A corrida contra o tempo começou.
E Adrian estava perdendo.
O carro preto desapareceu da última câmera de trânsito às três e dezessete da manhã.
Depois disso...
nada.
Nenhuma imagem.
Nenhuma placa.
Nenhum sinal.
Como se Elena tivesse sido apagada da cidade.
Outra vez.
“Procurem todas as estradas de saída.”
Adrian ordenou.
A voz rouca.
Os olhos vermelhos.
O rosto destruído por horas sem dormir.
“Rodovias.”
“Galpões.”
“Casas abandonadas.”
“Fazendas.”
“Tudo.”
Os seguranças correram.
A polícia também.
Mas Adrian já sabia.
Quem organizou aquilo sabia exatamente o que estava fazendo.
Porque era o mesmo padrão.
Sempre o mesmo.
Provas desapareciam.
Testemunhas desapareciam.
Pessoas desapareciam.
Agora Elena tinha desaparecido.
E ela estava em trabalho de parto.
Dentro do carro, Elena lutava para permanecer consciente.
Cada solavanco parecia atravessar seu corpo.
Cada curva fazia a dor aumentar.
Cada minuto parecia pior que o anterior.
Outra contração.
Mais forte.
Mais longa.
Mais brutal.
Ela gritou.
Não conseguiu evitar.
“Por favor...”
A voz saiu quebrada.
“Meu bebê...”
O motorista olhou pelo retrovisor.
Nervoso.
Assustado.
“Mauro...”
“Dirige.”
“Ela está piorando.”
“Eu disse dirige.”
Mas Mauro não parecia tão seguro quanto antes.
Porque até ele conseguia ver.
Aquilo estava saindo do controle.
Elena respirava rápido.
Rápido demais.
O suor escorria pelo rosto.
A visão ficava turva.
Voltava.
Desaparecia novamente.
Ela colocou as mãos sobre a barriga.
Instintivamente.
Como sempre.
“Só aguenta mais um pouco.”
Ela sussurrou.
Para o bebê.
Para si mesma.
Para Deus.
Para qualquer um que estivesse ouvindo.
“Só mais um pouco.”
Outra contração.
Ela quase perdeu os sentidos.
Quarenta minutos depois.
O carro entrou numa estrada de terra.
Escura.
Isolada.
Sem iluminação.
Sem casas próximas.
Sem movimento.
Finalmente apareceu um galpão.
Antigo.
Abandonado.
Escondido entre árvores.
O motorista desligou o motor.
“Chegamos.”
Elena sentiu o coração afundar.
Porque sabia.
Instintivamente.
Sabia que aquele lugar não era para mantê-la viva.
Mauro abriu a porta.
“Levanta.”
Ela tentou.
Não conseguiu.
As pernas falharam.
Outra contração atravessou seu corpo.
Tão forte que ela quase caiu.
“Eu preciso de um hospital.”
Silêncio.
“Por favor.”
Mais silêncio.
“Meu bebê vai morrer.”
Mauro desviou os olhos.
Por apenas um segundo.
Mas desviou.
Porque mesmo monstros às vezes reconhecem sofrimento.
Mas não o suficiente para impedir o que estavam fazendo.
Eles a carregaram para dentro.
O galpão cheirava a poeira.
Ferrugem.
Mofo.
Abandono.
Havia apenas uma lâmpada funcionando.
Piscando.
Fraca.
Uma cadeira.
Uma mesa.
Algumas caixas.
Nada mais.
Elena foi colocada sobre um colchão velho.
No canto.
Outra contração veio imediatamente.
Ela gritou.
Dessa vez mais alto.
Muito mais alto.
O eco se espalhou pelo galpão.
“Mauro...”
O motorista falou baixo.
“A gente devia chamar alguém.”
“Cala a boca.”
“Ela vai ter o bebê.”
“Não é problema nosso.”
Mas era.
E todos sabiam.
Porque se Elena morresse...
não seria apenas um sequestro.
Seria assassinato.
Enquanto isso...
Adrian estava ficando desesperado.
O amanhecer se aproximava.
Nenhuma pista.
Nenhum resgate.
Nenhuma notícia.
Nada.
O telefone tocou.
Camila Torres.
“Encontramos uma testemunha.”
Adrian levantou imediatamente.
“Onde?”
“Posto de gasolina na saída norte.”
O coração dele disparou.
“O que ela viu?”
“Um carro preto.”
