Elena Ruiz sabia que aquele dia terminaria mal.
Ela sentia isso desde que chegou à mansão naquela manhã.
Talvez fosse a forma como os funcionários evitavam olhar para ela.
Talvez fossem os sussurros.
Talvez fosse Victoria.
Victoria sempre aparecia quando algo ruim estava prestes a acontecer.
Elena segurou a bandeja com mais força enquanto atravessava o enorme salão principal.
O peso da gravidez já tornava tudo mais difícil.
Sete meses.
Sete meses carregando um bebê que quase ninguém sabia que existia.
Sete meses tentando sobreviver.
Sete meses tentando não pensar em Adrian.
Mas era impossível.
Porque todos os dias ela trabalhava dentro da casa que um dia acreditou que poderia ser seu lar.
E todos os dias Victoria fazia questão de lembrá-la de que aquilo jamais aconteceria.
“Mais rápido.”
A voz surgiu atrás dela.
Fria.
Impaciente.
Conhecida.
Elena fechou os olhos por um segundo.
Victoria.
Claro.
Ela virou devagar.
Victoria estava parada perto da escadaria principal.
Elegante.
Perfeita.
Vestida de branco.
Como alguém que já se considerava dona daquela mansão.
E talvez realmente fosse.
Afinal, em poucos meses ela se casaria com Adrian Vale.
O homem que Elena tentava esquecer.
Sem sucesso.
“Eu pedi o suco há dez minutos.”
Victoria cruzou os braços.
“O que aconteceu? A gravidez deixou você lenta?”
Alguns empregados abaixaram imediatamente a cabeça.
Ninguém queria estar ali.
Ninguém queria ouvir aquilo.
Mas ninguém tinha coragem de sair.
Elena respirou fundo.
“Desculpe.”
Victoria soltou uma risada.
“Você sempre pede desculpas.”
Elena permaneceu em silêncio.
Porque responder nunca ajudava.
Porque responder sempre piorava as coisas.
Victoria se aproximou.
Devagar.
Observando a barriga dela.
Os olhos ficaram mais escuros.
Mais duros.
Mais cruéis.
“É engraçado.”
Elena sentiu o estômago apertar.
“Porque algumas mulheres fariam qualquer coisa para ter uma vida melhor.”
Victoria inclinou a cabeça.
“Até usar um bebê.”
O salão inteiro ficou silencioso.
Elena sentiu o rosto esquentar.
“Eu nunca—”
“Não.”
Victoria levantou a mão.
“Não minta para mim.”
A voz saiu afiada.
“Você realmente achou que um homem como Adrian escolheria uma empregada?”
As palavras atingiram Elena como tapas.
Porque existia uma época em que Adrian realmente a escolhia.
Uma época em que ele sorria quando a via.
Uma época em que ela acreditava que o futuro seria diferente.
Mas aquele futuro morreu meses atrás.
Ou pelo menos era isso que ela tentava dizer a si mesma.
Todos os dias.
Victoria deu mais um passo.
Muito perto agora.
“Olhe para você.”
Os olhos dela desceram até a barriga.
“Você ainda acredita em contos de fadas?”
Elena apertou a bandeja.
Com força demais.
As mãos começaram a tremer.
Ela precisava sair dali.
Precisava.
Mas Victoria não terminou.
“Talvez você devesse agradecer.”
Elena piscou.
“O quê?”
Victoria sorriu.
Um sorriso horrível.
“Eu salvei Adrian de cometer o maior erro da vida dele.”
O coração de Elena disparou.
Porque havia algo naquela frase.
Algo errado.
Algo que ela não conseguia explicar.
“Não sei do que está falando.”
Victoria riu novamente.
“Claro que sabe.”
Então aconteceu.
Rápido demais.
Victoria esbarrou na bandeja.
O movimento foi pequeno.
Mas suficiente.
Os copos tombaram.
O suco voou.
O vidro caiu.
O barulho ecoou pelo salão inteiro.
CRASH.
Elena perdeu o equilíbrio.
O peso da gravidez puxou seu corpo para frente.
Ela tentou se segurar.
Falhou.
E caiu.
Os joelhos atingiram o chão de mármore com força.
Dor.
Uma dor aguda atravessou suas pernas.
Mas ela não pensou nos joelhos.
Pensou no bebê.
Imediatamente.
As duas mãos voaram para a barriga.
Protegendo.
Sempre protegendo.
“Meu Deus...”
alguém sussurrou.
O salão inteiro observava.
Ninguém se mexia.
Ninguém ajudava.
O suco escorria pelos cabelos de Elena.
Pelo rosto.
Pelo uniforme.
Pelo chão.
Ela respirava rápido.
Tentando controlar o pânico.
Tentando sentir o bebê.
Por favor.
Por favor.
Por favor.
Mexe.
Só mexe.
Victoria continuava de pé.
Olhando para ela.
Sem pena alguma.
“Olha só.”
A voz dela veio carregada de desprezo.
“Agora está chorando.”
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Elena.
Ela tentou se levantar.
As pernas falharam.
O salão pareceu girar.
Victoria pegou o copo vazio sobre uma mesa lateral.
Girou o objeto entre os dedos.
Como se estivesse se divertindo.
Como se aquilo fosse um espetáculo.
“Você faz drama demais.”
Elena ergueu os olhos.
“Por favor...”
A voz falhou.
“Meu bebê não fez nada.”
Pela primeira vez, o silêncio ficou ainda mais pesado.
Porque não era Elena pedindo por si mesma.
Era uma mãe.
Pedindo pelo filho.
Mas Victoria não parecia tocada.
Nem um pouco.
Ela caminhou lentamente até ficar na frente dela.
Muito perto.
Perto demais.
“Você acha que esse bebê vai mudar alguma coisa?”
Elena sentiu o coração afundar.
“Você acha que ele vai te transformar em alguém importante?”
Mais lágrimas.
Mais silêncio.
Mais humilhação.
Victoria abaixou o rosto.
A voz virou um sussurro venenoso.
“Você nunca será uma Vale.”
O mundo ficou pequeno.
Pequeno demais.
Apenas ela.
A barriga.
E aquela dor sufocante crescendo dentro do peito.
Então algo mudou.
Uma movimentação.
Passos.
Rápidos.
Firmes.
Vindos da entrada principal.
Alguns funcionários se viraram imediatamente.
Outros ficaram tensos.
Victoria franziu a testa.
Confusa.
Porque ela não esperava ninguém.
Mas alguém tinha acabado de chegar.
As enormes portas da mansão se abriram.
E uma voz masculina ecoou pelo salão.
“Victoria?”
Elena congelou.
Completamente.
Não.
Não podia ser.
Não naquele dia.
Não naquele momento.
Seu coração começou a bater tão forte que parecia machucar.
Ela conhecia aquela voz.
Conhecia melhor do que gostaria.
Durante meses tentou esquecê-la.
Fracassou.
Lentamente.
Com medo.
Quase sem coragem.
Elena levantou os olhos.
E viu uma silhueta parada na entrada da mansão.
Alta.
Imponente.
Vestida de preto.
Por um segundo inteiro ela não conseguiu respirar.
Porque Adrian Vale tinha acabado de entrar.
E estava olhando diretamente para ela.