O parto podia estar começando.
Essa frase destruiu o pouco ar que ainda existia no quarto.
Elena estava pálida.
Suando frio.
A mão apertada na de Adrian com uma força que ele jamais imaginou que ela ainda tivesse.
Os médicos se movimentavam rápido.
Enfermeiras entravam.
Equipamentos eram empurrados.
Alguém falava sobre medicação.
Alguém falava sobre monitoramento fetal.
Alguém falava sobre risco.
Risco.
Essa palavra se repetia em tudo.
Risco para Elena.
Risco para o bebê.
Risco de parto prematuro.
Risco de não conseguirem segurar as contrações.
Adrian não conseguia respirar.
Porque tudo que ele amava estava naquela cama.
E tudo estava escapando pelos dedos.
“Senhor Vale.”
A médica apareceu diante dele.
A expressão séria demais.
“Precisamos levá-la para uma ala monitorada.”
“Eu vou junto.”
A resposta veio imediata.
“Por enquanto, não.”
Adrian ficou imóvel.
“O quê?”
“Ela precisa ser estabilizada. A equipe precisa de espaço.”
“Eu não vou deixar ela sozinha.”
Elena virou o rosto.
Mesmo com dor.
Mesmo tremendo.
Mesmo assustada.
“Adrian...”
A voz saiu fraca.
“Fica perto.”
Aquilo acabou com ele.
Completamente.
Ele se inclinou.
Beijou a testa dela.
“Eu estou aqui.”
Outra contração atravessou o corpo dela.
Elena fechou os olhos.
Apertou os lençóis.
Quase gritou.
“Eu estou aqui.”
Ele repetiu.
Mas as enfermeiras já afastavam a maca.
Devagar.
Rápido demais.
Tudo ao mesmo tempo.
“Senhor, por favor.”
Uma enfermeira tocou seu braço.
“Só alguns minutos.”
Alguns minutos.
Adrian quase riu.
Alguns minutos tinham destruído sua vida antes.
Dois dias de viagem.
Uma carta não entregue.
Uma porta fechada.
Uma escada.
Agora pediam alguns minutos.
Como se alguns minutos não fossem suficientes para o mundo acabar.
A maca saiu pelo corredor.
Adrian acompanhou até a porta da ala restrita.
Elena tentou olhar para trás.
Os olhos dela estavam cheios de pânico.
Ele levantou a mão.
Prometendo sem palavras.
Estou aqui.
Não vou embora.
Mas então as portas se fecharam.
E Adrian ficou do lado de fora.
Sozinho.
Com o som dos próprios batimentos na cabeça.
A espera começou.
Cinco minutos.
Dez.
Quinze.
Nenhuma notícia.
Adrian andava pelo corredor.
De um lado para o outro.
O paletó jogado numa cadeira.
A camisa amarrotada.
Os olhos vermelhos.
Dois seguranças estavam perto da entrada.
Outros dois na saída da ala.
Ele mesmo tinha reforçado tudo.
Depois do atropelamento.
Depois das ameaças.
Depois da mensagem.
Nada mais seria deixado ao acaso.
Nada.
Ou era o que ele acreditava.
O celular vibrou.
Número desconhecido.
Adrian congelou.
Por um segundo.
Depois atendeu.
“Fala.”
Silêncio.
Uma respiração baixa do outro lado.
Depois uma voz masculina.
Distorcida.
“Você demorou demais.”
O sangue desapareceu do rosto dele.
“Quem é?”
A voz riu.
Baixa.
Feia.
“Ela não vai chegar até o amanhecer.”
A ligação caiu.
Adrian ficou imóvel.
O corredor inteiro pareceu inclinar.
“Senhor Vale?”
Um segurança se aproximou.
Adrian não respondeu.
Olhou para as portas da ala restrita.
Então sentiu.
Antes mesmo de ver.
Algo estava errado.
Muito errado.
Ele correu.
“Abre a porta.”
A enfermeira na recepção se assustou.
“Senhor, não pode entrar—”
“Abre essa porta agora.”
