Henrique.
Ele mantinha a estrutura do corpo apoiada contra a superfície da parede, exibindo uma total ausência de expressividade nas feições.
Assemelhando-se a alguém que se dedicava a esvaziar a mente de forma isolada.
Ou portando-se como se estivesse sob a expectativa de recepção de um terceiro.
Minha conduta passou longe de estender-lhe qualquer consideração, mantendo o deslocamento de forma retilínea.
"Letícia."
Ele vocalizou o nome com o intuito de reter os meus passos.
Abstive-me de esboçar reação.
"Você por acaso estabeleceu um envolvimento de ordem romântica com Davi?"
Uma abordagem completamente desprovida de nexo.
"Sendo assim, o seu íntimo manifesta predileção por conduzir relacionamentos de contornos proibidos?"
"Inexiste em sua percepção o entendimento de que parceiros que camuflam o vínculo sob o arquétipo de irmãos emanam traços de profunda repulsa?"
Interrompi a progressão dos passos, rotacionando o corpo para fixar a atenção sobre as feições dele:
"A totalidade desses fatores guarda alguma relação com a sua realidade?"
Henrique esboçou um sorriso gélido:
"Inexiste relação com a minha realidade, contudo, o cenário desperta em meu íntimo um profundo sentimento de aversão."
Adotei uma postura de idêntico e gélido desdém:
"A situação atende perfeitamente ao meu contentamento, restaria saber sob qual argumento sua autoridade supõe possuir direito de ingerência sobre os meus atos."
No exato milésimo de segundo em que girava o corpo para retomar a saída, fui alvo de uma retenção mecânica e violenta sobre o meu pulso.
Henrique impulsionou a estrutura do meu corpo contra a superfície da parede, registrando uma contração abrupta em suas pupilas obscurecidas.
Suas feições sombrias emanavam uma atmosfera que assemelhava-se à iminência de uma tempestade severa, carregada de uma opressão avassaladora.
"Letícia, por acaso você recorre a essa modalidade de conduta com o propósito exclusivo de confiscar a minha atenção?"
Fui tomada por um sentimento de total estupefação diante do absurdo.
Jamais passara pela minha mente supor que o herdeiro Albuquerque, historicamente pautado por uma postura de extrema altivez e distinção, seria capaz de vocalizar um argumento dotado de tamanha ausência de senso de realidade.
"A presunção desmedida configura uma patologia séria; recomendo que direcione seus passos a uma instituição de saúde para providenciar o devido agendamento de consulta."
A manifestação de repulsa estampada em minhas feições exibia total clareza.
As feições de Henrique experimentaram um gélido e absoluto obscurecimento.
Decorrido um hiato temporal, ele permitiu-se desenhar um sorriso de nítidos contornos irônicos e descompromissados.
"Caso a realidade se confirme alheia a essa hipótese, desenha-se como o melhor cenário."
Retornei às dependências do salão de refeições.
Identifiquei a presença de Henrique ocupando uma acomodação posicionada a curta distância da nossa mesa.
A extremidade oposta do mobiliário contava com a presença de uma jovem que ostentava vestes de expressivo alinhamento com as tendências da moda e dotes estéticos admiráveis.
O cenário indicava o cumprimento de um compromisso de aproximação romântica entre ambos.
A explicação mostrava-se nítida.
Sua conduta de agora há pouco decorria, presumivelmente, de ter testemunhado o exato milésimo de segundo em que Davi depositara o ósculo sobre a minha face.
Uma postura totalmente desprovida de equilíbrio.
"Qual a justificativa para apresentar tamanha alteração desfavorável em seu semblante?"
Davi captou de forma imediata a oscilação em meu estado emocional, orientando a linha do olhar na mesma diretriz que eu adotava.
As feições dele experimentaram uma sutil modificação de postura.
"Houve algum cruzamento com a trajetória de Henrique no curso do seu afastamento?"
Emiti uma breve confirmação vocal.
"Quais os termos que foram verbalizados por ele dirigidos à sua pessoa?"
"Nenhum elemento de real relevância."
Diante da minha opção por suspender os esclarecimentos, Davi adotou uma postura de oportuno silêncio, abstendo-se de prolongar os questionamentos.
Ao término da refeição noturna, iniciamos o deslocamento de retorno ao lar.
Inexiste em meu entendimento a precisão sobre o exato minuto em que fui consumida pelo sono; no momento em que recuperei a consciência, constatei que o veículo encontrava-se imobilizado nos limites externos do pátio residencial.
A região do meu peito encontrava-se resguardada pelo casaco térmico pertencente a Davi, e o sistema de calefação do automóvel permanecia ativo.
O condutor mantinha-se em total calmaria ocupando o assento adjacente, concentrando a atenção na leitura de atualizações informativas no dispositivo móvel.
"Considerando que o deslocamento atingiu o destino, qual a razão para abster-se de emitir um sinal de aviso?" Manifestei as palavras enquanto tateava as feições ainda tomadas pelo torpor do repouso.
"Minha observação indicava que o seu sono transcorria sob excelente calmaria."
