Renata continuava segurando a ficha como se o papel queimasse entre os seus dedos.
O silêncio na Sala 307 era pior do que os gritos de Rafael.
Camila olhava para Renata com os olhos cheios de lágrimas, tentando entender como uma noite que deveria ser apenas de cuidado e repouso tinha se transformado num julgamento.
“Você disse que sabe quem é o pai,” disse Rafael, com a voz baixa e perigosa. “Então fala.”
Renata engoliu em seco.
O rosto de Renata ainda estava pálido.
“Eu preciso confirmar uma coisa antes,” respondeu Renata, apertando a ficha contra o peito.
“Confirmar?” Rafael deu um passo à frente. “Você acabou de soltar uma bomba dentro deste quarto e agora quer confirmar?”
Camila segurou a barriga com as duas mãos.
O bebê se mexeu de leve, como se também estivesse assustado.
“Renata...” disse Camila, quase sem voz. “O que tem nesse exame?”
Renata olhou para Camila.
Havia pena nos olhos dela.
E medo também.
“Camila, eu preciso que você respire devagar,” disse Renata, tentando manter a calma. “Seu monitor está acelerando.”
“Como eu vou respirar?” Camila perguntou, com lágrimas escorrendo pelo rosto. “Rafael está dizendo que meu filho não é dele.”
Rafael fechou os olhos por um segundo.
Mas quando Rafael abriu os olhos, a raiva ainda estava lá.
“Porque o exame diz isso.”
“Eu não fiz esse exame,” disse Camila, com a voz tremendo. “Eu não autorizei nada. Eu não sabia de nada.”
“Claro,” respondeu Rafael, rindo sem humor. “Agora você não sabe de nada.”
“Rafael, olha para mim,” pediu Camila. “Você me conhece.”
“Eu achava que conhecia.”
A frase atingiu Camila como um tapa.
Renata percebeu o corpo de Camila estremecer.
O monitor apitou mais rápido.
Bip.
Bip.
Bip.
“Rafael, para,” disse Renata, colocando-se entre os dois. “Você está colocando Camila e o bebê em risco.”
“E ela colocou minha vida em risco,” respondeu Rafael. “Meu nome. Minha honra. Minha família inteira.”
“Eu nunca faria isso com você,” disse Camila, soluçando. “Nunca.”
“Então explica o DNA.”
“Eu não posso explicar uma mentira.”
“Mentira?” Rafael apontou para os documentos. “Isso aqui é mentira?”
Renata olhou novamente para a ficha.
Aquele detalhe continuava lá.
Pequeno.
Quase escondido.
Mas estranho demais para ignorar.
Renata precisava de tempo.
Precisava tirar Rafael dali.
Precisava impedir que ele visse mais do que deveria naquele momento.
“Rafael, me entrega os documentos,” disse Renata, estendendo a mão. “Eu vou verificar tudo com o laboratório.”
“Não.”
“Rafael.”
“Eu quero ver a ficha completa.”
Renata ficou imóvel.
“Agora.”
Camila sentiu o estômago apertar.
Havia algo no jeito de Renata que assustava mais do que a raiva de Rafael.
“Por que você não quer mostrar?” perguntou Rafael, olhando fixamente para a enfermeira.
“Porque eu preciso confirmar antes de qualquer conclusão,” respondeu Renata.
“Você está escondendo alguma coisa.”
“Estou tentando evitar um desastre.”
“Desastre?” Rafael soltou uma risada amarga. “O desastre já aconteceu.”
Camila fechou os olhos.
As lágrimas caíam sem controle.
“Você está falando como se eu tivesse feito isso de propósito.”
“E não fez?”
Camila abriu os olhos lentamente.
A dor no rosto dela fez até Renata respirar mais fundo.
“Você realmente acha isso de mim?” perguntou Camila.
Rafael não respondeu.
E aquela falta de resposta doeu mais do que qualquer acusação.
Camila virou o rosto para o outro lado.
“Então não tem mais nada que eu possa dizer.”
“Tem sim,” Rafael respondeu. “Você pode dizer o nome dele.”
Camila voltou a encará-lo.
“De quem?”
“Do homem que colocou esse bebê em você.”
Renata arregalou os olhos.
“Rafael!”
Camila ficou sem reação.
Por alguns segundos, o rosto de Camila perdeu toda a cor.
Depois a dor virou algo mais profundo.
Humilhação.
“Você acabou de me chamar de quê?” perguntou Camila, com a voz quebrada.
Rafael respirava pesado.
“Eu só quero a verdade.”
“Não,” respondeu Camila, chorando. “Você quer me destruir.”
