Capítulo 52: A Chegada da Mãe de Valentina
Na verdade, o diagnóstico era evidente: Valentina estava com uma forte crise de febre.
Lucas resolveu a ficha de atendimento e passou por todos os trâmites burocráticos correndo de um lado para o outro, sentindo o suor surgir em sua testa.
No quarto de internação, Valentina descansava profundamente conectada ao soro na veia.
A temperatura corporal já havia baixado e o perigo imediato passara.
Lucas respirou aliviado; sua chegada oportuna evitara complicações maiores.
Se a febre continuasse subindo sem intervenção, o quadro poderia ter evoluído para algo grave.
Crises severas de febre não cedem apenas com repouso; podem comprometer órgãos vitais e o sistema nervoso, exigindo socorro médico imediato.
O médico informou que seria prudente mantê-la em observação durante a noite, aguardando que despertasse para avaliar suas condições antes de conceder a alta.
Lucas concordou prontamente.
Contudo, diante das circunstâncias, ele precisava alinhar algumas pendências.
A primeira delas foi enviar uma mensagem ao professor da sala explicando a situação para justificar a ausência.
Em seguida, precisava contatar a colega de quarto de Valentina, Alice.
Caso ela retornasse e não encontrasse a amiga, o pânico seria inevitável; avisá-la com antecedência era o mais correto.
Lucas pegou o celular de Valentina, mas ao tentar usá-lo, percebeu que o aparelho exigia uma senha de desbloqueio.
Sem alternativas, ele se deslocou até o apartamento dela e fixou um bilhete na porta da frente detalhando o ocorrido e deixando seu próprio número de contato.
Feito isso, retornou apressado ao hospital para zelar por Valentina.
Observando-a repousar no leito do hospital, o remorso o atingiu.
"Sua boba, você não cometeu erro nenhum, o único culpado aqui sou eu", pensou ele.
Decidiu que, assim que ela despertasse, colocaria um fim àquela punição e a perdoaria.
Lucas comprou uma toalha pequena, umedeceu-a e aplicou sobre a face dela para auxiliar no controle térmico.
Contudo, ao precisar renovar a compressa pouco depois, percebeu que a maquiagem na testa dela havia borrado.
Como é sabido que dormir maquiada prejudica a saúde da pele, Lucas solicitou um frasco de demaquilante com a equipe de enfermagem, umedeceu a toalha e removeu os produtos do rosto dela com extremo cuidado.
Em poucos minutos, Valentina retornou à sua forma genuína.
A pele impecável e radiante exibia total elasticidade ao menor toque, esbanjando jovialidade.
Ela mantinha uma aparência linda mesmo adormecida.
Lucas permaneceu admirando-a.
Pouco depois, uma enfermeira entrou para substituir a medicação do soro e, ao notar a mudança no semblante da paciente, questionou assustada:
— Quem é essa moça? Onde está a paciente que estava aqui antes?
Lucas explicou em tom brando:
— É a mesma paciente, eu apenas removi a maquiagem dela.
A profissional demonstrou surpresa por alguns instantes e concluiu a troca da medicação em silêncio.
"Como uma garota tão deslumbrante escolhia se fantasiar de forma tão desleixada? Seria falta de habilidade com os cosméticos ou um fetiche peculiar?", pensou a enfermeira.
Lucas acomodou-se na cadeira ao lado e manteve o olhar fixo nela.
O tempo fluiu sem pressa até que o som de uma melodia ecoou do celular de Valentina.
Ao verificar a tela, Lucas notou que a chamada provinha de um contato salvo sob a alcunha de "Aquela Mulher".
"Aquela Mulher? Seria a amiga da Valen?", supôs ele.
Considerando a probabilidade, optou por atender a ligação.
— Valentina, retorne para casa este fim de semana.
Do outro lado da linha, ecoou a voz de uma mulher madura.
Não era a amiga.
Lucas hesitou sobre como conduzir a resposta, mas reuniu coragem e falou:
— Olá, a Valentina pegou no sono agora e não tem condições de atender no momento.
Houve um breve silêncio do outro lado.
Em seguida, uma voz carregada de irritação pronunciou cada palavra pausadamente:
— O que você fez com a minha filha?!
Lucas compreendeu de imediato que se tratava da mãe de Valentina e que ela havia interpretado mal a situação. Apressou-se em esclarecer:
— Por favor, não entenda errado. A Valentina teve uma crise de febre alta e precisou ser internada. Eu sou o colega de banco dela e estou cuidando dela aqui.
Após a explicação, o tom da mulher suavizou visivelmente.
— A febre da minha filha já baixou? Em qual hospital vocês estão?
