Felipe franziu a testa ao ouvir isso.
Mas logo se recuperou, como se não tivesse ouvido, e pegou seu sobretudo para colocar sobre meu lençol: — A temperatura está baixa, me chame se sentir frio.
Mais uma vez, aquela atitude de fuga.
Olhei para o perfil do homem bem perto de mim e minha voz saiu embargada: — Prometi à minha mãe que não queria chegar lá sem ter como encará-la.
Isso pareceu tocar a ferida de Felipe, fazendo seu olhar tremer.
O filho e a mãe haviam se tornado um abismo intransponível entre eles.
Mas ele não conseguia desistir de Lívia.
Felipe virou-se e encarou o olhar surpreso dela: — Fui eu quem propôs o casamento, e eu decido quando ele termina.
Após uma pausa, acrescentou: — O que foi? Como não estou mais gerenciando a empresa, acha que sou um fracassado?
Diante disso, fiquei sem palavras.
Eu estava morrendo, por que ela diria que o desprezava?
— Se está com sono, durma logo e pare de falar coisas sem sentido.
Dito isso, Felipe guardou a marmita, apagou as luzes e saiu do quarto.
A luz do lado de fora entrava pela janela, refletindo meu rosto em transe.
Não esperava que Felipe dissesse aquelas coisas; meu coração, antes decidido, começou a vacilar como se tivesse sido alavancado.
Involuntariamente, as palavras de Sílvia ressoaram em meus ouvidos: "Não sei que desavenças vocês têm, mas vejo que seu marido é sincero com você..."
Meu coração estava bagunçado. Fechei os olhos, lutando para afastar pensamentos que não deveria ter.
No final do corredor.
Felipe contemplava as luzes dos arranha-céus distantes, com os pensamentos longe.
De repente, o celular tocou.
Era Daniel.
Felipe atendeu: — O que foi?
— Presidente, descobri informações sobre aquele homem.
A voz de Daniel era urgente: — Ele não é apenas um vendedor de seguros; é gerente de um grande cassino em Las Vegas.
Felipe franziu a testa.
Mirella também tinha ido para Las Vegas; qual era a relação entre eles?
Antes que ele perguntasse, Daniel explicou: — Eles registraram casamento nos Estados Unidos há dois anos, mas Mirella ficou devendo 20 milhões ao cassino há seis meses e eles se divorciaram.
Capítulo 30
Ao ouvir as palavras de Daniel, o rosto de Felipe mudou.
Mirella voltara ao país inesperadamente e se oferecera para ser diretora de relações públicas; embora seu pai não permitisse que ela entrasse na empresa, na época, muitos artistas da empresa haviam sido envolvidos em escândalos, e Mirella tinha a competência necessária, por isso ele a manteve.
Lembrando-se dos fundos desviados dos projetos, o olhar de Felipe ficou gélido.
Parecia que Mirella o abordara com segundas intenções desde o início.
Para quitar a dívida de 20 milhões com o cassino, ela não hesitou em arriscar tudo.
— Onde eles estão agora?
Daniel ficou em silêncio por um momento, ouvindo-se o som de folhas sendo folheadas: — Depois que Mirella foi solta, ela procurou quatro executivos, mas foi rejeitada. Há uma semana, as esposas desses executivos foram atrás dela e causaram um escândalo. Agora ela deve estar em Haicheng ainda. Há poucas informações sobre o homem, apenas descobri que ele foi visto no sul da cidade há duas semanas.
Felipe acariciou as pontas dos dedos.
Sua intuição dizia que aquele homem não era nada simples.
Olhando para o quarto de Lívia, ele ordenou em voz baixa: — Não importa o quão poucas sejam as informações, coloque alguém para vigiá-lo.
— Sim, senhor.
Desligando o telefone, Felipe massageou as têmporas, seus pensamentos confusos.
Deixando o resto de lado, o mais importante agora era cuidar bem de Lívia...
A noite se aprofundava.
Um vento frio soprava pela janela para dentro do quarto, e eu não conseguia dormir.
Olhei para a cadeira onde só havia um casaco, e meu olhar escureceu.
Felipe havia saído.
Sem saber se sentia alívio ou perda, peguei o celular ao lado do travesseiro.
Já eram quase meia-noite.
Abri o álbum de fotos; a foto com minha mãe parecia ter sido tirada ontem.
— Mãe, você me culparia?
Culpar-me por ainda não ter me divorciado de Felipe e por ter amolecido o coração por causa de algumas palavras dele...
Depois de muito tempo, o sono veio. Suspirei, apaguei a tela do celular e o coloquei no lugar.
No entanto, quando estava prestes a adormecer, percebi que não conseguia fechar os olhos.
Fiquei paralisada, lutando contra o pânico que subia pelo peito, tentando controlar as pálpebras.
Forcei com toda a minha vontade, mas as pálpebras pareciam coladas, impossíveis de fechar.
Meus olhos arregalados tremeram enquanto eu olhava para a campainha de emergência.
