Capítulo 1
Manhã cedo, no topo da Torre de São Paulo, na suíte do diretor.
O vento frio forçou a janela, dissipando a atmosfera íntima do quarto.
Segurei minha cintura dolorida e saí da cama com cuidado, com medo de acordar Felipe, que ainda dormia.
No entanto, o homem na cama abriu os olhos de repente, capturando meu rosto com seu olhar afiado, e franziu o cenho, insatisfeito: — Eu já disse que não quero ver você aqui durante o dia.
Meu coração falhou uma batida, mordi o lábio e sussurrei: — Desculpe, eu perdi a hora, da próxima vez eu com certeza...
— Saia.
A expulsão rouca foi implacável.
Apertei as palmas das mãos, me esforçando para conter a dor amarga no coração, e juntei coragem para perguntar: — Felipe, desta vez... eu posso não tomar a pílula do dia seguinte?
O vento frio envolveu minha pele excessivamente clara, e eu não conseguia parar de tremer.
— O que você acha?
Felipe levantou o cobertor e se levantou, com um olhar de aviso.
Não me atrevi a encará-lo, entrelaçando os dedos com nervosismo: — Eu já tomo esse remédio há quatro anos, o médico disse que meu corpo não aguenta mais os efeitos colaterais...
— Preciso te lembrar que foi você quem implorou por isso ontem à noite?
Assim que terminou de falar, o homem me lançou um olhar frio e caminhou em direção ao banheiro com o rosto fechado.
Fiquei olhando para ele, paralisada, enquanto minhas mãos pálidas se fechavam lentamente.
Claramente éramos casados, mas eu vivia como se fosse apenas alguém que ele pagava para usar.
Como Felipe não permitia que eu fosse mencionada, ninguém no mundo exterior sabia que eu era sua esposa.
Mas quando nos casamos, foi o próprio Felipe quem propôs.
Eu gostava dele, gostava desde o primeiro momento em que o vi. No dia em que terminei o ensino médio, coloquei secretamente uma carta de amor na mochila dele, mas nunca tive resposta.
Até que, em um reencontro de turma há quatro anos, finalmente o vi de novo e soube que ele havia terminado com a namorada.
Criei coragem para ir cumprimentá-lo, e para minha surpresa, após me encarar por um momento, ele perguntou diretamente: — Você quer se casar comigo?
Até hoje...
Ainda me lembro da emoção que me deixou tonta na época, mas não imaginava que quatro anos de casamento seriam desse jeito...
Depois de me vestir, saí desamparada.
Assim que cheguei perto do elevador, meu celular vibrou.
Abri e vi que era apenas uma mensagem automática do sistema me desejando feliz aniversário.
Sorri com amargura. Hoje era o meu aniversário de vinte e seis anos, mas fui expulsa antes mesmo de conseguir mencionar uma única palavra a Felipe.
Afastando a solidão dos meus olhos, olhei para cima bem no momento em que uma mulher vestindo um casaco bege saía do elevador.
Ao reconhecer o rosto dela, meu corpo inteiro estremeceu.
Mirella!
A ex-namorada de Felipe!
Ela não tinha ido morar no exterior?
Em contraste com o meu choque, Mirella parecia completamente à vontade: — Há quanto tempo, Lívia.
— O que você está fazendo aqui?
Eu sabia que, há quatro anos, Mirella havia sido demitida sob ordens do pai de Felipe devido a um escândalo, sendo proibida de pisar na empresa para sempre.
O sorriso permanecia no rosto de Mirella, mas o olhar trazia uma ponta de triunfo: — Felipe não te contou? Ele mesmo me convidou para voltar e assumir o cargo de diretora de relações públicas da empresa.
Aquelas palavras foram como um balde de água fria jogado na minha cabeça, e uma inquietação inexplicável começou a se espalhar.
Mirella balançou o celular: — Desculpe, o Felipe está com pressa para me ver, conversamos mais tarde.
Na tela do celular, havia apenas três palavras curtas:
【Sinto sua falta】
Senti como se inúmeras agulhas estivessem perfurando meu coração, uma dor densa que corria pelas minhas veias até as extremidades do corpo.
Não consegui aguentar mais nenhum segundo e fugi dali.
Do lado de fora, a neve começava a cair sobre Gramado.
Fiquei na beira da estrada, contemplando o edifício de oitenta e oito andares da empresa.
Uma hora, duas horas... a manhã inteira se passou, e Felipe continuava sem sair.
Meu coração foi se congelando aos poucos.
Esse casamento, que nunca foi igualitário desde o início, também teve a firme oposição da minha mãe na época. Mas recusei dar ouvidos aos seus conselhos, e ela, num acesso de fúria, cortou relações comigo...
