Enquanto eu estava distraída, o doutor Carlos entrou com a enfermeira, Sílvia, para me examinar.
Tentei descer da cama, mas minhas pernas simplesmente não se moviam.
— Doutor Carlos, ainda não posso sair da cama? Meus outros ferimentos já sararam quase completamente...
Ao ouvir isso, a mão do doutor, que segurava uma caneta, travou. Ele trocou um olhar com Sílvia e pigarreou de forma não natural: — Seus ossos da perna foram danificados, de fato você não pode caminhar por um curto período. Não se preocupe demais; desde que coopere com o tratamento, você ficará bem logo.
Ao ouvi-lo dizer isso, a inquietação em meu peito diminuiu um pouco.
Vendo meu semblante aliviado, o doutor e a enfermeira sentiram uma pontada de remorso.
Por causa das recomendações estritas de Felipe e Samuel, eles não podiam contar a Lívia a verdade sobre sua real condição, com medo de que ela sofresse um novo golpe...
Com a ajuda de Sílvia, fui colocada em uma cadeira de rodas e levada para os exames.
Um sol morno e raro iluminava as ruas tranquilas.
Um Lincoln parou lentamente em frente à mansão. Daniel desceu do carro e abriu a porta traseira, revelando o pai de Felipe, com o semblante carrancudo.
— Presidente, o senhor Felipe ele...
Antes que Daniel terminasse de falar, o pai de Felipe levantou a mão, interrompendo-o.
Ao saber que Felipe não apenas não ia ao hospital acompanhar Lívia nos últimos dias, mas também havia abandonado suas responsabilidades na empresa, ele estava fervendo de raiva.
Sem dar atenção à hesitação de Daniel, ele entrou na mansão a passos largos.
Ao empurrar a porta que não estava totalmente fechada, um forte cheiro de álcool o atingiu.
O pai de Felipe parou, acompanhando o olhar até a garrafa de bebida que rolara até o pé da escada.
Ele viu Felipe, vestido apenas com camisa social e calças de terno, sentado descalço no chão, rodeado por garrafas vazias e outras ainda fechadas.
Ele estava encostado no sofá, com os cabelos pretos desgrenhados e os olhos injetados de sangue, olhando sem vida para a foto de Lívia sobre a mesa.
Suas pálpebras estavam roxas, e o queixo, antes bem cuidado, já estava coberto por uma barba rala; ele parecia um andarilho de beira de estrada.
O pai de Felipe fechou a cara: — Olhe para você! Que figura decadente!
A repreensão furiosa não trouxe Felipe à realidade.
Ele ergueu a cabeça lentamente, olhou para o pai por um momento e, em seguida, pegou o conhaque ainda não terminado, virando um grande gole.
O pai de Felipe franziu a testa, prestes a avançar para uma bronca, mas parou ao ouvir Felipe murmurar: — Pai...
O tratamento há muito esquecido fez o pai travar.
Ao olhar para o filho bêbado, com os olhos vermelhos, ele teve a sensação momentânea de ver a si mesmo na época em que perdera a esposa.
— Lívia me expulsou... ela... ela nunca, nesta vida, vai me perdoar... nunca...
O olhar de Felipe era perdido, como uma criança que cometeu um erro e não sabe como consertar.
Por três dias inteiros, ele não fechou os olhos.
Sempre que tentava, os olhos desesperados e indiferentes de Lívia cruzavam sua mente, e cada acusação irrebatível ecoava como um feitiço em seus ouvidos.
O pânico, o remorso, a dor no peito e a impotência eram como facas cravadas em seu coração.
— Pai... — Felipe segurou a perna da calça do pai. — Me ajude, ajude-me... a encontrar a Lívia... eu a amo, eu estava errado, eu errei...
O pai agachou-se, e a raiva em seus olhos transformou-se em tristeza: — Ela não deveria te perdoar, e você não merece perdão.
Ao ouvir isso, o olhar de Felipe vacilou e suas mãos caíram lentamente.
É verdade, ele não merecia perdão.
Como perdoar um homem que torturou a mulher que mais o amava até deixá-la em frangalhos, causou a morte do próprio filho e levou, indiretamente, à perda do único parente que ela tinha?
No segundo seguinte, Felipe virou o restante da garrafa.
Uma sensação de fogo subiu pela garganta, e uma dor intensa explodiu em suas entranhas.
Antes que o pai pudesse impedi-lo, ele vomitou uma grande quantidade de sangue.
— Estrondo!
Com a garrafa caindo no chão, o sangue vivo tingiu sua camisa branca.
— Felipe!
Capítulo 26
Ao acordar novamente, Felipe percebeu que estava deitado em um quarto de hospital.
Sua cabeça girava, o soro pingava em sua mão e sua garganta ainda ardia, tornando o ato de engolir extremamente doloroso.
