"Você não vai me dizer que, depois de tantos anos, descobriu de repente que a pessoa que ama é a Suely, vai?"
Lucas abriu a boca, mas as palavras ficaram presas na garganta.
Ao ver a reação dele, Zhao Feng girou ao seu redor, boquiaberto: "Você não está falando sério, está?"
"Não." Lucas balançou a cabeça: "Não sei descrever esse sentimento. A última vez que a vi foi na sala de cirurgia. Ela me perguntou se eu realmente precisava induzir o parto, eu disse que sim. Por fim, ela disse que me odiava e que nunca mais queria me ver. Naquela hora, não me importei. Mas, desde o incêndio, sonho com ela todas as noites, desesperada no fogo, dizendo que me odeia."
Zhao Feng levou a mão à testa: "Você não contou a ela o diagnóstico do médico?"
Suely sofrera o acidente e ficara presa por muito tempo; somado à hemorragia, o médico suspeitava que o bebê já tivesse morrido por falta de oxigênio.
O médico perguntou a Lucas quem ele salvaria: a mãe ou o filho.
Em um momento crítico, Lucas escolheu salvar a vida de Suely.
Lucas sorriu amargamente: "Não havia nada a dizer. De qualquer forma, fui eu quem escolheu abandonar a vida da criança." Ele continuou: "Mesmo que não houvesse o acidente, eu já estava considerando tirar o bebê antes do tempo; ele também poderia morrer. Eu, Lucas, nunca escondo o que faço. Não há nada a explicar."
Zhao Feng revirou os olhos.
Lucas e Suely: um arrogante, o outro teimoso. Estarem juntos e nada dar errado seria um milagre.
"É o que penso: as pessoas já morreram, falar não adianta nada. É preciso seguir em frente."
Lucas se despediu de Zhao Feng, voltou à mesa, tirou uma garrafa de uísque do bar e deu um gole longo.
O sabor picante subiu pela garganta, passou pelo nariz e atingiu o cérebro.
Aquela sensação de choque dava um mínimo de estímulo aos seus nervos dormentes.
Ele entendia tudo o que Zhao Feng disse, mas não sabia o que estava acontecendo consigo.
A mulher que ele amava era Bianca. Ele havia planejado dar a Suely uma quantia em dinheiro após o nascimento do bebê para que ela vivesse bem.
Por que tudo se transformou nisso?
Bi-bi — bi-bi
Lucas pegou o celular, mas a tela estava preta. Não era o seu telefone.
Ele abriu a gaveta da mesa, onde jazia um celular branco e surrado.
Era o aparelho de Suely. Ele o tomara dela para evitar contatos com o mundo exterior.
Um modelo antigo, de abrir, de não se sabe quantos anos atrás.
Um sorriso discreto surgiu nos lábios de Lucas. Apenas Suely insistiria em usar uma antiguidade daquelas.
Sem senha, ele abriu a tampa e acessou a tela principal.
Uma notificação de resposta aparecia:
【Parece que faz muito tempo que não nos falamos. Naquela época, foi por causa daquele tópico que você postou. Ambos no mesmo barco, não sei como você está depois de tantos anos.】
Ele não fazia ideia de que Suely gostava de publicar tópicos em fóruns. A curiosidade o levou a clicar no link.
Mais que um tópico, parecia um diário.
A primeira data era de dez anos atrás.
【É estranho, os sentimentos de muitas pessoas parecem ser tão breves. Quando o outro lado deixa de amar ou não há resposta, o sentimento desaparece. Mas eu pareço um alienígena. Ele nem se lembra do meu nome, mas fui sugada aos poucos para as profundezas do pântano. Nunca mais conseguirei amar alguém assim nesta vida.】
【Talvez eu nunca me case, porque a pessoa que amo é alguém de quem decidi, há muito tempo, nunca me aproximar. Ele está tão feliz agora, e eu só quero observar essa felicidade em silêncio.】
【Não tenho segundas intenções, só que vê-lo tão triste faz meu coração doer. Sei que ele ainda a ama, espero que essa companhia temporária possa aliviar um pouco o seu sofrimento. Não existe aquela máxima? O amor mais profundo é tornar-se o melhor amigo para toda a vida. Talvez um dia eles se separem, e o bom amigo estará lá para acompanhá-lo sempre. Quero ser apenas uma boa amiga ao seu lado.】
Lucas compreendeu vagamente quem era aquele "ele" que Suely amava. Ele prendeu a respiração e, com os dedos tremendo, continuou lendo as publicações seguintes.
【Acho que deveríamos terminar, mas hoje descobri algo. Na verdade, nunca contei sobre a minha origem, eu...】
A tela do celular apagou. Lucas tentou pressionar os botões, mas não houve reação.
Droga! O aparelho estava lá há muito tempo sem carga.
Lucas revirou tudo atrás de um carregador, mas não encontrou o modelo compatível.