Lucas forneceu o endereço da instituição e o número do quarto de isolamento.
A mãe de Valentina encerrou a chamada, indicando que se deslocaria até lá.
Lucas sentiu o nervosismo surgir; estava prestes a conhecer a família dela?
Indagou-se sobre o temperamento da mãe de Valentina, embora a postura firme ao telefone sugerisse uma mulher de personalidade impositiva.
Meia hora depois, o celular de Lucas tocou vindo de um número desconhecido.
Ao atender, a voz aflita de Alice se fez ouvir:
— A Valen está com febre? Como ela está agora?!
— A febre cedeu e ela está dormindo profundamente — Lucas acalmou-a.
— Estou a caminho — Alice limitou-se a dizer antes de desligar.
Comparado ao encontro com a mãe, a vinda da amiga não trazia nervosismo a Lucas.
Alice, por residir mais perto, foi a primeira a chegar ao hospital. Ao ver Valentina no leito, a feição de preocupação ficou evidente em seu rosto.
Lucas gesticulou pedindo silêncio para não interromper o sono da paciente.
— Vamos conversar lá fora! — Alice lançou um olhar firme para ele e caminhou em direção ao corredor.
Lucas fechou a porta de forma suave.
No corredor, Alice iniciou uma cobrança severa sem dar chances de interrupção.
— A Valen se dedicou tanto por você, passou a noite em claro preparando doces, cozinhou sopa e fez todas aquelas dobraduras de coração. Eu presenciei tudo e fiquei com o coração partido, e ela ainda recusou a minha ajuda dizendo que não queria mentir para você de novo.
— Você não pode agir como um homem de verdade? Precisa ser tão cruel a ponto de ver uma garota se desgastar tanto por sua causa?!
Lucas ouviu o desabafo em silêncio, sem tentar interrompê-la.
Assim que ela concluiu, ele pronunciou:
— Eu vou assumir a responsabilidade por ela.
Ele preferiu não estender as explicações por considerar desnecessário.
Alice, que guardava diversos argumentos para repreendê-lo, sentiu as palavras travarem em sua garganta.
"Assumir a responsabilidade por ela?" A frase soava de um jeito peculiar naquele contexto.
Por fim, ambos se apoiaram na parede do corredor, separados pela porta do quarto, mantendo o silêncio.
Momentos depois, o som característico de saltos altos impactando contra o piso ecoou pelo corredor.
Alice e Lucas viraram a cabeça simultaneamente na direção do som.
Avistaram uma mulher vestindo trajes sociais pretos, com o cabelo preso em um coque alto, exibindo uma postura firme e madura, caminhando decidida na direção deles.
Ao reconhecê-la, Alice demonstrou claro nervosismo em sua feição.
— Olá, tia — cumprimentou respeitosamente.
— Onde está a Valentina? — a mulher indagou de forma direta.
— Ela está dormindo ali dentro — Lucas apontou para o acesso do quarto.
A mulher o avaliou com o olhar por alguns instantes e, em seguida, abriu a porta entrando no quarto, fixando os olhos na filha adormecida.
— Qual o motivo dessa febre na Valentina? — cobrou explicações dos dois jovens.
— Bem... — Alice hesitou, sem saber como formular a resposta.
Dizer que Valentina havia madrugado cozinhando e fazendo dobraduras por causa daquele rapaz, resultando no esgotamento físico, parecia arriscado. Temia que a verdade trouxesse desdobramentos imprevisíveis.
— Acho prudente aguardarmos que a Valentina desperte para conversarmos sobre isso — Lucas interveio para amenizar o clima tenso.
A mãe de Valentina finalmente direcionou sua atenção total ao rapaz que se identificara como colega de sua filha.
— Qual o seu vínculo com a minha filha?
Lucas sentiu o peso da cobrança; aquela mulher exalava uma aura de forte autoridade.
Ainda assim, manteve a postura firme ao responder:
— Eu sou o parceiro de banco e de sala da Valentina.
— Apenas isso? — a mulher insistiu.
Lucas cogitou se deveria declarar que a amava e pedir permissão para iniciarem um relacionamento oficial, mas concluiu que uma abordagem dessas naquele instante seria desastrosa.
— Mesmo que eu tente explicar agora, a senhora provavelmente manteria suas dúvidas. Será mais adequado perguntar diretamente à Valentina quando ela acordar.
A mulher abrandou a postura impositiva, acomodou-se ao lado da filha e seu olhar tornou-se terno.
— Lucas, me desculpa, por favor... eu realmente errei... — Valentina balbuciou em meio ao sono, manifestando seus pensamentos inconscientes.