Silêncio.
“E uma mulher grávida.”
Adrian já estava correndo.
No galpão.
Elena chorava.
Não de medo.
Não apenas de medo.
Mas de dor.
Uma dor impossível de descrever.
Cada contração parecia rasgar seu corpo.
E os intervalos estavam diminuindo.
Cada vez mais.
Cada vez mais.
Cada vez mais.
Até que ela percebeu.
Algo estava errado.
Muito errado.
Ela sentiu um líquido escorrer.
Quente.
Abundante.
Impossível de ignorar.
O coração dela congelou.
“Não.”
Outra lágrima.
“Não.”
Porque ela sabia.
Mesmo sem ser médica.
Mesmo sem ninguém dizer.
Sabia.
A bolsa tinha rompido.
“Meu Deus.”
A voz saiu tremendo.
“Meu Deus.”
Mauro olhou.
Depois para o chão.
Depois para Elena.
E finalmente percebeu a gravidade.
“O que aconteceu?”
Elena chorava.
“Meu bebê.”
Outra contração.
Mais forte.
Muito mais forte.
“Ele vai nascer.”
O silêncio explodiu.
O motorista empalideceu.
“Não.”
“Vai.”
“Não.”
“Vai.”
Mauro passou a mão no rosto.
Pela primeira vez parecia assustado.
Realmente assustado.
Porque ninguém havia falado sobre isso.
Ninguém mencionou parto.
Ninguém mencionou um bebê nascendo.
Ninguém mencionou uma mulher grávida entrando em trabalho de parto no meio de um sequestro.
O plano estava quebrando.
Rapidamente.
“Liga para ele.”
O motorista falou.
“Agora.”
Mauro hesitou.
Depois pegou o celular.
Ligou.
Esperou.
Silêncio.
Depois alguém atendeu.
“Tem um problema.”
Pausa.
“Ela entrou em trabalho de parto.”
O rosto dele mudou.
Porque quem estava do outro lado não parecia preocupado.
Parecia irritado.
Muito irritado.
“Eu não sei o que fazer.”
Outra pausa.
Mais longa.
Mais fria.
Mais assustadora.
Então Mauro perdeu a cor.
Completamente.
“Mas ela pode morrer.”
Silêncio.
Depois apenas:
“Entendi.”
A ligação terminou.
O motorista correu até ele.
“O que disseram?”
Mauro não respondeu imediatamente.
Porque nem ele acreditava.
“O que disseram?”
Finalmente.
Ele respondeu.
“Disseram para esperar.”
O motorista ficou imóvel.
“Esperar o quê?”
Mauro olhou para Elena.
A mulher chorando.
A barriga endurecida.
O corpo tremendo.
A vida do bebê por um fio.
E então respondeu:
“Esperar para ver quem sobrevive.”
Enquanto isso...
Adrian chegava ao posto de gasolina.
A testemunha estava lá.
Uma mulher de meia idade.
Assustada.
Ela apontou para uma estrada de terra.
“Eles foram por ali.”
O coração de Adrian disparou.
Porque aquela estrada levava para uma região quase abandonada.
Cheia de galpões.
Fazendas antigas.
Depósitos desativados.
Centenas de lugares para esconder alguém.
Mas finalmente...
era uma direção.
Uma chance.
Uma esperança.
Ele entrou no carro.
Os seguranças atrás.
Os faróis cortando a escuridão.
Acelerando.
Cada segundo importava.
Cada segundo podia decidir a vida de Elena.
A vida do bebê.
Tudo.
No galpão.
Elena não conseguia mais controlar os gritos.
As contrações vinham uma atrás da outra.
Sem pausa.
Sem misericórdia.
Sem tempo para respirar.
Ela sentiu o corpo enfraquecer.
A visão escurecer.
Os sons ficarem distantes.
Muito distantes.
“Adrian...”
Ela sussurrou.
Não sabia se ele podia ouvir.
Não sabia se estava vivo.
Não sabia de nada.
Só sabia que precisava dele.
Precisava desesperadamente.
Outra contração.
Outra.
Outra.
Até que finalmente...
o mundo começou a desaparecer.
As luzes ficaram borradas.
As vozes distantes.
A dor se misturando à escuridão.
E então...
Elena perdeu os sentidos.
Enquanto, quilômetros dali...
Adrian acelerava em direção ao desconhecido.
Sem saber que talvez estivesse chegando tarde demais.