O assistente apareceu suando: "Sr. Lucas, esse modelo é de dez anos atrás. Já não existe no mercado e a fábrica encerrou a produção. Não encontrei um carregador adequado."
Lucas disse: "Esqueça. Procure por outros canais, veja se alguém ainda usa esse modelo. Pago dez vezes o preço pelo cabo. Agora, faça outra coisa: investigue qual é a verdadeira origem de Suely."
Lucas estava diante da janela do trigésimo andar, observando a cidade agitada, com o celular branco na mão. Aquela mulher queria terminar... o que aconteceu naquela época para mudar os seus planos?
Ele precisava saber imediatamente!
Capítulo 16: O destino de mais de dez anos atrás
Alta noite, Lucas desceu de seu carro preto.
Uma silhueta branca veio correndo.
"Lucas, você finalmente voltou!" Bianca olhava para ele com olhos brilhantes.
Em contraste com o entusiasmo de Bianca, a reação de Lucas foi instintivamente tentar evitá-la.
Bianca fez um bico, manhosa: "Lucas, o que houve? Não quer ver a Bianca?"
Lucas suspirou profundamente, acariciou a cabeça dela e disse: "Sua boba, não é nada. Não imagine coisas."
"Fiz sopa para você, ainda está quente."
Bianca o levou até a mesa, serviu a canja de galinha e insistiu: "Prove logo, cozinhei o dia inteiro!"
Seu estômago não estava nada bem, mas, vendo a animação dela, Lucas não teve coragem de recusar e tomou meia tigela.
"Lucas, não te vejo há quase um mês. Se eu não tivesse esperado acordada hoje, talvez não te encontrasse."
Lucas travou, evitando olhar para ela: "Tenho tido muito trabalho na empresa recentemente." Sem esperar Bianca responder, ele pousou a tigela: "Lembrei que ainda tenho um documento para responder. Descanse cedo, vou para o escritório."
Bianca olhou para as costas dele, fugindo como se estivesse escapando de algo, e bateu o pé no chão.
Nos últimos meses, Lucas vivia um sumiço: saía cedo, voltava tarde e dormia no escritório. A desculpa era não interrompê-la.
Ela não acreditava nem um pouco; a culpa era daquela mulher.
Lucas parecia estranho justamente desde que Suely morrera. Ela sabia que ele procurava Suely às escondidas, mesmo que ele escondesse dela.
Aquela mulher, mesmo morta, ainda interferia entre eles!
Lucas entrou no escritório, ouvindo com atenção se Bianca o seguia. Ao confirmar que não, soltou o ar.
Por que ele estava assim? Culpa? Não totalmente.
Parecia apenas que, desde que Suely partira, ele não conseguia se concentrar em nada. Tudo o que ele fazia o remetia a ela.
Como a sopa agora. Se fosse Suely, ela perceberia que ele voltava de jantares de negócios e serviria algo para curar a ressaca, deixando-o muito melhor. Não como agora, com a boca cheia de gordura.
Lucas balançou a cabeça bruscamente: "Lucas, o que você está fazendo? Você casou por amor, não é um cozinheiro ou uma babá. Se quer uma sopa, contrate alguém para fazer. Você não precisa de uma amante ou um cozinheiro."
Ele precisava se lembrar: sentia apenas culpa por Suely, nada mais.
Capítulo 17: O passado
"Sr. Lucas, aqui estão os relatórios sobre a origem da Srta. Suely, retirados do orfanato."
O assistente colocou dois envelopes sobre a mesa.
Lucas acenou e começou a folhear os papéis detalhadamente.
Suely era órfã, abandonada pelos pais várias vezes.
O primeiro abandono foi em um shopping. A polícia a encontrou através das câmeras, mas, surpreendentemente, os pais disseram que não queriam a criança e só a levaram de volta por pressão policial.
Depois do primeiro, vieram o segundo, o terceiro...
No último abandono, a polícia chegou e não havia mais ninguém. O abandono fora premeditado.
Como ela ainda era pequena, foi parar no orfanato.
Os arquivos eram simples: registros de sua infância, cadernos escolares, medalhas de honra, vídeos de atividades.
No caderno de redações, com a caligrafia infantil torta, o tema era: "O que quero ser quando crescer".
Suely escreveu: "Quando eu crescer, quero ser uma boa mãe."
【Sempre invejei as outras crianças. Na escola, quando as aulas terminavam, todas esperavam felizes pelas mães. Eu não gostava da hora da saída, porque não sabia para onde ir. Meus pais nunca estavam em casa e eu tinha que ficar esperando na porta.】
【Mamãe diz que se arrepende de ter me tido. Não entendo... por que, sendo mãe, a mãe da Kiki é diferente? No aniversário da Kiki, ela diz que ela é o melhor presente que recebeu dos céus.】