"Então terminem o trabalho."
A mensagem continuou ecoando.
Em algum lugar da cidade.
Em algum telefone descartável.
Em alguma mente doentia.
Mas Adrian não sabia disso.
Ainda não.
Tudo o que ele sabia era que Elena estava atrás daquelas portas.
Machucada.
Assustada.
E que seu filho podia morrer.
A sala de emergência parecia pequena demais para conter tanto medo.
Médicos entravam.
Médicos saíam.
Enfermeiros corriam pelos corredores.
Equipamentos apitavam.
Luzes piscavam.
E Adrian continuava parado.
Sem conseguir respirar direito.
Fazia quase quarenta minutos.
Quarenta minutos sem notícias.
Quarenta minutos imaginando o pior.
Ele já enfrentou falências.
Negociações bilionárias.
Processos.
Ataques de concorrentes.
Tentativas de golpe dentro da própria empresa.
Nada.
Nada chegou perto daquela sensação.
Porque dinheiro não importa quando alguém que você ama está lutando para sobreviver.
Finalmente.
A porta se abriu.
Um médico apareceu.
Adrian correu imediatamente.
“Como ela está?”
O médico tirou os óculos.
Cansado.
Preocupado.
“Ela está consciente.”
Adrian fechou os olhos.
Por um segundo.
Apenas um segundo.
Porque ainda havia esperança.
“E o bebê?”
O médico demorou.
Pouco.
Mas demorou.
E isso foi suficiente.
“O impacto provocou complicações.”
O sangue desapareceu do rosto de Adrian.
“Que tipo de complicações?”
“Estamos monitorando sinais de sofrimento fetal.”
O corredor inteiro ficou silencioso.
Porque aquela frase tinha apenas um significado.
Perigo.
Perigo real.
“O bebê pode morrer?”
O médico hesitou.
“Estamos fazendo tudo para evitar isso.”
Não era uma resposta.
Era pior.
Muito pior.
Quando Adrian entrou no quarto...
Elena estava acordada.
Pálida.
Muito pálida.
O braço ligado ao soro.
Marcas roxas espalhadas pelo corpo.
Arranhões.
Curativos.
E ainda assim...
a primeira coisa que ela fez foi olhar para a barriga.
Sempre a barriga.
Sempre o bebê.
“Ele está bem?”
Nem perguntou sobre si mesma.
Nem perguntou sobre os ferimentos.
Nem perguntou sobre o carro.
Apenas isso.
Ele.
O filho.
Adrian sentiu algo quebrar dentro dele.
Porque aquela mulher passou meses sendo atacada.
Humilhada.
Perseguida.
Atropelada.
E ainda pensava primeiro na criança.
“Os médicos estão cuidando dele.”
Elena percebeu imediatamente.
Não era uma resposta.
“Adrian.”
A voz falhou.
“Fala a verdade.”
Ele se sentou ao lado dela.
Segurou sua mão.
E pela primeira vez...
não soube o que dizer.
Porque a verdade era assustadora demais.
As horas passaram lentamente.
Exames.
Ultrassons.
Monitoramentos.
Mais exames.
Mais espera.
Mais medo.
Já era noite quando a obstetra entrou novamente.
O rosto sério.
Muito sério.
Elena percebeu antes mesmo que ela falasse.
“Não.”
A médica suspirou.
“Estamos observando contrações.”
O quarto congelou.
Elena fechou os olhos.
“Não.”
A palavra saiu em forma de choro.
Porque ela entendeu.
Imediatamente.
“É cedo demais.”
A médica assentiu.
“Sim.”
Trinta e duas semanas.
Muito cedo.
Perigosamente cedo.
“Vamos conseguir impedir?”
A pergunta veio de Adrian.
Desesperada.
Quase infantil.
Como alguém implorando ao universo.
A médica demorou.
Porque médicos honestos odeiam mentir.
“Não sabemos.”
Silêncio.
“Estamos tentando.”
Outra pausa.
“Mas existe risco de parto prematuro.”
O quarto ficou pequeno.
A respiração desapareceu.
O medo tomou conta.
Quando a médica saiu...
Elena começou a chorar.
Não discretamente.
Não silenciosamente.
Mas como alguém que finalmente chegou ao limite.
Meses.
Meses lutando.
Meses fugindo.
Meses protegendo aquele bebê.
Agora ele podia nascer cedo demais.
Por causa de alguém.
Por causa daquela guerra.
Por causa daquele carro.
“Eu falhei.”
Adrian levantou a cabeça.
