Capítulo 25: A Visita da Meia-Noite
O tempo nas masmorras era uma abstração cruel. Lyra não sabia se haviam se passado horas ou dias desde que a porta de ferro fora trancada, deixando-a na companhia apenas de seus pensamentos amargos e do gotejar constante da umidade nas paredes de pedra. Ela estava sentada no chão, os joelhos contra o peito, quando o som suave de passos ecoou pelo corredor deserto. Não eram os passos pesados e metódicos dos guardas de Lyana; eram passos leves, quase inaudíveis, que carregavam um peso diferente.
Ela ficou tensa, o coração martelando, esperando o pior. A luz de uma tocha solitária, carregada por alguém que não queria ser visto, começou a iluminar as frestas da grade. Então, a sombra se materializou diante da cela. Quando a luz atingiu o rosto do visitante, Lyra prendeu a respiração. Era Kaelen.
Ele não usava as vestes reais, nem ostentava a aura de comando que o acompanhava no trono. Parecia cansado, quase abatido, e havia uma sombra de hesitação em seus olhos dourados que ela não via desde o Julgamento de Fogo. Ele não disse uma palavra, apenas inseriu uma chave mestra na fechadura. O metal rangeu e a porta cedeu.
Lyra recuou para o canto da cela, os olhos faiscando de uma raiva contida, mas também de uma dor que ela não conseguia esconder.
— Veio ver o trabalho concluído? — ela perguntou, a voz rouca pelo desuso e pelo choro. — Quer ter certeza de que a "espiã" está definhando como planejado?
Kaelen entrou na cela, ocupando o espaço pequeno com uma presença que parecia exalar o calor das entranhas da montanha. Ele se ajoelhou diante dela, ignorando o frio do chão de pedra, e estendeu a mão, como se quisesse tocar o rosto dela, mas retraiu o gesto no último segundo, como se a própria ideia de tocá-la fosse uma violação.
— Você está ferida — ele disse, a voz baixa, quase um sussurro que contrastava com a autoridade fria que usara contra ela na corte. Seus olhos vasculharam os hematomas em seus pulsos, marcas deixadas pelas algemas de Lyana.
— Não ouse — Lyra sibilou, esquivando-se da aproximação dele. — Você me colocou aqui. Você permitiu que Lyana me arrastasse como um bicho. Por que está fingindo se importar agora? O seu teatro de Rei de gelo foi muito convincente, Kaelen. A corte aplaudiu, não é?
Kaelen fechou os olhos por um momento, um espasmo de dor atravessando seu rosto. Ele se sentou no chão, a uma distância respeitosa, encarando a escuridão do corredor.
— Eu não tive escolha, Lyra — ele começou, a voz carregada de um peso que ele carregava há séculos. — Se você tivesse permanecido nos seus aposentos após o julgamento, Lyana teria convencido os Anciãos de que você era uma ameaça iminente. Ela queria a sua cabeça, e ela tinha o apoio da maior parte do Conselho. A única forma de tirar você do alcance deles era colocá-la sob a minha custódia direta, nas masmorras. Aqui, a lei draconiana diz que você é propriedade do Rei, e ninguém — nem mesmo Lyana — pode tocar em você sem a minha permissão explícita.
Lyra ficou em silêncio, a revelação fazendo o seu coração falhar uma batida.
— Você me prendeu para me manter viva? — ela sussurrou, sentindo a ironia amarga da situação. — Você me deixou acreditar que tinha me traído, me deixou ser humilhada na corte, apenas para me manter viva longe dos juízes?
— Foi a única forma de ganhar tempo — ele admitiu, olhando para ela com uma vulnerabilidade que desarmou suas defesas. — Eu não podia revelar que você era minha única esperança para decifrar as armas modificadas. Se a corte soubesse que eu confiava em você, eles teriam nos matado a ambos. Eu tive que agir como se você fosse apenas um peão a ser descartado. Eu precisei que eles acreditassem que eu a tinha entregado à justiça.
Lyra sentiu uma onda de emoções contraditórias. A raiva pela humilhação ainda queimava, mas o alívio — um alívio tão imenso que quase a fez desmaiar — inundava seu peito. Ele não a tinha traído. Ele tinha feito o que um rei, amaldiçoado e acuado, achava que era a única forma de protegê-la.
— Você não poderia ter me dito? — ela perguntou, as lágrimas voltando, mas desta vez de frustração. — Eu passei dias acreditando que tudo o que tínhamos era uma mentira. Que o homem que eu conheci no vale das flores tinha morrido.
Kaelen finalmente estendeu a mão e tocou, levemente, a ponta de seus dedos nos pulsos feridos de Lyra. O calor dele era como um bálsamo.
— Eu não podia confiar em ninguém, nem em mim mesmo. A corte tem ouvidos em cada sombra, e Lyana é mais astuta do que qualquer um de nós. Eu tinha que manter a máscara. Mas eu não podia deixar você sangrar aqui embaixo sem ajuda. Eu tive que esperar até que a vigilância estivesse no seu ponto mais fraco esta noite.
Ele olhou para ela, e na penumbra da cela, ela viu o homem que ela vira no céu — o homem que temia perder a sanidade, o homem que queria desesperadamente acreditar que havia outro caminho além da guerra e da maldição.
— Você é a única coisa real neste palácio de mentiras, Lyra — ele disse, com uma intensidade que a fez esquecer o frio da masmorra. — Eu fiz isso para mantê-la viva, longe deles. E eu prometo que, quando a poeira baixar e eu tiver a vantagem, você será a primeira a sair daqui. Mas, por favor, você precisa aguentar. A guerra está pior do que você imagina, e eu ainda preciso da sua mente para entender essas armas.
Lyra olhou para Kaelen, o peso das escolhas dele pairando no ar. Ela estava presa, sim, mas não da maneira que pensara. As grades do destino eram mais complexas do que o ferro que as compunha. Ela sabia que aquele momento, aquela visita secreta na meia-noite, mudaria tudo novamente. O ódio tinha se dissipado, mas a desconfiança ainda permanecia como uma brasa acesa. Ela estava em dívida com ele pela sua vida, mas o preço daquela proteção poderia ser muito mais alto do que ela jamais imaginara.