O silêncio que se seguiu à execução no salão de banquetes foi de uma natureza diferente. Não era o silêncio do medo, mas de uma antecipação tensa e quase elétrica. Kaelen não deixou que Lyra se afastasse dele nem por um instante. Ele a conduziu de volta pelos corredores labirínticos do palácio, com a mão em sua cintura, firme como um grilhão de ferro aquecido, sua presença irradiando uma autoridade que nenhum nobre ali ousaria desafiar.
Ao chegarem ao corredor de seus aposentos reais, Lyra esperava ser deixada na porta de seu quarto luxuoso, mas Kaelen não parou. Ele continuou caminhando em direção às suas próprias dependências, a porta de carvalho pesada abrindo-se diante de sua vontade.
— O que você está fazendo? — Lyra perguntou, sua voz soando estranhamente pequena no corredor vazio. — Aria já preparou o meu quarto.
Kaelen não se virou. Ele apenas a conduziu para dentro, o ambiente agora um contraste entre a destruição da noite anterior e a rápida reorganização que a criadagem fizera durante o dia. Os destroços haviam sido limpos, as tapeçarias queimadas removidas, e o quarto agora parecia, de certa forma, ainda mais intimidador em sua austeridade.
— O seu quarto não é seguro — a voz de Kaelen era cortante, sem espaço para discussão. Ele soltou a cintura dela e caminhou até a mesa de pedra, onde uma jarra de vinho estava colocada. — O atentado de hoje provou que os lordes do sul não se importam com o tratado ou com a minha autoridade. Eles querem atingir o que eu valorizo, e você, infelizmente, tornou-se o alvo principal.
— Eu posso me cuidar, Kaelen — Lyra rebateu, cruzando os braços e tentando manter a postura defensiva. — Tenho meus tónicos, conheço ervas que podem imobilizar um dragão se ele chegar perto demais.
Kaelen deu uma risada seca, virando-se para encará-la. Ele havia removido a túnica oficial do banquete; agora, usava apenas uma camisa de linho fino, cujas mangas estavam dobradas até os cotovelos, revelando a pele bronzeada e as cicatrizes antigas de batalha.
— Suas ervas não podem parar uma adaga infundida com veneno de sombra, nem impedir um assassino de entrar pelas janelas dos seus aposentos enquanto você dorme. A partir de hoje, você dorme aqui. Sob minha supervisão. Sob a minha proteção.
Ele gesticulou com a mão para um dos cantos do quarto, onde, para surpresa de Lyra, uma pequena estrutura de madeira havia sido instalada com pressa. Era uma cama estreita, mas confortável, coberta com lençóis de linho branco e peles de animais selvagens. Não era luxuosa como a cama do Rei, mas parecia ser a coisa mais segura naquele palácio.
— É uma ordem — ele acrescentou, o tom deixando claro que ele não aceitaria um "não" como resposta.
Lyra olhou para a cama, depois para Kaelen. A tensão sexual no quarto era quase palpável, uma camada invisível de eletricidade que parecia vibrar entre os dois. Desde a noite em que ela o curara, algo havia mudado. Não era apenas a Marca da Alma que os unia; havia uma atração física, um desejo bruto que ambos tentavam ignorar, mas que tornava cada segundo de proximidade um teste de autocontrole.
A noite caiu lá fora, e o brilho escarlate dos vulcões começou a pintar o quarto em tons de vermelho sangue. Lyra aproximou-se da cama, o coração acelerado. Ela sentia o olhar de Kaelen sobre ela, um peso constante e avassalador.
Ela começou a desabotoar o vestido, suas mãos tremendo levemente. Sabia que ele a observava, sabia que o olhar dele não era apenas de proteção, mas de um desejo que ele lutava para reprimir.
— Você não precisa me olhar assim — Lyra disse, sem se virar, sentindo o calor do corpo dele mesmo a vários metros de distância.
— Eu não consigo evitar — a resposta dele foi honesta, bruta, carregada de uma sinceridade que a pegou de surpresa. Kaelen estava encostado na parede, os braços cruzados sobre o peito. — O seu cheiro, a sua presença... desde que você tocou em mim, o silêncio em minha mente é preenchido pelo som da sua respiração. É uma tortura que eu não conhecia.
Lyra terminou de desabotoar o vestido, deixando-o escorregar até o chão. Ela vestia uma camisola simples de algodão que usava como peça de baixo, uma silhueta esguia e pálida contra o brilho avermelhado que entrava pela janela. Ela se virou para encará-lo, e o choque foi imediato. Kaelen havia abandonado a máscara de Rei indiferente. Ele estava com a camisa aberta, e as runas de fogo em seu peito pulsavam em sincronia com o ritmo da respiração dela.
Ela caminhou até a pequena cama e se sentou, mas não se deitou. Kaelen, por sua vez, foi até a sua cama imensa no centro do quarto, tirou as botas e deitou-se de costas, com as mãos atrás da cabeça, observando-a.
— Por que você insiste em ser tão teimosa? — Kaelen perguntou, a voz rouca na escuridão.
— Por que você insiste em ser tão possessivo? — ela rebateu, sentindo a cor subir ao rosto.
— Porque eu sou um dragão — ele disse, a voz subindo uma oitava, tornando-se quase um rosnado. — E nós não dividimos o que consideramos nossa essência. Você é a minha cura, Lyra. Se algo acontecesse com você, o fogo dentro de mim destruiria este palácio, esta montanha e tudo o que restou de mim.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo crepitar distante da lava. Lyra deitou-se, puxando as peles até o pescoço. Ela podia sentir o olhar dele — aquele olhar de fogo que a despia, que a protegia, que a reivindicava. A tensão era um convite para algo muito mais profundo do que uma simples noite de sono. Enquanto o Pico Draconiano tremia lá fora, dentro daquele quarto, a verdadeira batalha estava apenas começando. Eles estavam separados por apenas alguns metros, mas a distância entre eles era um abismo de desejo e necessidade que ameaçava explodir a qualquer momento.