Olhando ao redor, seus pensamentos estavam confusos.
Suas lembranças paravam na noite em que ele e Lívia discutiram e ele voltou para casa.
Diante de uma casa que carregava a sombra dela em cada canto, e das palavras cruéis que ela proferira, ele só conseguira recorrer ao álcool para entorpecer seus sentidos.
Mas descobriu que, mesmo bêbado, não podia escapar da clareza daquela dor.
Felipe massageou as têmporas, tentando aliviar a embriaguez residual.
Ao virar o rosto, viu uma tigela de mingau ainda fumegante sobre a mesa, com um bilhete por baixo.
— Cuidarei dos assuntos da empresa. Fique ao lado da Lívia; você pode não perturbá-la, mas não a deixe.
Era a letra de seu pai.
Ao ler o bilhete, sentiu-se tomado por emoções complexas.
Não perturbar, não abandonar...
Após muito tempo, o olhar de Felipe tornou-se límpido.
Uma enfermeira entrou para trocar seu soro, mas ele arrancou a agulha, assustando-a: — O que você está fazendo?
Felipe saiu da cama e correu para fora sem hesitar.
A enfermeira, segurando a medicação, resmungou: — Bebendo a ponto de quase perder a vida...
No prédio da internação.
No quarto, eu acabava de voltar dos exames, empurrada por Sílvia.
Antes que Sílvia pudesse me ajudar a deitar, ouvi um colega lá fora dizer: — Sílvia, leve o medicamento para o quarto 43 logo, ele vai para a cirurgia em breve.
Sílvia respondeu: — Entendido.
Disse a ela de forma compreensiva: — Pode ir, estou sentada há muito tempo, sentar um pouco também é bom.
Sílvia ficou um pouco constrangida: — Tudo bem, volto logo.
Balancei a cabeça e, quando ela saiu, percebi que meu celular havia ficado no posto de enfermagem e girei a cadeira de rodas em direção a ele.
Como era hora do almoço, as enfermeiras no posto estavam conversando livremente.
— Ah... meu coração dói sempre que vejo a Lívia passar por aqui.
Ao ouvir isso, parei a cadeira de rodas e, escondida no canto, observei as três enfermeiras.
— Eu também. Ela tem esclerose lateral amiotrófica, o que já dava para controlar com tratamento, mas agora, por causa do acidente, além de perder a capacidade de ter filhos, ela ficou paralisada. A corda sempre arrebenta no lado mais fraco.
— Tenho medo até de falar com ela, receio deixar escapar alguma coisa...
— Estrondo!
Senti como se um raio explodisse em minha mente, deixando meu rosto pálido.
Perda da capacidade de ter filhos, paralisada...
Uma sensação de desamparo atingiu-me como gotas de chuva, e quase caí da cadeira.
Eu sabia que o destino não me pouparia, mas nunca imaginei que entraria em desespero tão rapidamente, tornando-me um peso incapaz de cuidar da própria vida!
Uma das enfermeiras notou minha presença no canto e sua expressão travou: — Lívia? Por que você saiu sozinha?
As outras duas viraram-se, constrangidas.
Tentei forçar um sorriso casual: — Esqueci meu celular aqui há pouco.
Elas buscaram o aparelho imediatamente e o entregaram a mim.
Recusei a oferta de me levarem de volta e girei a cadeira sozinha até o quarto.
Do posto ao quarto, a distância de um minuto pareceu durar uma vida inteira.
Quando recobrei a consciência, já estava no quarto, com lágrimas cobrindo meu rosto sem que eu percebesse.
Olhando para a cama, meus olhos vermelhos brilharam com indignação.
Agarrei os apoios e tentei levantar meu corpo com todas as forças.
— Estrondo!
Junto com a cadeira de rodas tombando, caí pesadamente no chão frio.
No mesmo instante, uma dor aguda, como mil facas perfurando meu coração, explodiu em meus ossos, mas era uma dor que minhas pernas não conseguiam sentir.
Subitamente, um líquido quente escorreu entre minhas pernas.
— Lívia!
A exclamação preocupada de Felipe veio de trás. Olhei para a mancha transparente no chão e meus braços tremeram violentamente.
— Não venha, por favor...
Capítulo 27
Felipe, que correra apressado da sala de emergência, parou do lado de fora do quarto, olhando atônito para mim, que estava caída no chão, tremendo por todo o corpo.
De costas, repeti várias vezes com a voz embargada: — Não venha...
Contendo a dor profunda em seu coração, ele não conseguiu se controlar e avançou, apenas para perceber que minhas calças estavam encharcadas...
O coração de Felipe afundou pesadamente.
No segundo seguinte, ele fechou a porta e se abaixou para me levantar.
Mas, assim que ele me tocou, empurrei-o freneticamente, gritando em desespero: — Não me toque! Vá embora... saia! Eu disse para você sair!