Elena perdeu os sentidos.
E naquele exato momento...
Adrian ainda estava longe.
Longe demais.
O carro avançava pela estrada de terra.
Os faróis cortando a escuridão.
A chuva fina transformando tudo em sombras.
Ao redor.
Nada.
Nenhuma casa.
Nenhuma luz.
Nenhum sinal de Elena.
Adrian apertava o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Porque pela primeira vez desde que tudo começou...
ele não tinha controle de nada.
Não podia negociar.
Não podia comprar tempo.
Não podia convencer ninguém.
Não podia proteger Elena.
E isso o estava destruindo.
O celular tocou.
Mais uma vez.
Outro segurança.
“Nada.”
A resposta veio antes mesmo da pergunta.
“Nenhuma câmera.”
“Nenhuma placa.”
“Nenhum avistamento.”
Adrian desligou sem responder.
Porque estava cansado de ouvir a mesma coisa.
Nada.
Nada.
Nada.
Como se Elena tivesse desaparecido do mundo.
Horas antes.
Ele acreditava que a cidade era grande.
Agora parecia pequena.
Pequena demais.
Porque estava procurando apenas uma mulher.
Uma única mulher.
E mesmo assim não conseguia encontrá-la.
Ao amanhecer...
a busca já havia saído do controle.
Polícia.
Segurança privada.
Investigadores.
Ex-policiais.
Empresas de monitoramento.
Todos procurando.
Todos recebendo dinheiro.
Todos atrás da mesma pista.
Elena Ruiz.
Mas as horas continuavam passando.
E Elena continuava desaparecida.
Na televisão...
a notícia já era nacional.
"EMPREGADA GRÁVIDA ENVOLVIDA EM ESCÂNDALO COM FAMÍLIA BILIONÁRIA É SEQUESTRADA."
As emissoras interrompiam a programação.
Especialistas comentavam.
Repórteres cercavam hospitais.
Jornalistas perseguiam membros da família Vale.
E o nome de Beatriz aparecia em todos os debates.
Mas Adrian não assistia.
Não conseguia.
Porque enquanto o país assistia à tragédia...
ele estava vivendo dentro dela.
Camila Torres chegou ao centro de operações improvisado pouco depois das oito.
Encontrou Adrian diante de um painel cheio de mapas.
Rostos cansados.
Telefonemas.
Computadores.
Caos.
Mas Adrian parecia pior.
Muito pior.
Porque não dormia havia quase dois dias.
“Você precisa descansar.”
Ele nem olhou para ela.
“Encontra Elena.”
“Adrian.”
“Encontra Elena.”
Camila suspirou.
Porque sabia.
Não havia argumento capaz de atravessar aquela dor.
“Recebi algo.”
A frase finalmente chamou a atenção dele.
Adrian levantou os olhos.
“O quê?”
Camila colocou algumas folhas sobre a mesa.
“Uma fonte.”
Silêncio.
“Ligada à família Vale.”
O coração dele acelerou.
“Quem?”
“Não sei.”
Outra pausa.
“Mas a pessoa afirma que existe uma propriedade fora da cidade usada para encontros privados.”
Adrian se aproximou.
“Que propriedade?”
“Não tenho endereço.”
O brilho de esperança morreu imediatamente.
Mas então Camila continuou.
“Tenho uma região.”
Uma região.
Não era muito.
Mas era alguma coisa.
E naquele momento...
qualquer coisa era melhor que nada.
Enquanto isso...
em algum lugar daquela mesma região...
Elena continuava lutando.
Inconsciente.
Pálida.
Fraca.
Mas viva.
Por enquanto.
Mauro caminhava de um lado para o outro.
Nervoso.
Porque aquilo estava saindo completamente do plano.
O parto.
A perda de consciência.
As ligações.
A pressão.
Tudo.
“Ela ainda respira.”
O motorista falou.
Mauro passou a mão no rosto.
“Ótimo.”
Mas não parecia ótimo.
Não para ninguém.
Porque ambos sabiam.
Se Elena morresse...
o problema deles não acabaria.
Começaria.
O telefone de Mauro tocou.
Ele atendeu imediatamente.
