Capítulo 54: Novamente em Apuros
"Sua conduta não difere da minha, mas prefere me apontar como culpado", o homem ponderou mentalmente, guardando a insatisfação para si. Após um breve silêncio, indagou:
— O romance da nossa filha é um fato real?
— Com certeza. — A esposa confirmou com o olhar.
— E você não interveio para encerrar o vínculo?
— Negativo. Por acaso minha conduta usual te faz pensar que eu agiria assim?
— Não, evite mal-entendidos, apenas considerei que tal flexibilidade destoa do seu perfil.
— De fato, cogitei a interrupção, mas a Valentina precisa amadurecer e vivenciar frustrações. Utilizarei este fato como ferramenta para o crescimento dela.
A mulher nutria a convicção de que o romance dos jovens seria efêmero e sucumbiria diante dos obstáculos cotidianos, resultando em um término natural. Em vez de permitir que a filha enfrentasse as complexidades do meio social no futuro sem preparo, considerava benéfico que vivenciasse essas experiências sob supervisão. Por essa razão, acatara a proposta de Lucas, concedendo o prazo até o término do ano letivo para que apresentasse as comprovações.
Como um jovem do ensino médio estruturaria tal comprovação? Parecia algo sem fundamentos. Tratava-se apenas da ingenuidade típica da juventude.
O homem considerou a linha de raciocínio coerente e optou por não estender as contestações. Afinal, mesmo que manifestasse alguma divergência, sua opinião teria peso secundário; a palavra final cabia à esposa. No âmbito familiar, as diretrizes dela eram soberanas.
Na sequência, ele foi conhecer o rapaz envolvido no romance da filha. A primeira impressão foi aceitável; o jovem não exibia traços de beleza extraordinária, mas possuía boa estatura e manifestava-se com segurança, sem vestígios de timidez. Até o momento, não havia falhas evidentes em sua conduta.
— Você é residente desta comarca? Possui irmãos no núcleo familiar e de que forma conheceu a minha filha? — o pai apresentou os três questionamentos iniciais.
— Senhor, sou residente desta localidade, sou filho único e não possuo irmãos, tendo sido criado exclusivamente por minha mãe desde a infância — Lucas respondeu. — Eu e a Valentina integramos a mesma turma escolar e dividimos a mesma carteira; a nossa aproximação...
O homem ouviu o relato mantendo o semblante sério; a ideia de ver a filha envolvida em um romance com o jovem causava-lhe um certo descontentamento, como se um patrimônio zelado por anos tivesse sido subtraído de seus cuidados.
O silêncio no quarto de hospital, onde Valentina permanecia adormecida, tornou-se um tanto constrangedor devido à presença das três pessoas ali. Notando o adiantado da hora, a mãe sugeriu que fossem jantar, estendendo o convite a Lucas, que optou por recusar.
— Prefiro zelar pela Valentina aqui; caso ela desperte subitamente, a ausência de conhecidos poderia assustá-la.
— Já solicitei o suporte da equipe de enfermagem para monitorá-la, não há motivos para inquietação. Além disso, há pontos que pretendo alinhar com você durante o jantar — a mulher insistiu.
Lucas refletiu por alguns instantes e anuiu com a cabeça.
Os quatro, incluindo Alice, deslocaram-se até um estabelecimento próximo, selecionaram alguns pratos e acomodaram-se à mesa. Alice exibia nítido constrangimento, mantendo uma postura rígida. Assim que os pratos foram servidos, iniciaram a refeição.
— Lucas, falando de forma pragmática, por qual metodologia pretende obter a minha validação antes do término do período escolar do ensino médio? — a mãe questionou de forma aberta. Ela mantinha o ceticismo em relação a promessas verbais, acreditando que as declarações do jovem nasciam apenas do impulso do momento.
— Falando com total transparência, senhora, recorrer apenas a ações cotidianas seria insuficiente — Lucas ponderou.
A mulher assentiu, validando a premissa.
— Mantenho contato com alguns conhecidos no meio virtual e obtive acesso a canais de rentabilidade no âmbito corporativo... — Lucas recorreu a esse argumento para ocultar a existência do suporte do sistema. Caso contrário, como justificaria a posse repentina de uma propriedade imobiliária de alto padrão, cujos registros eram legais e legítimos? Se fosse questionado sobre a origem dos recursos, qual seria a resposta adequada?
