por um momento para organizar as ideias, sentindo a chuva misturar-se ao frio que lhe percorria a espinha.
Olhou novamente para o desconhecido, e por um instante, o medo e a responsabilidade se misturaram.
— "Eu volto amanhã." — disse baixinho.
Ela não sabia como, não sabia se conseguiria dinheiro suficiente, não sabia se seria capaz de tirá-lo dali com segurança.
Mas sabia de uma coisa: não poderia deixá-lo sozinho naquela rua, naquela chuva, naquela noite.
Pedrinho segurou sua mão por um instante, entendendo sem precisar de palavras.
Mariana respirou fundo e virou-se, caminhando pelas vielas escuras de volta para casa. Mas cada passo ecoava na mente: o homem ferido, os olhos confusos, a febre, o perigo à espreita.
Enquanto a porta se fechava atrás dela, ela olhou uma última vez pela janela: o desconhecido ainda estava lá, sozinho, sob a chuva.
E Mariana sentiu algo novo: uma estranha urgência.
Por mais que tentasse se concentrar nos brigadeiros, no trabalho, no dia seguinte, não conseguia tirar a imagem dele da cabeça.
A chuva continuava caindo.
E naquele instante, uma decisão foi tomada silenciosamente: ela voltaria amanhã. Não importava o que custasse.