“Ela está sendo atendida—”
“ABRE.”
O grito ecoou pelo corredor.
As pessoas olharam.
A enfermeira, tremendo, chamou alguém pelo rádio.
Mas Adrian não esperou.
Empurrou a porta.
Entrou.
O corredor da ala monitorada estava estranho.
Calmo demais.
Vazio demais.
Um carrinho de medicação estava abandonado perto da parede.
Uma luva caída no chão.
Uma porta entreaberta.
Um monitor apitando ao longe.
Adrian sentiu o coração parar.
“ELENA!”
Nenhuma resposta.
“ELENA!”
Uma enfermeira saiu de uma sala, confusa.
“Senhor, o que—”
“Onde ela está?”
“A paciente?”
“Elena Ruiz. Onde ela está?”
A enfermeira piscou.
Perdida.
“Ela... ela estava no quarto três.”
Adrian passou por ela.
Correndo.
Quarto três.
Porta aberta.
Cama vazia.
Lençóis bagunçados.
Monitor ligado.
Fios soltos.
Soro pingando no chão.
O bracelete hospitalar de Elena jogado perto da cama.
E uma pequena mancha de sangue no lençol.
O mundo acabou.
De verdade.
Por alguns segundos, Adrian não conseguiu se mover.
Não conseguiu pensar.
Não conseguiu respirar.
A cama vazia parecia impossível.
Como se o cérebro dele se recusasse a entender.
Ela estava ali.
Minutos antes.
Chorando.
Com contrações.
Grávida.
Vulnerável.
E agora...
sumiu.
“Não.”
A voz saiu baixa.
“Não.”
Ele pegou o bracelete do chão.
As mãos tremendo.
“Elena...”
O segurança entrou atrás dele.
“Senhor?”
Adrian virou.
E o olhar dele fez o homem recuar.
“Fechem o hospital.”
“Senhor—”
“FECHA TUDO.”
O corredor explodiu em movimento.
Seguranças correndo.
Enfermeiros gritando.
Médicos saindo das salas.
Pessoas assustadas.
Rádios ligados.
Portas sendo bloqueadas.
Mas Adrian já sabia.
No fundo.
Já sabia.
Eles tinham levado Elena.
Cinco minutos depois, encontraram a primeira pista.
Uma câmera apagada.
Corredor lateral.
Exatamente o corredor que levava à saída de serviço.
A mesma saída usada para descarte hospitalar.
Sem pacientes.
Sem visitantes.
Sem circulação comum.
“Quem desligou?”
Adrian perguntou.
O técnico do hospital estava branco.
“Não fui eu.”
“Quem tem acesso?”
“Segurança interna. Administração. Manutenção.”
“E a gravação?”
O homem engoliu em seco.
“Foi corrompida.”
Adrian riu.
Uma risada curta.
Sem humor.
Sem vida.
Claro.
Sempre corrompida.
Sempre apagada.
Sempre um erro.
Sempre uma mentira.
Então uma enfermeira apareceu.
Tremendo.
“Eu vi um homem.”
Todos viraram.
Adrian se aproximou imediatamente.
“Que homem?”
Ela parecia prestes a desmaiar.
“Uniforme de enfermeiro. Mas eu nunca vi ele aqui.”
“Para onde ele foi?”
“Saída de serviço.”
“Ele estava sozinho?”
A mulher começou a chorar.
“Não.”
O coração de Adrian afundou.
“Quantos?”
“Dois homens.”
“E Elena?”
A enfermeira fechou os olhos.
“Ela estava numa cadeira de rodas.”
Silêncio.
“Parecia desacordada.”
Adrian sentiu a raiva subir tão forte que quase perdeu o controle.
Desacordada.
Eles tiraram Elena desacordada.
Grávida.
Com contrações.
Do hospital.
Aquilo não era apenas sequestro.
Era tentativa de assassinato.
“Imagens da saída.”
O técnico abriu outra câmera.
Dessa vez a gravação existia.
Ruim.
Distante.
Mas existia.
Na tela, dois homens empurravam uma cadeira de rodas.
