Com o esgotamento físico e mental, caí em inúmeros pesadelos após a cirurgia.
No sonho —
Era outono, e o vento carregava o aroma adocicado das flores.
Em um esbarrão involuntário no corredor da escola, o jovem Felipe recolheu minha carteirinha de estudante que havia caído, exibindo um sorriso limpo: — Que coincidência, estamos na mesma turma.
Bastou aquele primeiro olhar para nunca mais esquecer.
Mas, logo em seguida, o sorriso do jovem foi substituído pelas feições gélidas de Felipe —
【Aborte essa criança. Os trâmites do divórcio ainda não foram concluídos. Não pense que vai carregar o título de senhora para dar luz ao filho de outro homem!】
Com um estrondo na mente, despertei lutando contra o sonho, percebendo que já era meio-dia do dia seguinte.
Uma neve fina caía do lado de fora da janela, e o vento soprava como se estivesse lamentando alguma perda.
Olhei perdida para fora, quando uma voz afetada e estridente cortou o silêncio: — Lívia, qual é a sensação de perder um filho?
Virei o rosto e vi Mirella se aproximar com passos graciosos. Ela depositou lentamente um buquê de flores brancas sobre a mesa, com um olhar de desprezo que parecia apreciar a vulnerabilidade de um animal abandonado.
— Olhe para o seu estado agora, que lamentável.
Não tive o menor interesse em responder e voltei a olhar para a janela.
Diante da minha indiferença, Mirella não se importou e, com elegância, ajeitou os fios de cabelo na testa: — Você sabe o motivo de o Felipe ter escolhido se casar com você?
Aquelas palavras inesperadas provocaram um abalo nos meus olhos.
Não me virei, mas minhas mãos apertando o lençol denunciavam o quanto eu me importava e temia a resposta.
Mirella inclinou-se perto do meu ouvido, anunciando com total tom de vitória: — Ele disse que a sua silhueta vista de costas se parece muito com a minha.
Uma sensação avassaladora de queda livre me atingiu no mesmo instante, sepultando-me por completo.
As lembranças cruzaram minha mente sem controle —
Felipe evitava beijar meus lábios, ele costumava preferir me possuir por trás, e nunca chamava o meu nome na cama...
Então, do início ao fim, eu fui apenas um substituto para a Mirella?
Tendo alcançado o seu objetivo, Mirella endireitou o corpo, apreciando a derrota da rival: — Se eu fosse você, concluiria os trâmites do divórcio o quanto antes. Pelo menos assim guardaria um resto de dignidade.
Dito isso, ela se afastou sob o som de seus saltos altos.
O quarto de hospital voltou a ficar em silêncio.
Mas o meu coração não conseguia mais encontrar a calmaria. As lágrimas pingavam sobre o tecido alvo do lençol, formando pequenas manchas cinzentas.
No momento em que eu afundava na escuridão, com dificuldade para respirar, o celular tocou de repente.
Olhei na direção do aparelho e fiquei paralisada ao ver a identificação da chamada: "Mãe".
Desde que cortamos relações, nestes quatro anos, minha mãe nunca mais havia me ligado.
Apertei o botão de atender com urgência, esforçando-me para estabilizar minhas emoções: — ...Mãe.
— O Felipe disse que você já assinou o acordo de divórcio. Finalmente percebeu o seu erro?
Ao ouvir aquilo, senti um nó na garganta.
Após um longo silêncio, a voz do outro lado soltou um suspiro: — Eu fui contra o seu casamento com ele porque sabia que uma união onde apenas um lado se entrega não se sustenta...
Enquanto falava, o tom tornou-se um pouco mais rouco: — Se já sofreu o bastante, volte para casa.
Aquele carinho há muito tempo esquecido destruiu completamente a postura de indiferença que eu tentava sustentar.
— Mãe...
— Por que está chorando? Espere, a mãe está indo ao hospital buscar você.
A ligação terminou, mas continuei segurando o celular, sem coragem de guardá-lo.
Afinal, minha mãe tinha apenas uma postura severa, mas o coração mole.
Eu não estava sozinha... Que bom.
Deitei-me para acalmar os pensamentos, pressionando o celular contra o peito. Percebi que a dor no meu peito parecia não estar tão intensa; talvez abrir mão do amor não fosse algo tão difícil?
Fechei os olhos pensando que, a partir de agora, faria o tratamento de forma adequada, esperando viver um pouco mais para compensar a ausência desses quatro anos com a minha mãe.
...
Pensando no futuro, aguardei no quarto cheia de expectativas, mas esperei desde a manhã até o meio-dia, e minha mãe não apareceu.
Contudo, o trajeto da residência da minha família até o hospital não era longo.
