Após uma pausa, ele prosseguiu: — Pelo menos não quero que termine agora.
O som distante do tráfego de veículos entrava no quarto, soando nítido em meio ao espaço silencioso.
Ouvindo o tom resoluto de Felipe, fui tomada por um misto de sentimentos, sentindo-me ainda mais impotente.
Esse homem jamais me daria a oportunidade de escolher.
Capítulo 21
À tarde.
Na delegacia, na sala de detenção.
O policial abriu a porta, adiantou-se e removeu as algemas de Mirella: — Você está liberada.
Mirella, que antes se mostrava extremamente ansiosa e inquieta, travou: — O quê? Estou liberada?
— Exatamente.
O policial não deu maiores detalhes, limitando-se a fazer algumas advertências formais antes de pedir que ela assinasse os documentos e liberá-la para a saída.
No instante em que pisou fora da delegacia, Mirella sentiu como se tivesse escapado da morte.
Contudo, após o alívio inicial, uma dúvida surgiu em sua mente.
Considerando a personalidade vingativa de Felipe, como era possível que ele a tivesse deixado ir com tanta facilidade?
Mas, ao saber que foi justamente pelo fato de Felipe ter decidido não abrir um processo que ela pôde sair tão rápido, sua inquietação dissipou-se por completo.
Mirella ergueu o queixo, recuperando a postura arrogante de sempre.
Pelo visto, Felipe não nutria tanto amor assim por Lívia, preferindo levar em conta a antiga ligação que mantinha com ela.
Nesse momento, o celular começou a tocar.
Olhando para a tela, sentiu a raiva subir instantaneamente.
Mirella correu para o lado oposto da avenida antes de ter a coragem de atender a chamada, disparando ofensas sem dar tempo para o outro falar: — Carlos, seu desgraçado! Você faz ideia de que quase me fez ser presa?!
Do outro lado da linha, veio uma risada curta cheia de desdém: — Você desviou dez milhões da empresa do Felipe e se recusou a me dar quinhentos mil. Você colheu o que plantou.
Ao ouvir aquilo, Mirella ficou ainda mais enfurecida.
Ela olhou ao redor com cautela, reduzindo o tom de voz: — Você sabe perfeitamente bem que usei todos aqueles dez milhões para pagar dívidas! De onde eu tiraria mais dinheiro?
— O que foi? Não pode mais voltar para a empresa?
— ...Temporariamente não.
Pensando nos cinco milhões que ainda devia ao cassino, com o prazo de vencimento batendo à porta em menos de um mês, Mirella sentia-se irritada e aterrorizada.
Enquanto quebrava a cabeça pensando em uma forma de reconquistar a confiança de Felipe, ouviu Carlos sugerir: — O Felipe não é o único empresário que você conhece. Aproveite o nome dele para se aproximar de outros empresários e conseguir vantagens.
Ouvindo o conselho, Mirella estancou.
Com os pensamentos trabalhando rápido, um traço de malícia cruzou suas feições.
A noite se aproximava.
Após dormir durante toda a tarde, fui despertando aos poucos.
Olhando ao redor do quarto de hospital, não vi sinal de Felipe, mas o sobretudo dele continuava sobre a mesa.
Por puro instinto, comecei a me preocupar se ele não ficaria resfriado enfrentando um tempo tão frio sem o casaco.
Assim que me dei conta do que pensava, tratei de afastar aquela preocupação desnecessária que eu já deveria ter descartado há muito tempo.
A secura em minha garganta fez-me direcionar o olhar para o copo de água sobre a mesa.
Como a minha mão direita recebia a medicação do soro, restou-me apenas esticar a mão esquerda com o máximo de esforço que podia.
Da cintura para baixo, sentia o corpo como se estivesse congelado; a ausência de forças e de sensibilidade fez um traço de pânico percorrer o meu íntimo.
Distraída com aquela sensação, a minha mão tremeu no instante em que tocou a borda do copo.
— Estraçalho!
O som estridente do vidro quebrando ecoou com força pelo quarto.
Quase no mesmo segundo, um clamor chamando por "Lívia" acompanhou o surgimento repentino de Felipe pela porta.
Ao ver que eu mantinha a mão esquerda estendida e que havia apenas quebrado um copo, ele soltou um suspiro de alívio.
Ele serviu um novo copo de água e levou uma colher até mim para me dar de beber.
No entanto, limitei-me a fixar os olhos nele, sem fazer menção de aceitar a água.
Felipe uniu as sobrancelhas: — O que foi?
Olhando para o homem diante de mim, a quem eu havia amado profundamente e por quem havia sido tão machucada, meu coração foi tomado por uma imensa complexidade.
— Felipe.
Chamando-o pelo nome completo pela segunda vez, a sensação de estranheza permanecia.