Com os olhos ardendo, pela primeira vez me perguntei se a minha insistência realmente valia a pena.
Sem perceber, os flocos de neve já haviam coberto meu cabelo.
Respirei fundo e peguei o celular.
Além dos parabéns automáticos do sistema, ainda não havia mensagem de ninguém.
Olhando para o número fixado no topo com o nome de "Felipe", num impulso inexplicável, apertei o botão para ligar.
Quando recobrei os sentidos, tentei desligar desesperadamente, mas a chamada já havia sido atendida.
Em seguida, a voz de Mirella veio do outro lado da linha: — Quando você pretende falar com a Lívia sobre o divórcio?
Minhas pupilas se contraíram, e senti como se uma mão enorme estivesse apertando minha garganta com força.
No segundo seguinte, a resposta baixa, porém clara, de Felipe ecoou como um trovão na minha mente.
— Hoje à noite.
Capítulo 2
Logo após a fala, a ligação caiu.
Mas as duas palavras curtas de Felipe foram como uma lâmina em brasa torcendo meu coração, me fazendo tremer os lábios de dor.
Segurei o celular com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos, enquanto uma sensação de impotência crescia no meu peito.
Desde o momento em que Mirella apareceu, eu já pressentia isso, mas não esperava que Felipe estivesse tão impaciente para pedir o divórcio...
O vento ficou ainda mais frio.
Respirei fundo e me preparei para caminhar, mas o ar que entrou nos meus pulmões de repente pareceu pesar toneladas, travando na minha garganta, me impedindo de respirar e de me mover.
O pânico escalou até o ponto em que eu achei que morreria sufocada.
— Cof!
Depois de tossir um pouco de sangue, finalmente recuperei o controle do meu corpo.
O suor frio escorria pelas minhas têmporas. Após hesitar por um momento, decidi ir ao hospital para fazer um exame.
...
Quando voltei para casa, a noite já havia caído.
Arrastando meu corpo exausto, empurrei a porta e fui recebida por um odor de tabaco misturado com álcool.
Olhei para frente e não consegui esconder a surpresa.
Felipe, vestindo um roupão, estava sentado no sofá, segurando um cigarro que já estava quase no fim entre os dedos. A água das pontas do seu cabelo escorria pelo queixo, descendo pelo pomo de Adão.
Durante todos os anos de casamento, Felipe raramente vinha me procurar por iniciativa própria. Todas as vezes, era por desejo após beber.
Mesmo assim, eu ainda esperava pela vinda dele, mas hoje...
Perguntei com apreensão: — O que faz aqui?
Felipe soltou uma lufada de fumaça, seus olhos profundos parecendo dois buracos negros: — Venha aqui.
A voz dele estava mais grave do que o habitual, carregando uma atração e uma pressão que eu não conseguia resistir.
Quando dei por mim, já estava diante dele. Em seguida, o homem segurou meu pulso e me puxou com força, fazendo-me cair sentada em seu colo.
A agitação familiar fez meu corpo amolecer instantaneamente. Se fosse no passado, eu já teria fechado os olhos docilmente, deixando que ele fizesse o que quisesse.
Mas hoje eu não conseguia fechar os olhos. Controlando a respiração acelerada, não contive a pergunta: — Por que você deixou a Mirella ir para a empresa?
Assim que as palavras saíram, me arrependi.
O que Felipe mais detestava eram os questionamentos dos outros, especialmente os meus.
Como esperado, o rosto dele escureceu e ele me empurrou friamente: — Eu já disse antes do casamento que você não deve se meter na minha vida pessoal.
Caí no chão, e o piso estava gelado.
Comparado a isso, achei Felipe ainda mais frio, como um bloco de gelo impossível de aquecer.
Dos quinze aos vinte e seis anos, do amor platônico ao casamento, por medo de que ele me rejeitasse, nunca ousei dizer a palavra "amor" na frente dele, mas fiz tudo o que podia para amá-lo...
Mesmo assim, ele continuava indiferente.
Segurei o chão e me levantei, me forçando a não pensar no que ele e Mirella poderiam ter feito naquela suíte depois que saí esta manhã.
Neste exato momento, eu precisava desesperadamente de um motivo para manter este casamento, queria o reconhecimento dele: — Quando nos casamos, você não disse que, enquanto o casamento durasse, queria apenas a mim?
No entanto, Felipe não disse nada. Ele se levantou para subir as escadas e não me dirigiu mais nenhum olhar.
Não mencionou meu aniversário, e muito menos o divórcio.
Levantei-me lentamente, olhando para a imensa sala de estar, sem saber o que sentir.