O silêncio que se instalou na clareira era quase doloroso, quebrado apenas pelo estalar da madeira que ainda queimava. Kaelen deu mais um passo, e a fumaça ao redor dele pareceu se dissipar, repelida pelo calor absurdo que emanava de seu corpo. Suas pupilas verticais, escuras e afiadas como fendas, estavam cravadas em Lyra de uma forma que a impedia até mesmo de respirar.
Por baixo da camisa preta de Kaelen, as linhas douradas que desenhavam a Marca da Alma pulsavam com uma violência assustadora. Pela primeira vez em mais de trezentos anos, a queimação constante e torturante em seu sangue draconiano havia mudado de ritmo. Não era mais a dor destrutiva da maldição que o empurrava para a loucura; era um chamado. Um magnetismo violento e incontrolável que puxava cada fibra de seu ser em direção àquela humana pálida de cabelos de lua.
Kaelen parou na entrada da carruagem destruída. A centímetros dela.
O guarda de Solaria soltou um ganido sufocado e tentou se arrastar para trás, mas Kaelen sequer olhou para ele. Com um gesto rápido e negligente, o Rei dos Dragões apenas moveu a mão esquerda, e uma lufada de ar quente jogou o soldado para fora do veículo, fazendo-o rolar pela lama até sumir entre as árvores.
Sobrou apenas ela.
Lyra engoliu em seco, recusando-se a desviar o olhar. A proximidade dele era avassaladora. O cheiro de Kaelen — uma mistura inebriante de fumaça, terra e algo puramente masculino — invadiu seus sentidos. Ela conseguia sentir o calor que vinha dele, uma onda térmica que ameaçava queimar sua pele mesmo sem o toque direto.
— O que você é? — a voz de Kaelen ecoou. Não era um rugido, mas um sussurro grave, rouco e perigosamente baixo, que vibrou diretamente nos ossos de Lyra.
— Eu sou o seu tributo — Lyra respondeu, sua voz saindo mais firme do que ela esperava, embora seu coração estivesse batendo como as asas de um pássaro enjaulado. — Sou Lyra de Solaria.
Kaelen soltou um som gutural, uma risada sem humor que pareceu mais um rosnado. Ele inclinou a cabeça, os olhos de ouro focados na clavícula dela, onde a pele pálida começava a reagir ao brilho da marca dele. Uma ardência confortável, como um abraço de sol, começou a se espalhar pelo peito de Lyra.
— Humanos não me olham nos olhos — Kaelen sibilou, aproximando o rosto. Ele podia ver o reflexo das próprias chamas nas pupilas azul-safira dela. — Humanos choram. Humanos imploram. Você cheira a menta e a sangue calmo. Por que meu sangue está clamando por você?
Antes que Lyra pudesse processar a pergunta, Kaelen se moveu rápido demais para os olhos humanos acompanharem.
Suas asas negras e gigantescas romperam novamente de suas costas com um estrondo, rasgando o ar e bloqueando completamente a visão do céu de Solaria. Sem dar tempo para qualquer reação, ele avançou e envolveu a cintura de Lyra com um dos braços.
O impacto fez Lyra soltar um arquejo. A mão dele, mesmo através do tecido grosso de sua capa cinzenta, parecia ferro em brasa. No segundo seguinte, o chão sumiu sob os pés dela.
Kaelen pegou impulso e saltou em direção aos céus, batendo as asas com uma força monumental que estraçalhou o que restava da carruagem de madeira abaixo deles.
O vento frio da altitude chocou-se contra o rosto de Lyra, mas o ar ao redor do corpo de Kaelen criava uma bolha de calor protetora. A velocidade do voo era assustadora. Solaria começou a se transformar em apenas um borrão cinzento e distante de lama e telhados abaixo deles, enquanto eles subiam em direção às nuvens negras e carregadas que cercavam o Pico Draconiano.
O pânico finalmente ameaçou dominar Lyra. Ela tentou se afastar, os pés balançando no vazio, as mãos empurrando o peito rígido de Kaelen. Suas unhas arranharam o tecido da camisa dele, sentindo a musculatura tensa e o calor absurdo que quase machucava seus dedos.
— Me solta! — ela gritou contra o barulho do vento.
Em resposta, o braço de Kaelen se apertou ainda mais ao redor dela, prendendo-a contra o seu peito com uma força possessiva e esmagadora. Ele inclinou a cabeça em direção ao ouvido dela, as pontas de seus dentes — afiados como presas — roçando de leve na pele sensível de seu pescoço.
— Nunca — Kaelen rosnou, as pupilas verticais brilhando com uma fúria territorial que fez o corpo de Lyra tremer por inteiro. — Você não vai a lugar nenhum, humana. O destino cometeu um erro, mas agora o seu sangue está ligado ao meu. Você me pertence.