A noite no Pico Draconiano não trazia o descanso que Lyra conhecia em Solaria. Ali, a escuridão parecia apenas tornar o brilho da lava mais vivo, mais violento. O quarto estava imerso em um silêncio pesado, mas a mente de Lyra trabalhava a mil por hora. A silhueta misteriosa que a observara da sacada havia desaparecido nas sombras assim que ela piscara, deixando para trás apenas uma sensação gélida de perigo iminente. No entanto, antes que pudesse processar aquela ameaça silenciosa, outro som cortou a quietude da fortaleza de cinzas.
Não foi um grito. Foi um estrondo de pedra sendo esmigalhada, vindo de algum lugar profundo nos corredores da ala real.
Lyra, que já havia se deitado na tentativa frustrada de dormir, sentou-se na cama de dossel em um sobressalto. O impacto fizera os frascos de vidro que ela trouxera em sua bolsa tilintarem sobre a mesa de cabeceira. Logo em seguida, veio o som de garras arranhando o mármore, acompanhado por um rosnado baixo, úmido e terrivelmente doloroso. Era o som de um predador sendo dilacerado por dentro.
Ignorando o bom senso que dizia para ela continuar trancada e protegida, Lyra saltou da cama. Seus pés descalços tocaram o tapete carmesim e, sem pensar duas vezes, ela empurrou a pesada porta de carvalho. O corredor estava quase completamente às escuras, iluminado apenas pelas tochas que bruxuleavam nas paredes de pedra vulcânica, projetando sombras longas e distorcidas.
— Aria? — Lyra chamou em um sussurro, mas a criada não estava em lugar nenhum. Os guardas que costumavam patrulhar aquela ala também haviam sumido, como se tivessem abandonado os postos por puro medo do que estava prestes a acontecer.
Mais um estalo violento ecoou, seguido pelo som de algo pesado sendo arremessado contra a parede. O ar no corredor começou a mudar rapidamente. O oxigênio parecia estar sendo sugado, substituído por uma onda de calor seco e sufocante que fez a pele de Lyra arder instantaneamente. Ela seguiu o rastro da fumaça cinzenta que começava a serpentear pelo chão de mármore negro.
Cada passo em direção à origem dos barulhos parecia uma descida direta para o inferno. As paredes de pedra ao redor exibiam rachaduras recentes, algumas delas emanando um brilho alaranjado fraco, como se o calor interno do palácio estivesse prestes a romper a estrutura. O cheiro de enxofre combinado com menta e fumaça tornou-se quase insuportável. Era o cheiro de Kaelen.
Lyra parou diante de uma imensa arcada destruída. As portas de bronze que deveriam proteger os aposentos particulares do Rei haviam sido arrancadas dos eixos e jaziam retorcidas no chão, parcialmente derretidas.
Ela engoliu em seco, prendendo a respiração, e cruzou o limite da entrada.
O quarto do Rei estava completamente devastado. Móveis de madeira nobre haviam sido reduzidos a lascas e cinzas. Uma mesa maciça de pedra estava partida ao meio, e as tapeçarias nas paredes queimavam em chamas azuis e silenciosas. No centro daquela destruição, de joelhos sobre os destroços, estava Kaelen.
Mas aquele quase não parecia o homem que a defendera no Grande Salão.
Kaelen estava sem camisa, e suas costas largas estavam curvadas sob o peso de uma agonia visível. A maldição do sangue dracônico havia assumido o controle total de seu corpo. As veias sob sua pele oliva não eram mais azuis ou discretas; elas pulsavam em um dourado incandescente e vivo, como se rios de lava estivessem correndo diretamente sob sua carne. Linhas geométricas e runas antigas subiam por seu pescoço e se espalhavam por seus braços, brilhando com uma fúria destrutiva.
Suas mãos, apoiadas no chão rachado, alternavam-se entre dedos humanos e garras negras e afiadas que cavavam o mármore com facilidade. Ele respirava de forma arquejada, e a cada exalação, labaredas de fogo escuro lambiam seus lábios. Suas asas negras haviam irrompido de suas costas de forma descontrolada, debatendo-se contra as paredes e quebrando pedaços de rocha a cada espasmo de dor.
— Kaelen... — o nome escapou dos lábios de Lyra antes que ela pudesse conter.
Ao ouvir a voz dela, o Rei dos Dragões travou. O movimento de sua cabeça foi puramente instintivo, rápido e perigoso como o de uma serpente prestes a dar o bote.
Quando ele olhou para ela, Lyra deu um passo atrás por puro reflexo. Os olhos dele haviam perdido qualquer vestígio de humanidade. As esferas douradas pareciam piscar em um tom de escarlate e fogo, e as pupilas verticais estavam tão dilatadas que quase engoliam a íris. Ele estava em um transe absoluto de fúria e sofrimento, a mente completamente obliterada pela queimação que consumia sua sanidade de dentro para fora. Ele não a via como Lyra; ele a via apenas como uma presença em seu território de dor.
Kaelen soltou um rugido ensurdecedor que fez o teto do quarto vibrar, levantando uma lufada de vento escaldante que jogou os cabelos platinados de Lyra para trás. Ele impulsionou o corpo para a frente, erguendo-se sobre os pés, as garras estendidas e os dentes afiados à mostra, pronto para despedaçar qualquer coisa que estivesse em seu caminho. Ele deu um passo em direção a ela, mas cambaleou, levando as mãos à cabeça com um gemido excruciante que quebrou o coração de Lyra. O Rei do Pico Draconiano estava prestes a perder a última gota de sua consciência para o monstro.