O monitor disparou de novo.
Bip.
Bip.
Bip.
Renata aproximou-se rapidamente da cama.
“Camila, olha para mim. Respira comigo.”
Camila tentou obedecer.
Mas Rafael continuava ali.
Furioso.
Ferido.
Implacável.
“Eu estou grávida,” disse Camila, colocando a mão sobre a barriga. “Eu estou assustada. Eu estou internada. E você entrou aqui me tratando como uma qualquer.”
Rafael desviou o olhar.
Por um instante, a culpa apareceu.
Mas Rafael se agarrou à raiva antes que a culpa crescesse.
“Eu vi o resultado.”
“Então olhou para um papel e esqueceu de mim?”
Rafael ficou em silêncio.
Renata abaixou os olhos para a ficha outra vez.
A inconsistência parecia ainda mais clara agora.
Não era apenas uma divergência.
Havia algo errado na estrutura do documento.
Um detalhe que não combinava com os registros normais do hospital.
Mas Renata não podia dizer isso ainda.
Não ali.
Não com Rafael prestes a explodir.
“Rafael, se você quer a verdade, precisa me deixar trabalhar,” disse Renata.
“Eu não vou sair daqui.”
“Então ao menos pare de pressionar Camila.”
“Camila sabe mais do que está dizendo.”
“Eu não sei!” Camila gritou, e a voz dela rasgou o quarto. “Eu não sei!”
O grito dela fez todos pararem.
Até Rafael.
Camila chorava tanto que mal conseguia respirar.
“Eu acordei hoje achando que você ia segurar minha mão,” disse Camila. “Achei que você ia perguntar se nosso filho estava bem.”
Rafael apertou a mandíbula.
“E agora você olha para mim como se eu fosse sujeira.”
“Camila...”
“Não,” disse ela, balançando a cabeça. “Você não tem direito de falar meu nome desse jeito agora.”
Renata viu Rafael recuar meio passo.
Pequeno.
Quase invisível.
Mas recuou.
A raiva dele estava começando a rachar.
Só que o orgulho ainda era maior.
“Eu vou resolver isso,” disse Rafael.
“Como?” perguntou Camila.
“Minha família precisa saber.”
O sangue sumiu do rosto de Camila.
“Não.”
Rafael pegou o celular.
“Rafael, não faz isso,” disse Camila, desesperada. “Por favor.”
“Eles têm direito de saber.”
“Direito de me humilhar?”
“Direito de saber que talvez esse bebê não seja da família.”
Camila levou a mão à boca.
A frase foi cruel demais.
Renata ficou gelada.
“Rafael, isso é desnecessário,” disse Renata.
“Desnecessário foi esconder isso de mim.”
“Eu não escondi nada!” Camila chorou. “Eu não escondi nada de você.”
Rafael encarou Camila por alguns segundos.
O celular já estava na mão dele.
O nome de Helena brilhava na tela.
Mãe.
Camila viu.
E o medo tomou conta do rosto dela.
“Rafael, qualquer pessoa menos sua mãe,” pediu Camila. “Você sabe como Helena me olha.”
Rafael não respondeu.
“Você sabe que Helena nunca me aceitou.”
Ainda assim, Rafael pressionou chamar.
O telefone começou a tocar.
Uma vez.
Duas.
Três.
Camila fechou os olhos, como se o som da chamada fosse uma sentença.
Renata apertou a ficha contra o peito.
Aquele detalhe estranho ainda estava ali.
E agora tudo ficaria pior antes que Renata conseguisse explicar qualquer coisa.
“Rafael?” a voz de Helena surgiu do outro lado da linha.
Camila prendeu a respiração.
Rafael olhou para Camila.
Depois para a barriga dela.
Depois para os exames espalhados na cama.
“Mãe,” disse Rafael, com a voz fria. “Você precisa vir ao hospital agora.”
“O que aconteceu?”
Rafael engoliu em seco.
Camila começou a chorar em silêncio.
Renata fechou os olhos, já imaginando o estrago.
“Camila me traiu,” disse Rafael. “E talvez esse bebê não seja meu.”
Do outro lado da linha, Helena ficou muda.
O silêncio durou pouco.
“O quê?” Helena perguntou, com uma fúria que atravessou o telefone.
Rafael não tirava os olhos de Camila.
“Venha para a Sala 307.”
Camila sentiu o mundo afundar.
Renata olhou para a ficha mais uma vez.
E o detalhe estranho pareceu ainda mais perigoso.
Porque, antes que Renata conseguisse provar qualquer coisa, Rafael acabara de entregar Camila ao pior tribunal possível.
A própria família dele.