Tentei ligar pela décima primeira vez, mas o número continuava sem resposta.
A inquietação começou a tomar conta do meu coração. Não consegui mais permanecer ali, vesti as roupas e me preparei para sair. No instante em que pisei fora do quarto, o celular tocou.
Era a minha mãe.
Atendi imediatamente: — Mãe, por que a senhora não atendia...
No entanto, uma voz masculina desconhecida veio do outro lado: — Com licença, eu falo com a Lívia, filha da senhora Marisa?
Ao ouvir aquilo, o pânico no meu peito aumentou bruscamente: — Sim, sou eu. Quem está falando?
— Aqui é do departamento de trânsito. Sua mãe sofreu um acidente de carro no trajeto para o hospital e faleceu no local!
Capítulo 10
No caminho do hospital para o local do acidente, o céu nublado e cinzento começou a nevar novamente.
Os flocos de neve eram pesados, tão pesados que a cada passo que eu dava, sentia dificuldade para respirar. Fixei os olhos na silhueta familiar e coberta de sangue sobre a maca, pensando, atordoada, que estava presa em um pesadelo.
Minhas pernas perderam as forças e caí de joelhos ao lado da maca. Abraçando aquele corpo que já estava completamente frio, não consegui mais suportar a dor dilacerante que rasgava meu peito.
— Mãe, eu vim para te levar de volta para casa...
Assim que abri a boca, as lágrimas desceram sem nenhum controle.
As gotas caíam sobre o casaco de plumas manchado de sangue. Assustada, tentei limpar depressa, mas, quanto mais eu limpava, mais minhas mãos tremiam.
— Mãe, eu sei que errei. Eu não quero mais o Felipe, nunca mais vou insistir nisso... Abre os olhos e olha para mim uma vez, por favor? Eu te imploro!
— ...Mãe!
Por mais que eu suplicasse, ninguém mais respondia.
Desta vez, no céu ou na terra, eu estava realmente sozinha no mundo...
...
Três dias depois.
Após concluir os trâmites do funeral da minha mãe, sentei-me no velho sofá da residência da minha família segurando o casaco de plumas manchado de sangue. Fiquei imóvel, como se tivesse perdido a própria alma.
Samuel aqueceu um copo de leite e o estendeu para mim: — Você não comeu nada nesses dias, como seu corpo vai aguentar?
Após uma breve pausa, ele continuou a aconselhar: — A sua mãe, onde quer que esteja, não gostaria de ver você desse jeito.
Ergui os olhos para encará-lo, mas meu olhar era completamente vazio, sem foco em lugar nenhum.
— Naquele dia, a mamãe disse que ia me buscar para voltar para casa e até me trouxe esse casaco de plumas quentinho. — Apertei o casaco contra o peito, e as lágrimas voltaram a rolar. — Essa roupa faz conjunto com a que ela estava usando, mas ela nem teve a oportunidade de me ver vestida nela...
Samuel sentou-se com os olhos avermelhados, usando um tom de voz complexo: — Seja forte. A sua mãe, no céu, só quer que você viva bem...
Ao ouvir aquilo, minhas longas pestanas tremeram levemente.
— Obrigada por tudo nesses dias. Eu quero ficar um pouco sozinha, por favor, vá para casa.
Samuel fez menção de dizer algo, mas acabou se levantando e saindo.
Restando apenas eu, a sala de estar tornou-se assustadoramente silenciosa.
O arrependimento e a culpa fermentavam no silêncio.
Ouvia-se apenas o som da minha respiração trêmula.
Se eu não tivesse me apaixonado por Felipe, teria sido tão bom. Eu não teria me afastado da minha mãe por quatro anos, e esse acidente não teria acontecido. Quem sabe, neste exato momento, estaríamos conversando sobre o que jantar à noite...
Mas agora era tarde demais para qualquer lamentação.
Depois de muito tempo, deixei de lado, com o coração partido, o casaco manchado de sangue sobre a mesa.
Com um som suave, uma caderneta de poupança caiu do bolso do casaco.
Fiquei estática por um momento, recuperei a reação e a recolhi. Ao abrir a caderneta, meus olhos sofreram um tremendo impacto.
A partir de quatro anos atrás, havia depósitos de milhares de notas todos os meses.
O último registro de depósito era de três dias atrás, na manhã do dia em que minha mãe sofreu o acidente.
Um pequeno cartão estava colado no verso da última página, com a caligrafia familiar da minha mãe escrito: — Volte para casa, a mamãe sustenta você. Vamos viver bem as duas juntas.
Uma onda de calor subiu pelos meus olhos ressecados, e as lágrimas romperam as barreiras novamente.