A montanha isolada onde haviam pousado não era apenas pedra e gelo; escondido em uma reentrância abrigada do vento, existia um vale minúsculo, um oásis de luz na escuridão eterna do Pico Draconiano.
Ali, cresciam as flores-de-fogo, plantas raras que pulsavam com uma luminescência suave, âmbar e avermelhada, como se guardassem o calor da própria montanha em suas pétalas delicadas.
O ambiente era de uma quietude quase sagrada. Lyra caminhou pelo campo luminoso, sentindo o calor irradiado pelas flores através das solas de suas botas.
Kaelen a seguia a poucos passos, sua presença imponente tornando-se estranhamente contida naquele espaço tão frágil.
— Elas só florescem aqui, onde o ar é puro demais para o resto da montanha — Kaelen disse, sua voz perdendo o tom áspero de Rei e ganhando uma suavidade que Lyra raramente ouvia. Ele parou diante de uma das flores, observando-a com uma expressão que oscilava entre a admiração e uma melancolia profunda.
Lyra se aproximou, sentindo que aquele era um momento de transição. O voo, a liberdade acima das nuvens, a trégua na biblioteca — tudo levara àquele instante de isolamento absoluto.
— Elas são como você — Lyra sussurrou, observando o brilho refletido nos olhos dourados dele. — Precisam de um lugar onde nada mais pode alcançá-las para conseguir brilhar.
Kaelen virou-se para ela. A luz das flores-de-fogo projetava sombras dançantes em seu rosto, destacando a dureza de suas feições, mas também a fragilidade que ele tentava, a todo custo, esconder do resto do mundo.
— Eu passei séculos acreditando que o meu destino era o fogo — ele começou, dando um passo em direção a ela. — Que a minha sanidade era algo que eu deveria sacrificar em nome da sobrevivência deste reino. Eu me tornei o monstro que eles precisavam que eu fosse. Mas, quando estou perto de você, Lyra... o monstro se cala. E isso me apavora.
Lyra sentiu um frio na espinha, não de medo, mas pela intensidade daquelas palavras. Ela sabia que ele estava falando de algo que ia muito além da Marca da Alma; tratava-se de um reconhecimento de humanidade que Kaelen há muito abandonara.
— Por que isso te apavora? — ela perguntou, sua voz firme, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.
— Porque se eu me tornar humano novamente, se eu permitir que esse sentimento tome o controle, eu me torno vulnerável — ele confessou, a honestidade sendo mais dolorosa do que qualquer ferida física. — E a vulnerabilidade, em um mundo de dragões, é uma sentença de morte. Eu tenho medo de que, se eu começar a sentir o que você me faz sentir, a minha sanidade não seja recuperada, mas sim fragmentada.
Ele estava tão perto que ela podia sentir a radiação de calor constante de sua pele.
O magnetismo entre eles não era apenas físico; era uma força gravitacional que parecia distorcer o espaço ao redor.
Lyra sentiu que eles estavam no limiar de algo que não poderiam desfazer — um pacto de emoções que mudaria o curso de suas vidas e, possivelmente, o destino da Terra do Fogo.
Ela ergueu a mão, hesitando por um momento antes de tocar o rosto dele.
A pele de Kaelen era quente, mas sob sua palma, ela podia sentir a pulsação frenética de seu sangue, o ritmo acelerado de um homem que estava lutando contra a própria natureza.
— Você não precisa ser o monstro para ser forte, Kaelen — ela disse, seus rostos a milímetros de distância. — Talvez a sua verdadeira força sempre tenha estado nessa humanidade que você tentou enterrar.
Os olhos de Kaelen se fecharam por um momento, como se ele estivesse assimilando a verdade daquelas palavras.
Quando ele os abriu novamente, não havia mais a barreira do Rei, nem o distanciamento da fera.
Havia apenas uma entrega silenciosa, um magnetismo quase irresistível que puxava ambos para o centro daquele campo de luz âmbar.
O mundo lá fora — a corte, os traidores, o tratado de Solaria — não existia. Ali, entre as flores que brilhantes que desafiavam a escuridão, Kaelen não era mais o soberano amaldiçoado, e Lyra não era mais o tributo. Eles eram apenas dois seres, quase humanos, à beira de um precipício emocional onde a queda prometia ser muito mais profunda do que o voo que haviam feito horas antes.
Ele se inclinou, e por um breve instante, o silêncio da noite foi preenchido pela promessa de algo que nenhum dos dois jamais ousara desejar.
O magnetismo era avassalador, e o medo de perder a sanidade, que Kaelen tanto temia, foi substituído pelo medo ainda maior de perder o momento em que a vida, enfim, começava a fazer sentido.