Rafael chegou à pousada pouco depois das oito da manhã.
A noite tinha sido um desastre.
Ele praticamente não dormira.
Passara horas olhando para o teto do apartamento, lembrando-se da cama vazia da Sala 307.
Lembrando-se do olhar de Camila.
Lembrando-se da forma como ela tinha parado de lutar.
Aquilo era o que mais o assustava.
Não era a raiva dela.
Não era o choro.
Não era o desprezo.
Era a indiferença.
Quando uma mulher para de discutir, alguma coisa morreu dentro dela.
E Rafael começava a perceber isso tarde demais.
Ele estacionou o carro em frente à pousada e saiu rapidamente.
Precisava vê-la.
Precisava conversar.
Precisava explicar que estava tentando descobrir a verdade.
Talvez ainda houvesse tempo.
Talvez ainda pudesse consertar alguma coisa.
Rafael atravessou a recepção e aproximou-se do balcão.
Dona Célia levantou os olhos do caderno que estava preenchendo.
“O senhor deseja alguma coisa?”
“Camila Almeida.”
Dona Célia ficou imediatamente séria.
“Ela está hospedada aqui?”
“Está.”
Rafael sentiu um pequeno alívio.
Graças a Deus.
Ela ainda estava ali.
“Posso subir?”
O silêncio da mulher durou alguns segundos.
Tempo suficiente para Rafael sentir um desconforto estranho.
“Tem algum problema?”
Dona Célia fechou o caderno.
“Ela foi embora.”
O mundo pareceu parar.
“O quê?”
“Ela saiu hoje cedo.”
Rafael piscou.
Uma vez.
Duas vezes.
Tentando processar.
“Não.”
A voz saiu baixa.
“Início da manhã.”
“Não.”
“Ela fez o checkout às seis horas.”
Rafael sentiu o coração afundar.
Completamente.
“Isso não é possível.”
Dona Célia apenas observava.
Acostumada a ver pessoas sofrendo.
Mas aquele homem parecia sinceramente destruído.
“Ela deixou algum endereço?”
“Não.”
“Telefone?”
“Não.”
“Recado?”
“Também não.”
Rafael passou a mão pelo rosto.
A respiração começou a acelerar.
“Ela estava sozinha?”
“Sim.”
“Grávida daquele jeito?”
“Sim.”
A culpa atravessou seu peito como uma faca.
Ela estava sozinha.
Novamente.
E ele era o responsável por isso.
“Para onde ela foi?”
“Não sei.”
Rafael fechou os olhos.
Por alguns segundos.
Sentindo o desespero crescer.
Porque aquilo não fazia parte dos planos.
Camila podia estar com raiva.
Podia ignorá-lo.
Podia até odiá-lo.
Mas desaparecer?
Não.
Isso era diferente.
Muito diferente.
“Ela parecia bem?”
Dona Célia hesitou.
“Parecia cansada.”
Silêncio.
“Muito cansada.”
Aquelas palavras doeram mais do que deveriam.
Porque Rafael sabia exatamente por quê.
Ele mesmo tinha ajudado a destruí-la.
Rafael agradeceu mecanicamente e saiu da pousada.
O sol da manhã parecia distante.
Frio.
Sem vida.
Ele encostou-se ao carro e pegou o celular.
Precisava encontrá-la.
Agora.
Ligou para Helena.
A mãe atendeu imediatamente.
“Rafael?”
“Camila apareceu aí?”
“Claro que não.”
“Tem certeza?”
“Por que ela viria para cá?”
Rafael apertou os dentes.
“Porque não tem para onde ir.”
Helena ficou em silêncio.
“Você está procurando aquela mulher?”
“Ela é minha esposa.”
“Talvez não por muito tempo.”
Rafael sentiu a raiva subir.
“Chega.”
“Rafael...”
“Eu disse chega.”
E desligou.
Pela primeira vez na vida.
Desligou na cara da própria mãe.
Depois ligou para Augusto.
Nada.
Ligou para Bianca.
Nada.
Ligou para antigos amigos de Camila.
Nada.
Ligou para colegas da faculdade.
Nada.
Ligou para vizinhos.
Nada.
Horas começaram a passar.
