O cheiro de terra molhada e ferro oxidado sempre precedia a morte nas terras de fronteira.
Lyra mantinha os olhos fixos na janela pequena e gradeada da carruagem militar. O veículo de madeira escura balançava violentamente a cada solavanco nas estradas de terra batida que levavam aos limites de Solaria. Do lado de fora, uma névoa cinzenta e espessa engolia a paisagem, enquanto uma chuva implacável batia contra o teto, soando como centenas de pequenas pedras sendo atiradas contra sua cabeça.
— Você ainda pode tentar fugir, garota — o guarda sentado à sua frente resmungou. Ele era um homem de meia-idade, com uma cicatriz feia que ia da bochecha até o pescoço, cortesia de alguma escaramuça antiga. Suas mãos tremiam levemente enquanto ele tentava acender um cigarro de palha barato, falhando miseravelmente por causa da umidade. — Se pular agora, com essa chuva, os rastreadores do Rei não vão te achar antes que passe a fronteira para as terras livres.
Lyra soltou uma risada fraca, um som sem humor que morreu rapidamente no espaço apertado entre eles. Ela ajeitou a capa de lã cinzenta ao redor dos ombros, sentindo o frio úmido penetrar até os ossos.
— E deixar que meu pai pague o preço pelo tratado quebrado? — Lyra desviou o olhar azul-safira para o soldado. Sua voz era mansa, mas carregava uma firmeza que fez o homem hesitar. — Se eu não for até aquele pico, as chamas dele vão transformar a capital em cinzas antes do amanhecer. Meu pai sabia muito bem o que estava fazendo quando me colocou naquela lista de tributos. Ele só não contava que eu viria por vontade própria.
— Você é maluca. Isso sim — o guarda murmurou, finalmente desistindo do cigarro e jogando-o no chão da carruagem. — Aquilo não é um homem, garota. É um monstro. O Rei dos Dragões Negros não faz prisioneiros. Ele consome o que entra no território dele. Você está indo direto para o matadouro e agindo como se fosse apenas mais um dia de mercado.
Lyra não respondeu. Suas mãos, escondidas sob o tecido grosso da capa, apertavam um pequeno frasco de vidro escondido em seu espartilho. Era um tônico de camomila e raiz de névoa, algo que ela mesma destilara na noite anterior. Uma ironia, pensou. Tentando levar calmaria para o covil do maior predador do mundo.
Ela passou a vida inteira vendo os homens de Solaria se curvarem diante do medo, armando guerras estúpidas e sacrificando os mais fracos para proteger suas coroas de ouro falso. Seu pai a havia vendido em silêncio, esperando que ela chorasse e implorasse por misericórdia. Em vez disso, Lyra arrumou suas poucas ervas de cura, vestiu seu vestido mais simples e caminhou até a carruagem de cabeça erguida. Ela preferia o fogo limpo de um dragão à podridão moral dos homens de seu próprio sangue.
De repente, a carruagem deu um estalo violento e parou.
O impacto fez Lyra ser jogada para a frente, as palmas das mãos batendo contra a madeira áspera do banco oposto. Do lado de fora, o som dos cavalos relinchando em pânico puro ecoou pela névoa, misturado com os gritos desesperados dos cocheiros.
— O que está acontecendo lá fora?! — o guarda gritou, puxando a espada da bainha com um som metálico agudo. Seu rosto, antes tenso, agora estava completamente pálido.
— Ele chegou! Pelos deuses, ele está descendo! — uma voz gritou do lado de fora, seguida pelo som de passos correndo na lama. Os soldados da escolta estavam quebrando a formação, fugindo como ratos.
Lyra sentiu o ar ficar subitamente pesado. A pressão atmosférica caiu de forma tão abrupta que seus ouvidos estalaram. O frio da chuva parou de importar, porque, em questão de segundos, a temperatura ao redor da carruagem começou a subir. O vapor começou a sair das frestas das janelas de madeira.
Então, veio o som.
Não foi apenas um barulho; foi uma vibração que reverberou direto no peito de Lyra, fazendo seu coração errar uma batida. Um rugido ensurdecedor, gutural e carregado de um ódio ancestral, rasgou os céus cinzentos de Solaria. O som era tão poderoso que as janelas de vidro da carruagem trincaram instantaneamente, espalhando teias de aranha pelo vidro.
O guarda ao seu lado caiu de joelhos no chão do veículo, largando a espada e cobrindo as orelhas com as mãos, soltando um gemido de puro terror. Ele murmurava preces desesperadas a deuses que claramente não estavam ouvindo.
Lyra, no entanto, não se moveu. Seus dedos se soltaram do frasco de vidro. Seus olhos azul-safira se arregalaram, fixos na porta da carruagem que começava a tremer. O medo estava lá, uma faísca fria no estômago, mas a curiosidade e uma estranha sensação de inevitabilidade eram maiores.
Através do vidro trincado, ela viu a silhueta imensa descer das nuvens carregadas. Uma massa de escuridão viva, com asas que pareciam bloquear o resto da pouca luz do dia. O Pico Draconiano havia enviado seu dono. Kaelen estava ali.
Com um puxão violento que arrancou as dobradiças de ferro como se fossem feitas de papel, a porta da carruagem foi arrancada e jogada na lama.
A fumaça e o calor sufocante invadiram o cubículo, e Lyra finalmente olhou nos olhos do seu destino.