Felipe assentiu com um som baixo, aguardando pela minha próxima frase.
Em meio à atmosfera tensa, voltei a falar: — Eu tenho Esclerose Lateral Amiotrófica. É uma doença incurável. No futuro, serei incapaz de cuidar de mim mesma e posso vir a falecer em poucos anos.
A mão de Felipe que segurava o copo apertou-se com força: — Eu sei.
— O meu filho e a minha mãe faleceram por nossa causa.
— Eu sei.
As vozes de nós dois tornavam-se gradualmente mais roucas, mantendo uma calma que trazia uma leve turbulência oculta.
Com os cantos dos meus olhos avermelhados, proferi palavra por palavra: — Então você faz ideia do tamanho do ódio que eu sinto por você?
Capítulo 22
Não sei se foi por causa do resquício de frio do fim do inverno ou pelo que eu disse, mas a temperatura do quarto caiu repentinamente.
O médico, que estava conversando com Felipe do lado de fora, viu o impasse entre os dois no quarto e se retirou.
No silêncio, Felipe sentia cada batida do coração como se fosse martelada pesadamente por um maço.
Como ele poderia não saber que Lívia o odiava? Mas, naquele momento, ele simplesmente não tinha como responder.
Ao olhar para o homem em silêncio, senti meu nariz arder.
Eu deveria ter dito isso há muito tempo.
— Minha mãe dizia que um casamento baseado em esforço unilateral não dura, assim como o amor. Algumas pessoas, não importa o quanto você corra atrás, você nunca alcança, e ele não vai olhar para trás.
Contive a dor no íntimo: — Estou cansada. Por favor, não me incomode mais.
Após alguns segundos de silêncio, Felipe respondeu com o tom estável: — Terminou?
Ao ver que ele não apenas não estava irritado, mas sequer havia franzido a testa, fiquei estupefata.
Estou cada vez menos capaz de decifrá-lo.
Felipe sentou-se lentamente, e, comparado à sua postura fria e opressiva de antes, ele parecia um pouco mais suave.
— Não quero me defender de nada. Você pode me odiar, pode me xingar ou bater, e até mesmo tornar públicos os meus atos desprezíveis contra você, mas eu continuo apenas com a mesma frase: até lá, cuidarei bem de você.
Cada palavra era carregada de uma sinceridade que parecia vir de todo o seu ser.
Olhei-o estática, sem conseguir acreditar que aquelas palavras tinham saído de sua boca.
Depois de um longo tempo, desviei o olhar e não disse nada.
A indiferença dela fez o coração de Felipe estremecer.
Só agora ele percebeu que, comparado às críticas e ao ressentimento de Lívia, ele temia ainda mais o fato de ela simplesmente não o enxergar.
A mão que tentou se estender travou no ar, acabando por cair com melancolia.
— Vou comprar algo para você comer.
Colocando o canudo no copo e posicionando-o onde eu pudesse alcançar, Felipe saiu.
Ouvindo o som de seus passos desordenados se afastando, olhei para o copo de água, e meu olhar escureceu.
...
Depois disso, Felipe passou a ficar quase todo o tempo vigiando ao meu lado, mas, durante todo um mês, trocamos apenas poucas palavras.
Sempre que ele tentava tocar no assunto sobre nossos sentimentos, eu fechava os olhos para descansar.
Mesmo diante da preocupação demonstrada pelo pai dele, eu apenas respondia com um aceno simples.
A neve já havia derretido por completo, mas o vento noturno ainda trazia o frio do inverno.
Lá embaixo, no prédio da internação, as luzes da rua brilhavam fracas.
Felipe estava sob a luz, com algumas bitucas de cigarro apagadas a seus pés.
Ele soltou uma nuvem de fumaça, seus olhos levemente avermelhados fixos na janela do quarto de Lívia.
— Por que não está acompanhando a Lívia?
O pai de Felipe, que descia do prédio, aproximou-se e franziu a testa ao ver a grande quantidade de bitucas no chão.
Felipe desviou o olhar, suas pálpebras levemente caídas revelando um traço de derrota: — Ela não quer me ver.
Ao ver o filho, que sempre fora orgulhoso desde pequeno, tão derrotado, o pai dele respondeu com o rosto frio: — Você colheu o que plantou.
Pela primeira vez, Felipe não refutou.
Ele tragou o cigarro e soltou um som de concordância.
Ao vê-lo assim, o pai sentiu como se tivesse dado um soco no vazio.
Após um longo tempo, ele suavizou o tom e perguntou com seriedade: — O que pretende fazer?
— Não sei.
Felipe jogou o cigarro fora, seus olhos embaçados por uma névoa: — Sinto que... ela já não me ama mais.