"Qual o fundamento para não conduzir a estrutura automotiva para o interior do pátio?"
"Nutri o receio de que a eventual eclosão de ruídos por parte dos demais membros do lar operasse a interrupção precoce do seu descanso."
Eu...
Ao inspecionar o marcador temporal, constatei ter desfrutado de um período de repouso que se estendera por aproximadamente uma hora e trinta minutos.
A dedução indicava que o término do deslocamento por parte de Davi ocorrera há pelo menos uma hora.
Uma paciência impressionante.
Sua estrutura mental parecia imune ao tédio da espera.
34
No período noturno daquela data.
O departamento corporativo enfrentava demandas de extensão de jornada para a condução de uma assembleia setorial.
Os atos de abertura mal haviam sido deflagrados quando o meu dispositivo móvel emitiu o sinal sonoro de chamada recebida.
O identificador exibia a autoria de Stella.
Aproveitando o milésimo de segundo em que uma colega de equipe organizava os arquivos de projeção visual no palco, recolhi os fones de ouvido para acoplá-los.
"Stella, qual a demanda do contato?"
O canal de comunicação permaneceu destituído de resposta vocal.
"Alô, Stella?"
A ausência de manifestação persistiu.
O cenário sugeria a eclosão de um acionamento involuntário das teclas do aparelho por parte da interlocutora.
Abstive-me de interromper a chamada de imediato, optando por aguardar a evolução do quadro por mais alguns instantes.
A ligação preservava o status de atividade.
O ambiente de origem exibia considerável silêncio.
Registrando, em intervalos esparsos, a eclosão de ruídos aerodinâmicos.
Assemelhando-se à condução de um veículo em via pública.
Sob essa configuração transcorreram aproximadamente vinte minutos; diante da persistência do silêncio por parte de Stella, posicionei os dedos com o intuito de finalizar a ligação.
Contudo, no exato milésimo de segundo que antecederia a desconexão, uma vocalização perfeitamente inteligível fez-se presente no canal:
"Senhor Marcos, sua chegada às dependências do estabelecimento noturno já se efetivou?"
Experimentei uma súbita e violenta descarga de adrenalina por toda a extensão do corpo.
A identidade vocal pertencia inequivocamente a Isadora.
Qual a justificativa para Stella furtar-se à manifestação verbal por tanto tempo?
Seria legítimo deduzir que ambas partilhavam do mesmo perímetro naquele instante?
Stella mantinha-se em silêncio por deliberação própria ou encontrava-se sob total incapacidade de articular a fala?
Senhor Marcos?
Estabelecimento noturno?
Minha mente resgatou de forma instantânea as memórias de longos anos atrás, período em que Stella fora conduzida sob artimanhas e falsas premissas por Isadora até as dependências da boate VIP, motivando o meu movimento abrupto de erguer-me da cadeira e abandonar o recinto da assembleia a passos céleres.
Os dígitos que compunham o canal telefônico de Henrique desenharam-se de forma imediata em meu cérebro.
Apesar do expressivo avanço temporal, a numeração preservava-se sob total nitidez em meus arquivos de memória.
Abstendo-me de interromper a chamada ativa no dispositivo móvel, recolhi o terminal de telefonia fixa posicionado sobre a superfície da mesa de trabalho, discando com total rapidez os dígitos correspondentes ao aparelho de Henrique.
Decorridos dois sinais de chamada.
O canal transmitiu a conhecida e gélida inflexão de voz:
"A quem se deve este contato?"
"Henrique, a autoria destas palavras pertence a Letícia; rogo que me esclareça se a rotina de Stella nesta noite desenvolve-se na companhia de Isadora."
O canal registrou uma breve pausa antes que as palavras fossem proferidas em tom de total normalidade e desinteresse:
"Stella compareceu à residência familiar nesta noite com o propósito de prestigiar as celebrações do aniversário da minha mãe; tendo realizado o consumo de uma sutil porção de bebida alcoólica, Isadora assumiu a incumbência de conduzi-la de volta ao seu endereço residencial."
Senti a totalidade da minha estrutura física ser tomada por uma gélida sensação de pavor.
A rotina regular de Stella passava totalmente alheia ao consumo de substâncias alcoólicas.
Ademais, bastaria que ela preservasse a menor parcela de lucidez para jamais anuir em submeter-se a uma condução exclusiva sob a guarda de Isadora.
Empreendi esforços máximos para conter o tremor que se apossava das minhas mãos.
"Henrique, caso o seu íntimo ainda preserve a consideração de tratar Stella sob a dignidade de uma irmã, resta mandatório que sua pessoa estabeleça contato imediato com o aparelho de Isadora neste exato segundo, adotando uma inflexão de voz perfeitamente serena para indagar sobre a sua exata localização geográfica, buscando certificar-se se a condução de Stella atingiu o desfecho pretendido."
"Guarde a instrução de preservar total calmaria no tom de voz."
A extremidade oposta do canal pareceu assimilar os contornos de gravidade implícitos em minhas palavras.
"Letícia, qual a real mensagem que a sua pessoa busca transmitir através dessas advertências?"