“O quê?”
“Eu devia ter protegido ele.”
As lágrimas escorriam sem parar.
“Eu devia ter protegido nosso filho.”
“Não.”
A resposta veio imediatamente.
Firme.
Absoluta.
“Não fala isso.”
“Mas é verdade.”
“Não é.”
Elena balançou a cabeça.
“Se eu tivesse ficado em casa—”
“Não.”
“Se eu tivesse ouvido você—”
“ELENA.”
O quarto ficou em silêncio.
Porque Adrian raramente levantava a voz.
Mas naquele momento...
não suportava ouvir aquilo.
Ele segurou o rosto dela.
Gentilmente.
Como se ela pudesse quebrar.
“Olha para mim.”
Elena levantou os olhos.
Cheios de lágrimas.
Cheios de medo.
Cheios de culpa.
“Isso não é culpa sua.”
Silêncio.
“Você ouviu?”
Ela tentou responder.
Não conseguiu.
“Isso.”
Ele apontou para os hematomas.
Para os curativos.
Para os aparelhos.
“Isso foi feito com você.”
Outra pausa.
“Não por você.”
Elena começou a chorar ainda mais.
Porque precisava ouvir aquilo.
Precisava desesperadamente.
A noite continuou.
Longa.
Interminável.
Cruel.
Mas Adrian não saiu.
Nem por um minuto.
Não foi embora para tomar banho.
Não voltou para a cobertura.
Não foi para reuniões.
Não respondeu investidores.
Não respondeu jornalistas.
Nada.
Apenas ficou.
Sentado ao lado dela.
Segurando sua mão.
Esperando.
Por volta das três da manhã...
Elena acordou assustada.
Uma dor atravessou o abdômen.
Forte.
Muito forte.
Ela apertou os lençóis.
Instintivamente.
“Adrian.”
Ele acordou imediatamente.
“Estou aqui.”
Outra dor.
Mais intensa.
Mais profunda.
Mais perigosa.
Ela perdeu o ar.
“Chama alguém.”
O coração dele congelou.
Porque conhecia aquele tom.
Era o tom do medo verdadeiro.
A enfermeira entrou correndo.
Depois outra.
Depois um médico.
O monitor mostrava números.
Apitos.
Movimentos.
Mas Adrian não entendia nada.
Nada além da expressão deles.
E a expressão era ruim.
Muito ruim.
“Ela está tendo contrações regulares.”
O mundo parou.
“O quê?”
“Precisamos agir rápido.”
Outra contração atingiu Elena.
Ela gritou.
Pela primeira vez desde o acidente.
Um grito real.
Cru.
Doloroso.
Desesperado.
Adrian segurou sua mão.
Mas sentiu medo.
Um medo que nunca sentiu antes.
Porque não podia negociar aquilo.
Não podia comprar uma solução.
Não podia ameaçar ninguém.
Não podia controlar nada.
Só podia assistir.
A médica entrou novamente.
Agora acompanhada por mais profissionais.
Equipamentos.
Medicamentos.
Urgência.
Pânico controlado.
“Precisamos estabilizar as contrações.”
Elena chorava.
Adrian também.
Mesmo tentando esconder.
Porque pela primeira vez...
a guerra contra Beatriz deixou de ser sobre reputação.
Sobre dinheiro.
Sobre empresas.
Sobre poder.
Agora era sobre sobrevivência.
Pura sobrevivência.
A médica verificou os exames.
Depois olhou para Adrian.
O olhar era grave.
Muito grave.
“Se as contrações continuarem...”
Ela não terminou a frase.
Não precisava.
Todos entenderam.
Elena apertou a mão dele.
Com força.
Mais força do que parecia possível.
“Não deixa ele morrer.”
A voz saiu quebrada.
Destruída.
Materna.
E Adrian sentiu o coração partir.
Porque aquela mulher ainda pensava primeiro no filho.
Mesmo sofrendo.
Mesmo sangrando.
Mesmo assustada.
Ele beijou sua testa.
E respondeu algo que pretendia cumprir.
Mesmo sem saber como.
“Eu não vou deixar.”
Outra contração atravessou o corpo dela.
Mais forte.
Mais longa.
Mais perigosa.
Os monitores começaram a apitar.
Médicos correram.
Enfermeiros chamaram reforços.
O quarto explodiu em movimento.
E então...
a médica olhou para os exames.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
“Preparem a sala.”
O silêncio morreu.
Porque todos entenderam.
Todos.
Inclusive Adrian.
O parto podia estar começando.