“Sim.”
Silêncio.
A voz do outro lado falou durante quase um minuto.
Sem interrupções.
Sem emoção.
Sem misericórdia.
Quando a ligação terminou...
Mauro parecia ainda mais pálido.
“O que foi?”
Perguntou o motorista.
Mauro olhou para Elena.
Depois respondeu.
“Eles estão procurando todos os galpões da região.”
O silêncio explodiu.
Porque isso significava apenas uma coisa.
Adrian estava chegando.
No centro de operações...
Adrian apontava para um mapa.
“Quero tudo.”
“Fazendas.”
“Depósitos.”
“Galpões.”
“Construções abandonadas.”
“Tudo.”
Os investigadores começaram a trabalhar.
Marcando locais.
Calculando distâncias.
Criando rotas.
Mas havia um problema.
Centenas de possibilidades.
Centenas.
A cidade parecia pequena.
Mas os arredores pareciam infinitos.
O telefone tocou novamente.
Número desconhecido.
Todos olharam.
Porque depois do sequestro...
todo número desconhecido parecia perigoso.
Adrian atendeu.
“Quem fala?”
Silêncio.
Depois uma voz masculina.
Baixa.
Assustada.
“Você está procurando Elena.”
O coração dele parou.
“Quem é?”
“Isso não importa.”
“ONDE ELA ESTÁ?”
Outra pausa.
Longa.
Pesada.
“Eles a levaram para uma propriedade antiga.”
Todos na sala congelaram.
Adrian colocou no viva-voz.
“Qual propriedade?”
“Eu não sei o nome.”
“Então me diga o que sabe.”
A respiração do homem ficou mais rápida.
Como alguém apavorado.
“Existe um galpão.”
Silêncio.
“Perto de uma pedreira desativada.”
Adrian olhou imediatamente para os mapas.
Os investigadores começaram a procurar.
“Tem centenas.”
Um deles respondeu.
O homem do telefone continuou.
“Não.”
Outra pausa.
“Essa tem um lago atrás.”
Mais movimento.
Mais buscas.
Mais mapas.
Mais tensão.
Até que um investigador levantou a cabeça.
“Temos uma.”
O coração de Adrian disparou.
“Mostra.”
A localização apareceu na tela.
Isolada.
Antiga.
Perfeita para esconder alguém.
“Como você sabe disso?”
Adrian perguntou ao informante.
Silêncio.
Longo demais.
Então a resposta veio.
“Porque eu levei comida para lá ontem.”
A sala inteira ficou imóvel.
“Quem é você?”
Mas a ligação caiu.
Novamente.
Sem resposta.
Adrian ficou olhando para o telefone.
Depois para o mapa.
Depois para a foto aérea da propriedade.
O lago.
A pedreira.
O galpão.
Tudo.
E pela primeira vez desde o desaparecimento...
ele sentiu algo diferente do desespero.
Esperança.
Pequena.
Perigosa.
Mas real.
“Preparem os carros.”
A voz saiu fria.
Controlada.
Letal.
“Todos.”
Os seguranças levantaram imediatamente.
A polícia também.
“Se ela estiver lá...”
Adrian não terminou a frase.
Porque não precisava.
Todos entendiam.
Enquanto isso...
no galpão...
Elena começou a se mover.
Pequeno movimento.
Quase imperceptível.
Mas suficiente.
Porque significava que estava acordando.
E as contrações não tinham parado.
Pelo contrário.
Tinham piorado.
Muito.
Mauro percebeu.
E pela primeira vez desde o início do sequestro...
sentiu medo.
Porque se Elena acordasse...
se o parto começasse...
e se Adrian realmente estivesse chegando...
ninguém sairia dali da mesma forma.
Longe dali...
uma fila de veículos avançava pela estrada de terra.
Faróis cortando a manhã cinzenta.
Motores rugindo.
Homens armados.
Polícia.
Segurança privada.
E Adrian no primeiro carro.
Os olhos fixos na estrada.
O coração acelerado.
Porque depois de horas de escuridão...
alguém finalmente tinha mostrado uma direção.
E se aquela pista estivesse certa...
Elena estava a poucos quilômetros de distância.