Capítulo 21: O Retorno da Guerra
O regresso ao Pico Draconiano não foi a aterrissagem triunfal que Lyra poderia esperar de um Rei. Foi seco, rápido e carregado de uma tensão que parecia eletrificar o ar. Quando Kaelen, já na sua forma humana, aterrissou na plataforma principal, sua postura era completamente diferente daquela que ele mantivera nas montanhas isoladas. A suavidade, a hesitação, aquele vislumbre de vulnerabilidade que ela vira no vale das flores-de-fogo — tudo havia sido substituído por uma armadura emocional impenetrável. Ele era, novamente, o monarca cujo sangue fervia com a maldição do dragão.
Lyra, ainda tonta pelo voo vertiginoso e pela mudança brusca de ambiente, mal teve tempo de se equilibrar antes de ser conduzida quase à força para a Sala de Estratégia Militar. O local era exatamente como ela imaginara: um salão circular de pedra negra, dominado por uma mesa imensa, esculpida em rocha vulcânica, onde mapas antigos estavam espalhados, marcados com sangue e cera de selos reais.
Os generais já estavam lá, suas armaduras de escamas tilintando conforme se moviam em volta da mesa. O clima era de urgência absoluta.
— Eles atravessaram a fronteira em três pontos distintos, Majestade — disse a General Lyana, cujo tom de voz, sempre afiado, agora estava carregado de um pragmatismo gélido. — Não são apenas tropas de infantaria. Eles estão usando a tecnologia de Solaria para canalizar o calor das nossas próprias fissuras contra nós mesmos.
Kaelen parou à cabeceira da mesa, seus dedos grandes e fortes repousando sobre um mapa que mostrava os vales onde a guerra se desenrolava. Ele não olhou para Lyra. Na verdade, ele agia como se ela nem estivesse na sala, embora a presença dela fosse um lembrete vivo de que a trégua que ele tentara construir fora destruída pela realidade da invasão.
— Quero todos os postos de defesa reforçados — Kaelen ordenou, sua voz baixa e carregada de uma autoridade absoluta. — E tragam os sobreviventes das patrulhas da fronteira. Quero ver o que restou das armas que eles usaram.
Enquanto os generais discutiam logística e táticas de defesa, Lyra sentiu-se como um fantasma naquele salão. Ela sabia que sua utilidade ali — como cura, como alguém que acalmava o fogo do Rei — estava em segundo plano diante da sobrevivência do reino. No entanto, ela não era apenas uma prisioneira; ela era alguém que conhecia os segredos dos humanos de Solaria, e o silêncio de Kaelen a inquietava.
Ela começou a inspecionar os restos de metal que foram trazidos para uma bancada lateral. Eram fragmentos de um projétil desconhecido, feito de um metal que Lyra nunca vira em Solaria. Quando seus dedos tocaram o metal, ela sentiu um arrepio. Não era apenas tecnologia de Solaria; era algo mais. O metal pulsava com uma energia rúnica que ela já ouvira falar em lendas antigas sobre armas modificadas, projetadas para drenar a magia de seres draconianos.
— Kaelen — ela chamou, sua voz cortando o murmúrio da sala. Todos os olhares se voltaram para ela, incluindo o de Kaelen, que continha uma mistura de aviso e frieza.
— Agora não, Lyra — ele respondeu sem desviar os olhos do mapa.
— Você precisa olhar isso — ela insistiu, aproximando-se da mesa com um dos fragmentos na mão. — Isso não é tecnologia de Solaria comum. São armas modificadas, construídas para drenar o seu sangue. Se você for para o campo de batalha com a sua guarda real, você não vai enfrentar apenas soldados. Você vai enfrentar um extermínio.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Lyana deu um passo à frente, olhando para o fragmento na mão de Lyra com desconfiança evidente.
— Como você sabe disso, humana? — Lyana perguntou, a mão sobre o punho da adaga, pronta para qualquer sinal de traição.
— Porque eu conheço os escritos que eles usam para gravar essas runas — Lyra respondeu, mantendo o olhar firme no de Kaelen. — Se vocês continuarem a ignorar a natureza dessas armas, cada dragão que entrar em combate será abatido antes mesmo de abrir as asas.
Kaelen finalmente deixou o mapa. Ele caminhou até Lyra, e o calor que ele irradiava era quase sufocante. Por um segundo, ele olhou para ela com aquela intensidade que a fizera acreditar que algo mudara entre eles, mas então, o olhar endureceu. Ele pegou o fragmento da mão dela e o analisou por longos segundos, seu rosto tornando-se uma máscara de pedra.
— General, ordene a retirada imediata de todas as unidades de elite da zona de impacto — Kaelen ordenou, sem tirar os olhos do metal em sua mão. — E preparem uma unidade de reconhecimento para o meu comando pessoal. Se eles querem guerra, nós vamos lhes dar a guerra que eles não esperam.
Ele olhou para Lyra uma última vez, mas não havia gratidão em seus olhos, apenas uma aceitação sombria.
— Você disse que queria saber como é a guerra, Lyra? — ele perguntou, sua voz soando como um aviso. — Bem, agora você verá. Esconda-se nos seus aposentos. A partir de agora, este palácio não é mais um lugar seguro, e eu não poderei protegê-la.
Enquanto Kaelen se afastava, liderando os generais para fora do salão, Lyra olhou para os mapas sobre a mesa. Ela sabia que ele estava tentando mantê-la longe do perigo, mas também sabia que ele estava profundamente enganado. Ela não era uma curandeira que se escondia nas sombras. Se o destino do Pico Draconiano estava ligado àquelas armas modificadas, ela seria a chave para entender como derrotá-las. A guerra havia voltado, mas desta vez, as regras haviam mudado para sempre.