Elena estava caída para o lado.
O cabelo cobrindo parte do rosto.
Uma das mãos sobre a barriga.
Mesmo desacordada.
Mesmo drogada.
Mesmo sendo levada.
Ainda protegia o bebê.
Adrian levou a mão à boca.
Porque aquilo quase o destruiu.
“Pause.”
A imagem congelou.
Um dos homens virou o rosto.
A câmera captou pouco.
Mas captou o suficiente.
Uma cicatriz perto do maxilar.
Pescoço grosso.
Cabeça raspada.
Olhar frio.
O técnico ampliou.
Um segurança de Adrian se aproximou da tela.
E perdeu a cor.
“Eu conheço esse homem.”
Adrian virou lentamente.
“Nome.”
O segurança hesitou.
“Nome.”
“Mauro.”
Silêncio.
“Mauro quê?”
“Mauro Farias.”
O segurança respirou fundo.
“Capanga contratado. Já trabalhou para gente da família em serviços... sujos.”
A palavra caiu no corredor.
Sujos.
Adrian entendeu.
Todos entenderam.
“Para quem ele trabalha?”
O segurança não respondeu rápido.
E isso irritou Adrian.
“Para quem?”
“Eu não sei hoje.”
“Mas já trabalhou para quem?”
O homem olhou para o chão.
“Ricardo Vale.”
O silêncio ficou mortal.
Ricardo.
Beatriz.
Victoria.
A família inteira parecia uma rede podre.
E Elena estava no centro.
Sangrando.
Grávida.
Sequestrada.
Adrian pegou o telefone.
Ligou para a polícia.
Depois para seus homens.
Depois para Camila Torres.
Porque agora não queria esconder nada.
Não mais.
“Eles levaram Elena.”
Camila ficou muda do outro lado.
Depois disse apenas:
“Vou publicar agora.”
“Publique.”
A voz dele saiu fria.
“Tudo.”
Enquanto isso...
Elena acordou com dor.
O mundo balançava.
Cheirava a gasolina.
Couro velho.
Suor.
Ela tentou se mover.
Não conseguiu.
As mãos estavam presas.
Não com corda.
Com abraçadeiras plásticas.
A barriga doía.
Muito.
Muito mais do que antes.
“Não...”
A voz saiu fraca.
Um homem sentado à frente virou um pouco o rosto.
A cicatriz no maxilar apareceu.
Mauro.
“Fica quieta.”
Elena tentou respirar.
Uma contração veio.
Violenta.
Ela se dobrou.
“Meu bebê...”
Mauro não reagiu.
Apenas olhou pela janela.
“Não é problema meu.”
Ela começou a chorar.
“Por favor.”
Outra dor.
Mais forte.
“Eu estou em trabalho de parto.”
Mauro ficou em silêncio.
Mas o motorista olhou pelo retrovisor.
Assustado.
“Mauro...”
“Dirige.”
“Ela vai ter o bebê aqui.”
“Eu disse dirige.”
Elena fechou os olhos.
Tentando não entrar em pânico.
Mas era impossível.
O bebê.
Adrian.
O hospital.
Tudo ficando para trás.
Ela precisava sobreviver.
Precisava.
Por ele.
Pelo filho.
Por tudo que ainda não viveu.
No hospital, Adrian assistiu ao carro preto saindo pela câmera externa.
Placa coberta.
Vidros escuros.
Velocidade alta.
O horário apareceu na tela.
Quinze minutos antes.
Quinze minutos.
Eles tinham quinze minutos de vantagem.
O suficiente para desaparecer.
Mas não o suficiente para Adrian desistir.
Ele olhou para os seguranças.
Para a polícia.
Para o técnico.
Para todos.
E falou com uma calma assustadora:
“Encontrem esse carro.”
Ninguém respondeu.
“Agora.”
Então virou para a tela.
Viu Elena sendo levada pela última vez.
E sentiu o desespero tomar conta.
Porque a corrida contra o tempo tinha começado.
E se chegasse tarde demais...
perderia Elena.
Perderia o filho.
Perderia tudo.