O ar no topo do Pico Draconiano era rarefeito e gelado, um contraste brutal com o calor sufocante dos salões lá embaixo.
Lyra estava parada na extremidade do penhasco mais alto, onde o mundo parecia terminar em uma queda livre vertiginosa para um abismo de nuvens e rocha vulcânica.
Ela estava nervosa, o coração batendo um ritmo frenético contra as costelas, mas, ao mesmo tempo, sentia uma estranha calma que não experimentava desde que fora arrancada de sua vida em Solaria.
Kaelen estava a poucos passos de distância, contemplando o horizonte com aquela postura de rei que, ultimamente, perdera um pouco de sua rigidez.
Ele não vestia nada além de calças simples de couro e botas pesadas; seu peito nu, marcado pelas cicatrizes que Lyra agora conhecia tão bem, subia e descia com uma respiração controlada.
— Você disse que queria ver como é a liberdade, Lyra — Kaelen disse, sua voz perdendo o tom de comando e ganhando uma nota suave, quase íntima. — Mas a liberdade não se vê do chão. Ela se sente.
Lyra virou-se para ele, o vento movendo seus cabelos, que chicoteavam seu rosto.
— Eu não sei se estou pronta para isso, Kaelen. O que você me pediu... é algo que nenhum humano jamais experimentou.
Kaelen deu um passo à frente, aproximando-se dela até que ela pudesse sentir o calor emanando de sua pele.
Ele estendeu a mão, não para agarrá-la, mas para que ela pudesse tocar seu braço, um gesto de confiança que eles haviam demorado tanto a construir.
— Confie em mim — ele pediu, seus olhos dourados brilhando com uma intensidade que parecia refletir a luz do entardecer. — Eu não vou deixar nada acontecer com você. O céu é o meu domínio, e lá, somos apenas nós dois. Sem cortes, sem intrigas, sem o peso da coroa.
O processo da transformação era algo que Lyra nunca se cansava de observar, embora sempre a deixasse deslumbrada.
Kaelen fechou os olhos, e uma aura de fogo escuro começou a emanar de seu corpo, envolvendo-o como uma mortalha de chamas negras.
O chão sob seus pés tremeu levemente enquanto ossos e músculos se rearranjavam em uma exibição de poder bruto e primal.
Em poucos segundos, o homem à sua frente havia desaparecido, substituído por uma criatura de magnitude lendária.
O dragão era imenso, coberto por escamas negras que brilhavam como obsidiana sob a luz agonizante do sol.
Suas asas, quando abertas, pareciam cobrir todo o céu, criando uma sombra que envolvia o penhasco em um crepúsculo antecipado.
Ele soltou um rugido baixo, um som que não era ameaçador, mas sim um chamado, e baixou sua asa esquerda, estendendo a pata dianteira para que Lyra pudesse subir.
Lyra respirou fundo e, com o coração na boca, deu o primeiro passo.
A escama era quente ao toque, sólida como rocha, mas com uma textura que parecia viva sob seus dedos.
Ela se acomodou entre as cristas das costas do dragão, segurando-se firme na base do pescoço, onde as escamas formavam uma espécie de alça natural.
Assim que ela se firmou, o dragão se lançou para o abismo.
A sensação de queda livre durou apenas um milésimo de segundo antes que as enormes asas batessem, impulsionando-os para cima com uma força que quase tirou o fôlego de Lyra.
Eles subiram em espiral, atravessando as correntes de ar frio como uma flecha em direção às nuvens. Lyra gritou, um som de puro terror e euforia misturados, sentindo a velocidade cortar seu rosto.
Lá embaixo, o castelo parecia um brinquedo esculpido em miniatura.
O mundo não era mais uma série de muros, proibições e perigos; era uma vasta extensão de possibilidades.
O vento soprava com tal força que ela mal conseguia abrir os olhos, mas, quando o fez, a visão do mundo lá de cima a deixou sem ar.
Kaelen manobrava com uma elegância que ele nunca mostrava na forma humana. Eles mergulharam entre as nuvens, rolando o corpo no ar, e Lyra riu, um riso alto e desinibido que se perdeu na vastidão do céu.
Ali, suspensa entre o céu e a terra, ela não era a "cura", nem a "prisioneira", nem a "curandeira humana". Ela era apenas Lyra, e, por aquele momento precioso, ela era livre.
— Você está vendo? — a voz de Kaelen ecoou, não em seus ouvidos, mas diretamente em sua mente, através do vínculo da Marca da Alma. — Este é o meu mundo.
— É mais lindo do que eu jamais imaginei — Lyra respondeu, sentindo as lágrimas de emoção secarem rapidamente com o vento.
Eles voaram durante o que pareceram horas, contornando os picos mais altos das montanhas, sentindo a mudança das correntes térmicas. Pela primeira vez, Kaelen não parecia ser um monstro acorrentado pela maldição, mas um ser em seu habitat natural, calmo e poderoso.
Quando finalmente começaram a descida em direção ao Pico Draconiano, o sol já havia mergulhado abaixo do horizonte, pintando o céu de violeta e laranja. O retorno à forma humana no penhasco foi silencioso. Kaelen a ajudou a descer, e, ao se transformarem de volta, o silêncio entre eles era diferente. Não era a tensão carregada de antes, mas uma compreensão tácita.
Lyra olhou para ele, seus olhos brilhando com a adrenalina do voo.
— Obrigado — ela disse simplesmente.
Kaelen tocou o rosto dela com uma delicadeza que ainda a surpreendia.
— Você pertence ao céu tanto quanto pertence ao meu lado, Lyra — ele disse, com a voz embargada por uma emoção que ele mal conseguia esconder. — E, a partir de hoje, ninguém mais vai tirar isso de você.
Lyra sabia que, ao descerem de volta para o palácio, a realidade da corte, da inveja e das intrigas estaria esperando por eles. Mas, enquanto caminhavam de mãos dadas em direção às portas do castelo, ela sentia que algo havia mudado permanentemente. Ela havia voado nas asas de um dragão, e nenhuma muralha, por mais alta que fosse, seria capaz de aprisionar seu espírito novamente.