O monstro estava prestes a vencer o homem. Kaelen deu mais um passo trôpego, as garras arranhando o mármore negro com um som estridente que fez os dentes de Lyra irem de encontro uns aos outros. O calor que emanava dele era quase uma barreira física; o ar oscilava tanto que a figura do Rei parecia distorcida, uma aparição feita de pura brasa e destruição. A cada respiração forçada dele, o brilho dourado das veias em seu pescoço ficava mais intenso, subindo pelas bochechas aristocráticas e ameaçando engolir completamente a pouca humanidade que ainda restava em suas feições.
— Saia... daqui... — Kaelen sibilou por entre os dentes afiados. Cada palavra parecia arrancar um pedaço de sua garganta, vindo acompanhada de pequenas fagulhas de fogo escuro. Suas pupilas verticais, dilatadas ao limite, focaram em Lyra por um breve segundo antes de vacilarem. — Agora!
Lyra, no entanto, não recuou. Como curandeira na fronteira de Solaria, ela já havia visto homens fortes se transformarem em feras por causa da dor de ferimentos gangrenados ou da febre dos pântanos. Ela conhecia aquele olhar de desespero mascarado de fúria. Kaelen não queria machucá-la; ele estava implorando, da única forma que um tirano sabia, para que ela se salvasse do monstro que ele não conseguia mais conter.
E isso mudava tudo.
Dando um passo à frente, os pés descalços de Lyra cruzaram o limite dos destroços de bronze da entrada. A temperatura sufocante fez o suor escorrer por seu pescoço, colando os fios de cabelo platinado à sua testa. Ela ignorou o instinto primitivo em sua mente que gritava para correr na direção oposta.
— Eu passei a vida inteira tratando de feridos que achavam que podiam lutar contra a própria dor sozinhos, Kaelen — Lyra disse, sua voz soando incrivelmente firme e serena em meio ao caos daquele quarto destruído. Ela continuou avançando lentamente, mantendo as mãos abertas e visíveis, as palmas viradas para cima. — Você me trouxe até aqui como um sacrifício, mas esqueceu que eu sou uma curandeira. Eu não tenho medo de feridas. Nem mesmo das suas.
Kaelen soltou um rosnado agudo, um som puramente animal que ecoou pelas paredes rachadas. Ele ergueu uma das mãos, as garras negras prontas para desferir um golpe cego no ar, mas seu corpo fraquejou sob o impacto de um novo espasmo. Ele caiu de joelhos outra vez, a cabeça caindo para a frente, os cabelos negros ensopados de suor colados ao rosto.
Lyra aproveitou a oportunidade. Em um movimento rápido e desprovido de qualquer hesitação, ela encurtou a distância restante e ajoelhou-se na lama de cinzas bem diante dele.
Antes que Kaelen pudesse erguer os olhos ou desferir qualquer ataque defensivo, Lyra estendeu as mãos e tocou-o.
Suas palmas pálidas e frias pousaram diretamente nas bochechas bronzeadas de Kaelen, envolvendo o maxilar rígido do Rei.
O impacto foi imediato e violento. No instante em que a pele de porcelana de Lyra entrou em contato com a carne incandescente dele, um som de estalo, como água fria sendo jogada sobre ferro em brasa, ecoou pelo quarto. Kaelen travou instantaneamente. Seus olhos de ouro arregalaram-se, as pupilas verticais tremendo em choque puro.
Lyra esperava a dor. Esperava que suas mãos fossem reduzidas a carne queimada pelo calor absurdo da maldição. Mas a dor não veio.
Em vez disso, no momento em que ela o tocou, a Marca da Alma no peito de Lyra — escondida sob o espartilho de seu vestido — explodiu em um brilho dourado e escarlate que atravessou o tecido. Uma onda de energia fria, revigorante e intensamente magnética fluiu de seu coração, subiu por seus braços e derramou-se diretamente nas veias de Kaelen através de suas mãos.
O efeito sobre o Rei dos Dragões Negros foi milagroso.
O rosnado de Kaelen morreu na garganta, transformando-se em um suspiro profundo e trêmulo. Quase instantaneamente, as linhas douradas e incandescentes que saltavam sob sua pele começaram a perder a intensidade, recuando como lava que encontra o oceano. O brilho vermelho e assassino em seus olhos foi substituído pelo ouro puro e límpido de sua forma humana. Suas garras negras encolheram, voltando a ser dedos longos de homem, e as asas monumentais que batiam contra as paredes relaxaram, caindo pesadamente sobre os destroços do chão.
Kaelen piscou, a respiração ainda arquejada, mas agora livre do tormento da agonia. A queimação destrutiva que assolava seu sangue há séculos, aquela tortura constante que o empurrava para a loucura a cada início de ciclo, havia simplesmente desaparecido. O silêncio que se instalou em sua mente era algo que ele nunca havia experimentado em toda a sua existência. Havia apenas paz. Uma paz gélida, suave e absoluta que vinha inteiramente daquela garota humana que o segurava.
Ele olhou para ela, o rosto a centímetros do dela. Pela primeira vez, não havia desdém, arrogância ou possessividade cruel em seus olhos. Havia apenas uma vulnerabilidade chocante. Ele parecia um homem que acabara de ser resgatado de um naufrágio em um mar de fogo.
— O que... o que você fez comigo? — ele sussurrou, a voz rouca, sem qualquer força restante.
Lyra não teve tempo de responder. O esforço de canalizar aquela energia desconhecida através de sua própria marca havia exaurido suas forças. Suas pálpebras ficaram pesadas, e o quarto destruído começou a girar.
Kaelen percebeu a fraqueza dela antes mesmo que ela caísse. O cansaço extremo da crise combinado com o alívio súbito e avassalador também atingiu o Rei como um martelo. Seus músculos relaxaram por completo, e o peso de seu corpo cedeu para a frente.
Antes que ambos caíssem contra o mármore coberto de cinzas, Kaelen moveu os braços com um reflexo puramente instintivo. Ele envolveu a cintura de Lyra, puxando o corpo esguio e pálido dela contra o seu peito agora calmo e morno. Com o resto de força que lhe sobrava, ele rolou para o lado, caindo sobre a imensa cama real que milagrosamente havia escapado do pior da destruição.
Ele a puxou para si, os braços prendendo-a de encontro ao seu corpo de forma possessiva, mesmo no limiar da inconsciência. A cabeça de Lyra descansou no peito dele, bem acima do local onde a runa da Marca da Alma agora pulsava em um ritmo calmo, idêntico ao batimento cardíaco dela.
Kaelen enterrou o rosto nos cabelos loiro-platinados de Lyra, respirando o cheiro de menta que agora parecia ser sua única âncora no mundo. Ele fechou os olhos de ouro, caindo em um sono profundo e sem pesadelos pela primeira vez em trezentos anos, sem a menor intenção de soltá-la, mesmo quando o amanhecer trouxesse as consequências daquela noite de fúria.