Ele realizou um resumo sobre como, através dessas interações virtuais, obtivera informações sobre a valorização de ativos na bolsa de valores, permitindo que Valentina participasse dos investimentos e obtivesse rendimentos significativos.
O casal trocou olhares, considerando que tais fatos ainda não constituíam uma comprovação definitiva.
— Sei que restam questionamentos, mas no momento oportuno solicitarei à Valentina que transmita a vocês os detalhes de certas operações — concluiu o rapaz.
A mãe considerou que as ideias do jovem careciam de maturidade, revelando traços de ingenuidade. Dar crédito a informações de contatos virtuais? Se a obtenção de recursos fosse simples assim, a escassez financeira não seria uma realidade mundial. De qualquer forma, o cenário atendia aos seus interesses ocultos; preferia que a filha não mantivesse o vínculo com o jovem no longo prazo, almejando uma união com alguém de realidade socioeconômica equivalente, que exibisse erudição e talentos à altura da filha.
No decorrer da refeição, o celular de Lucas emitiu o sinal de chamada. Ao retirá-lo da vestimenta, constatou que a ligação partia de Valentina. Ela teria despertado?
— Solicitarei licença para atender o telefonema lá fora — Lucas levantou-se.
— Qual a identidade do originador da chamada? — a mãe questionou. Sua experiência com análises comportamentais permitia identificar as reações dos indivíduos e Lucas revelara sinais de contentamento e urgência ao verificar a tela.
Lucas hesitou por um instante, mas optou pela transparência:
— A chamada parte da Valentina, o que sugere que ela tenha acordado.
— Sendo a Valentina a originadora, não há razões para se retirar da mesa; atenda a chamada aqui e ative o viva-voz — a determinação da mulher limitou as alternativas do jovem.
— Pois bem. — Sem opções, Lucas acatou a ordem; afinal, tratava-se de sua futura sogra.
Alice uniu as mãos em um gesto silencioso de prece. "Valen, o deslize do sonho já causou problemas suficientes, evite novos comentários inadequados agora; seus pais estão presentes ouvindo tudo!", pensou a amiga.
Lucas completou o atendimento. Os três mantiveram-se em silêncio absoluto, atentos ao que a jovem diria.
— Valen, é você? — Lucas pronunciou ao iniciar o diálogo.
A voz aflita de Valentina se fez ouvir, trazendo um tom de choro:
— Lucas, onde você está?!
— Estou na companhia de seus pais e da sua colega de quarto em um estabelecimento próximo para a refeição, retornaremos em breve — informou o rapaz.
— Me desculpa, Lucas, não foi por mal que omiti o quadro de febre; meu intuito era apenas evitar que ficasse preocupado... — Valentina pareceu não assimilar a identidade das pessoas mencionadas por Lucas no viva-voz, mantendo a convicção de que mantinha um diálogo privado. Cada palavra dita era perfeitamente audível para os quatro presentes à mesa.
— Por acaso você mantém a irritação comigo?
— O importante é o seu restabelecimento, não guardo ressentimentos.
— Ah, que bom... Lucas, considerando todo o empenho que dediquei por você, seria possível me conceder uma parcela do seu perdão agora, mesmo que seja apenas uma pequena parte?
Lucas surpreendeu-se com a formulação do pedido; como quantificar o perdão em parcelas? Manteve-se em silêncio, ciente de que o casal o encarava com expressões de nítido descontentamento.
Do outro lado da linha, interpretando o silêncio como um sinal de desaprovação por ter insistido, Valentina apressou-se em reformular a fala:
— Não, não é isso o que eu quis dizer... o fato é que eu tenho um afeto real por você, Lucas. Considerando a intensidade do que sinto e o fato de reconhecer o meu erro, você poderia me perdoar um pouquinho, por favor?
— Valen, daremos continuidade a essa conversa no momento oportuno, tudo bem? — Lucas tentou encerrar a chamada para conter a exposição. Os pais da jovem já haviam se levantado da mesa sob o efeito das declarações, elevando o nível de tensão do rapaz.
— Por favor, faça esse agrado — a jovem insistiu ao telefone, recorrendo a um tom afetuoso e manhoso.
Lucas sentiu o peso da situação. Alice levou a mão à testa, antevendo as complicações: "Estamos em apuros novamente, tudo desandou de vez!".