Após a declaração brutal de Kaelen, o silêncio que se abateu sobre o Grande Salão foi quase sufocante. Ninguém ousou desafiar a ordem do Rei dos Dragões Negros. Lyra foi escoltada para longe dos canais de lava e dos olhares venenosos da corte por uma jovem criada chamada Aria. Diferente dos nobres arrogantes, Aria era uma criatura de passos silenciosos e cabeça baixa, vestida com trajes simples de linho escuro. Ela não dizia uma única palavra, mas suas mãos tremiam levemente toda vez que seus olhos batiam em Lyra.
Elas caminharam por corredores intermináveis, esculpidos em uma rocha vulcânica tão polida que refletia a luz das tochas como se fossem espelhos negros. O palácio era monumental, mas terrivelmente vazio. Não havia música, não havia risadas, não havia o calor humano que Lyra conhecia nas tabernas e vilas de Solaria. Era uma fortaleza de silêncio e solidão, onde o único som era o eco de suas próprias botas e o estalar distante do fogo subterrâneo.
Finalmente, Aria parou diante de uma imensa porta de carvalho escuro, cravejada com detalhes em bronze. Ao empurrá-la, Lyra segurou o fôlego.
Os aposentos que lhe foram designados eram de um luxo que ela jamais imaginara encontrar no covil de um dragão. O chão era coberto por tapetes grossos em tons de carmesim profundo, e uma cama monumental de dossel ocupava o centro do quarto, com lençóis de seda que pareciam macios como nuvens. Havia móveis de madeira nobre, entalhados à mão, e bacias de prata cheias de água limpa e perfumada com essências que Lyra não conseguiu identificar de imediato.
No entanto, o que realmente dominava o quarto era a imensa parede de vidro nos fundos, que dava para uma sacada de pedra.
— Seus aposentos, senhorita — Aria finalmente falou, sua voz mal passando de um sussurro trêmulo. Ela mantinha os olhos fixos no chão, recusando-se a encarar Lyra diretamente. — O Rei ordenou que nada lhe faltasse. Se precisar de algo, estarei do lado de fora.
— Aria, espere — Lyra deu um passo à frente, fazendo a criada dar um leve sobressalto. Lyra suavizou o tom de voz, adotando a mesma postura calma que usava com seus pacientes mais assustados em Solaria. — Não precisa ter medo de mim. Eu sou apenas uma humana. Não tenho garras, nem cuspo fogo. Pode me dizer por que este lugar é tão... silencioso? Onde estão as outras pessoas?
Aria arriscou levantar o olhar por um milésimo de segundo, encontrando os olhos azul-safira de Lyra. Houve uma ponta de pena na expressão da criada antes de ela voltar a encarar os próprios pés.
— Os dragões não buscam companhia, senhorita Lyra. Eles buscam o poder. E o Rei... o Rei vive na solidão mais profunda desde a Grande Purga. As chamas que correm nas veias dos dragões limpam tudo, mas também consomem qualquer traço de paz. O silêncio é a única coisa que impede este pico de explodir.
Sem dar espaço para mais perguntas, Aria fez uma reverência rápida e retirou-se, fechando a porta pesada atrás de si. O clique da tranca ecoou como uma sentença. Lyra estava trancada, isolada no topo do mundo.
Sozinha, Lyra caminhou lentamente em direção à imensa parede de vidro. Ao abrir as portas que davam para a sacada, o ar quente e puramente carnal do Pico Draconiano a atingiu. Ela apoiou as mãos no parapeito de pedra e olhou para o horizonte.
A vista era assustadora e hipnótica. Diante dela, estendia-se a cadeia de vulcões ativos da Terra do Fogo. Rios de lava brilhante cortavam as montanhas escuras lá embaixo como veias de ouro líquido pulsando na escuridão da noite que caía. Nuvens de fumaça e cinzas subiam aos céus, ocasionalmente rasgadas pelo brilho de trovões térmicos. Era uma beleza destrutiva, violenta, que combinava perfeitamente com o homem que a havia trazido até ali.
Lyra soltou um longo suspiro, sentindo o espartilho apertado sufocá-la um pouco por causa do calor. Ela levou a mão ao peito, tocando o local onde a Marca da Alma havia reagido a Kaelen. A pele ainda parecia morna, um formigamento constante que ela nunca havia sentido antes na vida.
"Você me pertence"
, as palavras dele ainda ecoavam em sua mente com a força de um trovão. Ela sabia que deveria estar em pânico, planejando uma fuga impossível pelas montanhas de lava, mas, em vez disso, sentia uma estranha e inexplicável calmaria. As chamas de Kaelen eram perigosas, sim, mas havia algo na dor oculta daqueles olhos de ouro que a intrigava profundamente. Como curandeira, ela reconhecia o olhar de alguém que estava sendo consumido por uma doença interna. E Kaelen estava queimando por dentro.
A noite caiu completamente, cobrindo o quarto com as sombras projetadas pelo brilho avermelhado dos vulcões. Lyra decidiu se afastar da sacada e aproximou-se da bacia de prata para lavar o rosto e tirar a poeira da viagem. A água fria contra sua pele pálida trouxe um alívio momentâneo.
No entanto, um arrepio súbito subiu por sua espinha. Não era o calor do ambiente; era aquela sensação primitiva de estar sendo caçada, o mesmo instinto que a fizera congelar quando a carruagem parou na fronteira.
Lyra congelou, com as mãos ainda úmidas segurando a borda da bacia. Lentamente, ela virou a cabeça em direção à imensa janela de vidro que dava para a sacada.
Do lado de fora, recortada contra o brilho escarlate da lava dos vulcões distantes, havia uma silhueta.
Não era Kaelen. A figura era esguia, envolta em um manto escuro que parecia se misturar com as sombras da noite. Dois pontos de luz, opacos e desprovidos de qualquer calor, observavam Lyra fixamente através do vidro. A presença exalava uma hostilidade silenciosa, um sussurro de morte que contrastava com a opulência do quarto luxuoso.
Lyra deu um passo atrás, seu coração voltando a martelar contra as costelas. Ela estava sob a proteção do Rei, mas, naquela fortaleza de cinzas, a escuridão tinha seus próprios olhos, e alguém já estava esperando que o fogo de Kaelen falhasse para poder transformá-la em fumaça.