Capítulo 29: O Sangue Envenenado
O pátio interno do palácio, outrora um santuário de jardins suspensos e mármore polido, agora não passava de um cenário de pesadelo. Colunas de pedra sustentavam o que restava do teto, enquanto o chão estava coberto por escombros, fragmentos de vidraças e o brilho sinistro de resíduos de fogo alquímico. No centro desse caos, Kaelen estava de joelhos, lutando uma guerra perdida contra o próprio corpo.
O veneno de sangue corria por suas veias como mercúrio fervente. Lyra estava ao lado dele, as mãos sujas de sangue tentando inutilmente conter a substância escura que se espalhava a partir do ferimento no ombro. Ela sentia o calor dele diminuir rapidamente; a essência dracônica, que costumava ser um forno vivo contra sua pele, agora parecia esfriar, sucumbindo à toxicidade mortal da flecha.
— Kaelen, olhe para mim! — ela implorou, a voz falhando. — Não deixe isso vencer. Você é o Rei, você é o Pico, você não pode simplesmente ceder!
Kaelen soltou um suspiro arrastado, um som que mais parecia um rugido sufocado. Suas feições, habitualmente marcadas por uma dureza imperial, estavam contorcidas em agonia. A magia que o mantinha em sua forma humana, a fachada que escondia o dragão colossal que ele realmente era, estava desmoronando sob a pressão do veneno. Sua pele parecia perder a cor, tornando-se pálida e translúcida, e seus olhos, antes dourados como o sol, agora piscavam entre o humano e o bestial, perdendo o foco conforme a consciência fugia.
Com um estalo seco, o corpo de Kaelen estremeceu violentamente. Ele não pôde mais sustentar a forma humana. Em uma explosão de energia residual que fez as pedras ao redor deles vibrarem, sua estrutura física encolheu e se rearranjou, caindo de volta à forma humana total, totalmente desprovida de qualquer proteção mágica. Ele desabou para o lado, inerte. A flecha, ainda encravada, parecia pulsar com uma luz própria, drenando a força de vida que restava nele.
Lyra se virou para trás, pronta para enfrentar qualquer um que ousasse se aproximar enquanto ela tentava salvá-lo, mas seus olhos encontraram apenas o vazio do pátio. Ou assim ela pensou.
— Foi uma escolha fascinante, não foi? — Uma voz, carregada de uma calma venenosa e familiar, cortou o barulho da destruição ao longe.
Lyra se levantou, limpando o sangue das mãos em sua túnica, e encarou a figura que caminhava calmamente através dos escombros. Era a General Lyana. Mas não a Lyana que ela conhecera. A armadura da guarda real estava suja, mas seus olhos brilhavam com uma autoridade que ela nunca demonstrara diante de Kaelen. Ela caminhava não como uma subordinada, mas como alguém que finalmente tomara posse de seu destino.
— Você... — Lyra sibilou, sua mão buscando qualquer arma, encontrando apenas uma pedra pontiaguda que ela agarrou com força. — Você orquestrou tudo isso? A traição, as armas, o ataque?
Lyana parou a poucos metros, um sorriso cruel curvando seus lábios. Ela fez um gesto em direção ao palácio em ruínas, como se estivesse apresentando uma obra de arte.
— O Pico Draconiano precisava de uma limpeza, Lyra. Kaelen estava ocupado demais tentando ser um "rei benevolente" para entender que este lugar não é um santuário. É um trono. E tronos só podem ser ocupados por aqueles dispostos a queimar o mundo para garantir sua supremacia.
— Ele confiou em você! — Lyra gritou, sentindo a raiva ferver mais do que o medo. — Você é a pessoa que ele mais confiava neste castelo!
Lyana soltou uma risada seca e sem alegria.
— Confiança é um luxo que os mortos não podem pagar. Eu não sou apenas a General da guarda. Eu sou a arquiteta do que vem a seguir. Os dragões rebeldes que você viu lá fora? Eles não estão atacando por caos. Eles estão atacando por minhas ordens. Eles são o exército que vai substituir a ordem velha e inútil que ele tentou manter.
Lyra olhou para Kaelen, caído ao chão como uma boneca de pano, e depois de volta para Lyana. A verdade atingiu-a com a brutalidade de um golpe físico: a rebelião não era externa. O palácio não fora invadido por inimigos distantes; fora conquistado por dentro, pela única pessoa que tinha acesso a todas as defesas.
— Você não vai matá-lo agora, não é? — Lyra perguntou, sua voz baixa, tentando ganhar tempo enquanto sua mente corria em busca de uma saída.
— Matar é um desperdício — Lyana respondeu, aproximando-se lentamente. — Ele vai assistir. Ele vai assistir à queda de seu império, à destruição de tudo que ele tentou proteger, enquanto o veneno lentamente apaga sua mente. E você, Lyra... você será a testemunha privilegiada. Afinal, todo rei precisa de alguém para lembrar de sua derrota final.
Lyana levantou a mão, e das sombras do pátio, mais soldados rebeldes emergiram, cercando a área. Lyra percebeu, com um desespero gelado, que não havia mais para onde correr. Kaelen estava fora de combate, Lyana tinha o controle total, e o último vestígio de esperança parecia ter se transformado em cinzas no pátio destruído. O Pico Draconiano não tinha caído por força bruta, mas por uma ambição tão afiada quanto a lâmina que agora apontava para o pescoço de Lyra.