E ninguém sabia de nada.
Camila tinha simplesmente desaparecido.
Como se tivesse sido engolida pelo mundo.
Ao meio-dia, Rafael estava sentado dentro do carro.
Exausto.
O celular mostrava dezenas de ligações.
Nenhuma resposta.
Nenhuma pista.
Nenhuma esperança.
Ele abriu a galeria do telefone.
Sem perceber.
A primeira foto apareceu.
Camila.
Grávida de cinco meses.
Sorrindo.
Segurando um sapatinho de bebê.
“Olha isso, Rafael.”
Ela ria.
“É tão pequeno.”
Ele lembrava daquele dia.
Lembrava perfeitamente.
Lembrava da felicidade.
Da expectativa.
Dos planos.
Do amor.
E agora?
Agora ela estava desaparecida.
E talvez o culpado fosse ele.
O telefone vibrou.
Rafael atendeu imediatamente.
“Camila?”
Não era.
Era Renata.
“Rafael.”
A voz dela parecia preocupada.
“Muito preocupada.”
“O que aconteceu?”
“Você encontrou Camila?”
Silêncio.
“Não.”
“Droga.”
Rafael sentiu o estômago apertar.
“Você acha que ela está em perigo?”
“Não sei.”
“Renata.”
“Eu realmente não sei.”
Aquilo não ajudava.
Em nada.
“Escuta.”
Renata respirou fundo.
“Não faz nenhuma besteira.”
“Que besteira?”
“Não sai dirigindo igual um louco.”
“Ela desapareceu.”
“Eu sei.”
“Ela está grávida.”
“Eu sei.”
“Ela pode estar passando mal em algum lugar.”
“Eu sei.”
Rafael bateu no volante.
Com força.
“Então me diz o que fazer.”
Silêncio.
Longo.
Doloroso.
“Continua procurando.”
Foi tudo que Renata conseguiu dizer.
Porque era tudo que existia para fazer.
Continuar procurando.
Às três da tarde, Rafael já tinha percorrido metade da cidade.
Hospitais.
Clínicas.
Pensões.
Hotéis baratos.
Nada.
Absolutamente nada.
Camila parecia ter evaporado.
O medo começou a substituir a culpa.
Porque uma coisa era ela estar escondida.
Outra completamente diferente era ela estar em perigo.
E Rafael não conseguia parar de imaginar os piores cenários possíveis.
O celular tocou novamente.
Número desconhecido.
Ele atendeu imediatamente.
“Alô?”
“Você é o Rafael?”
O coração disparou.
“Sim.”
“Marido da Camila?”
“Sim.”
A respiração dele travou.
“Você sabe onde ela está?”
“Talvez.”
Rafael levantou-se imediatamente.
“Talvez?”
“Vi uma mulher parecida hoje cedo.”
“Parecida?”
“Grávida.”
“Morena.”
“Chorando.”
O sangue desapareceu do rosto de Rafael.
“Era ela.”
“Não tenho certeza.”
“Era ela.”
O homem do outro lado hesitou.
“Ela estava na rodoviária.”
Rafael congelou.
Rodoviária.
Aquilo mudava tudo.
“Tem certeza?”
“Noventa por cento.”
“Ela entrou em algum ônibus?”
“Não vi.”
“Para onde foi?”
“Também não sei.”
O desespero voltou.
Mas dessa vez junto com uma pequena esperança.
Uma pista.
Finalmente uma pista.
“Obrigado.”
Rafael desligou.
As mãos tremiam.
A rodoviária.
Camila tinha estado na rodoviária.
Naquele mesmo dia.
Talvez ainda estivesse lá.
Talvez não.
Mas era a primeira pista concreta que aparecia.
E Rafael não pretendia desperdiçá-la.
Ele entrou no carro imediatamente.
Ligou o motor.
O coração batia tão forte que parecia machucar.
Camila estava em algum lugar.
Sozinha.
Grávida.
Machucada.
Assustada.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, Rafael compreendeu uma verdade terrível.
Ele não estava procurando apenas a esposa.
Estava correndo atrás da última chance de salvar a própria família.
Porque, se demorasse demais...
Talvez nunca mais a encontrasse.