Não sabia quando, mas minhas mãos rígidas haviam se tornado pesadas; o movimento de levantá-las exauriu toda a minha força.
Suor frio escorria pelo meu rosto pálido; meus olhos, impossibilitados de fechar, ficavam secos e vermelhos.
No momento em que estava prestes a tocar a campainha, meu corpo inclinado rolou pesadamente para fora da cama.
O frio do chão penetrou minha pele, atingindo meu coração, que parecia desmoronar.
Tudo o que eu precisava estava ao alcance, mas eu estava ali, como uma boneca deitada no chão, incapaz de fazer qualquer coisa.
Lágrimas jorraram de meus olhos vermelhos; o desespero devorava minhas últimas esperanças.
— Lívia!
Em transe, a voz de minha mãe fez minha respiração parar.
No segundo seguinte, meu corpo gelado foi envolvido por um abraço caloroso.
Ao levantar o olhar, vi o rosto terno de minha mãe, cheio de angústia e dor.
Nesse momento, desmoronei. Agarrei as mangas de minha mãe e, com dificuldade, emiti sons pequenos e intermitentes: — Ajude-me... mamãe, não sobrou nada... o que eu podia fazer sozinha... acabou...
Eu pensei que tivesse coragem suficiente para enfrentar a morte.
Mas foi só então que percebi que não temia a morte, mas sim aquele processo longo e desesperador.
Chorei até perder a voz. O coração de Felipe se partiu.
Ele cerrou os dentes e disse suavemente, com a voz trêmula: — Não tem problema, eu estou aqui, estarei sempre com você...
Assim que terminou a frase, a cabeça da pessoa em seus braços caiu subitamente, e a mão que segurava sua manga desabou no chão.
Capítulo 31
Fora da sala de cirurgia.
Felipe estava encostado na parede, olhando de forma entorpecida para a luz ofuscante da sala de operações.
— Ajude-me... mamãe, não sobrou nada... o que eu podia fazer sozinha... acabou...
Minhas palavras, carregadas de desolação, ecoavam mais uma vez em seus ouvidos.
As lágrimas, acompanhadas de uma sensação de inchaço e dor, subiram aos seus olhos. Ele abaixou a cabeça, passando a mão pelos cabelos pretos, e respirou fundo para aplacar o aperto sufocante em seu peito.
Duas horas depois, a luz da cirurgia finalmente se apagou.
Assim que a porta se abriu, Felipe deu um passo à frente: — Como ela está?
O doutor Zhang, da neurologia, tinha um semblante grave: — O estado dela entrou na fase de deterioração. Daqui para frente, ela apresentará dificuldades na fala, ritmo lento ao falar e, possivelmente, fraqueza nos membros...
Vendo Felipe com um olhar de quem fora atingido por um raio, o médico não teve coragem de continuar, apenas alertou: — Os familiares devem prestar atenção ao estado emocional dela. Muitos pacientes com esclerose lateral amiotrófica acabam desenvolvendo depressão devido à carga psicológica excessiva durante o tratamento.
Ouvindo o doutor Zhang, a mão cerrada de Felipe foi se abrindo lentamente.
Quando Lívia foi empurrada para fora da sala, ele respondeu com a voz embargada: — Eu entendo.
Três da manhã, as luzes da cidade brilhavam como pontos dispersos.
No quarto silencioso, o som do gotejar do soro parecia amplificado.
Felipe estava sentado ao lado da cama, fixando Lívia, que, mesmo em sono profundo, mantinha as sobrancelhas franzidas.
— Lívian...
A última vez que a chamou assim foi antes de se casarem.
Ele estendeu a mão e acariciou a franja fina e macia da testa dela: — Como marido, não fui nada qualificado. Cometi tantos erros estúpidos que te fizeram sofrer.
Após uma pausa, a voz de Felipe tornou-se rouca: — Então, como você pôde me expulsar? Você deveria ter me xingado, me batido, me feito ficar aqui para te servir chá e água...
À medida que falava, ele já não conseguia mais emitir som, restando apenas soluços sufocados.
Lentamente, amanheceu.
Mas Lívia ainda não havia acordado.
Felipe estava prestes a buscar água quente para limpar o rosto dela, mas, ao sair do quarto, deu de cara com dois policiais uniformizados.
O policial à frente mostrou sua identificação e disse, sem expressão: — Olá, somos investigadores da Delegacia de Segurança Pública de Haicheng. O senhor é Felipe, presidente da empresa de entretenimento?
Investigadores!?
Ao ouvir isso, os pacientes e enfermeiras no corredor lançaram olhares de surpresa e curiosidade.
Felipe franziu o cenho levemente e manteve a calma: — Sou eu.
— O senhor deve conhecer Mirella, ela foi diretora de relações públicas da sua empresa.
Ao ouvir o nome de Mirella, o olhar de Felipe escureceu: — Sim.
— Ela é suspeita em um caso de fraude transnacional e contrabando. De acordo com as investigações, o senhor é a pessoa com quem ela teve contato direto nos últimos meses, por isso, pedimos que nos acompanhe para prestar esclarecimentos.