Pois nenhum de nós três supunha que Isadora guardasse a capacidade de verbalizar tamanha atrocidade.
Qual a magnitude da perversidade necessária para direcionar tal afirmação contra uma jovem de apenas quinze anos.
Ao notar que nossos olhares a fuzilavam com severidade.
A empáfia de Isadora retraiu-se sutilmente, contudo, seu orgulho impedia-a de aceitar a submissão.
"Por qual motivo me encaram dessa forma? Eu apenas verbalizei a realidade."
Davi manteve-se reflexivo por um breve segundo antes de girar a atenção em minha direção.
"Letícia, meu desejo é que, de agora em diante, você resguarde uma distância mínima de cinco metros em relação a Isadora, rompendo qualquer vínculo com a existência dela até o fim dos seus dias, blindando-se contra uma eventual traição pelas costas."
"Que piada de extremo mau gosto, Davi! Você trata a sua irmã como uma joia rara, mas na minha escala de valores ela não representa absolutamente nada, muito menos uma distância de cinco metros. Eu sequer me rebaixo a dirigir a palavra a ela."
Davi absteve-se de prolongar o embate, segurando-me pela mão para iniciarmos a retirada.
"O adiantar da hora é expressivo, vamos retornar para nossa casa."
22
Stella recuperou a consciência apenas na manhã do dia seguinte.
No que tange aos episódios da noite anterior, mesmo diante do meu silêncio, as autoridades policiais compareceram para colher as declarações dela.
Após a conclusão dos trâmites oficiais com a polícia, Stella mergulhou em um silêncio profundo que se estendeu por diversos dias.
Assim que obtive o aval da tia Vasconcelos, questionei Stella sobre o seu interesse em transferir-se para a nossa residência por um período.
Ela anuiu de imediato, sem demandar maiores reflexões.
O complexo dos Vasconcelos exibia dimensões vastas, com abundância de acomodações.
Com a efetivação da mudança, o semblante de Stella apresentou uma melhora consideravelmente nítida.
Pouco tempo após o desfecho no Queen Bar, a Senhora Albuquerque compareceu para manifestar um pedido de desculpas formal em representação a Isadora.
Contudo, Stella mantinha-se resoluta no propósito de não conceder o perdão desta vez.
De modo que o vínculo entre ela e Isadora encontrava-se definitivamente sepultado.
No crepúsculo de um sábado.
Eu me preparava para uma sessão de corrida noturna quando deparei-me com Henrique junto aos portões de ferro da propriedade.
Originalmente, meu intuito concentrava-se em ignorar sua presença, contudo, fui interceptada pelo chamado de sua voz.
Henrique estendeu-me um maço expressivo de cédulas de dinheiro.
"Refere-se aos recursos de subsistência de Stella para este mês, peço a gentileza de efetuar a entrega a ela."
Diante do meu silêncio, ele apressou-se em justificar:
"Tentei efetuar uma transferência eletrônica anteriormente, contudo, ela recusou o recebimento. Agradeço o seu auxílio."
Soltei um riso de puro desdém:
"Você genuinamente supõe que, habitando a residência dos Vasconcelos, Stella enfrentaria escassez de recursos de subsistência?"
Henrique demonstrou um sutil sobressalto, mantendo o silêncio por um breve instante.
"Ela permanece carregando o nome da família Albuquerque."
"Você demonstra ciência sobre o nome que ela carrega; lamentavelmente, a sua irmã dedica-se a tratá-la com o rigor de uma inimiga mortal."
Ao término da frase, posicionei-me para retomar o trajeto.
"A conduta de Isadora pertence a ela, a minha postura pertence a mim. Letícia, parece evidente que você nutre uma imensa aversão pela minha pessoa."
"Por acaso você ostenta alguma virtude que justifique o meu apreço?"
"Em qual aspecto eu cometi alguma ofensa contra a sua realidade?"
"Você cometeu ofensas contra a minha realidade na minha vida passada."
Henrique soltou um riso carregado de pura frustração.
"Sua preferência afasta-se de um irmão com as minhas características para alinhar-se a alguém com o perfil de Davi; por essa razão, sua escolha fixou-se na adoção pelos Vasconcelos em detrimento dos Albuquerque, correto?"
"Sob a análise do cenário atual, resta comprovado que minha deliberação inicial transpôs-se como uma escolha extremamente sábia, não cogita?"
Minhas palavras cortantes destituíram Henrique de qualquer capacidade de articulação.
No exato instante em que mantínhamos aquele impasse.
Davi despontou a partir do interior da residência.
Ele transpôs a distância com passos velozes, posicionando-se exatamente no centro do nosso alinhamento, estendendo os braços para resguardar a minha integridade.
Sua postura assemelhava-se à de uma ave protetora defendendo sua cria.
Enquanto Henrique desenhava-se como o predador à espreita.
"Qual o propósito dessa abordagem? A sua ociosidade após as refeições atingiu o patamar de fazê-lo vir até os portões da nossa propriedade para buscar confusão?"
Henrique esboçou um sorriso de puro sarcasmo.
"Davi, por acaso você partilha da natureza de um cão de guarda?"
"Você perdeu o juízo por completo? A natureza de cão pertence a você e a totalidade dos integrantes da sua família."
"Caso não partilhasse dessa natureza, o seu faro não se mostraria tão apurado; basta que qualquer indivíduo masculino dirija a palavra a Letícia para que você capte o odor e surja no ambiente instantaneamente."
Davi deteve-se por um segundo, cruzando os braços sobre o peito.
"E qual o problema nisso? A Letícia assume a condição de minha irmã de criação, resta legítimo que eu capte o odor e compareça para assegurar sua proteção."
"Com especial atenção para os integrantes da família Albuquerque, onde não se localiza um único indivíduo de boa índole; por óbvio, manterei minha vigilância em nível máximo."
Henrique lançou-lhe um olhar gélido, desenhando uma expressão de puro deboche no canto dos lábios.
"É salutar que a sua mente permaneça sob essa ilusão."
Após a retirada do interlocutor.
Davi não conteve a curiosidade, questionando-me:
"Quais foram as palavras que ele direcionou a você agora há pouco?"
Balancei a cabeça negativamente.
"Assuntos sem maior relevância, ele apenas solicitou que eu repassasse uma quantia financeira para Stella."
"Desdém absoluto, ninguém manifesta interesse pelas migalhas daquela linhagem. Modificando o foco, qual o seu destino a esta hora da noite?"
"Realizar uma sessão de corrida noturna."
"Corrida noturna? Eu farei companhia a você, peço apenas que aguarde enquanto efetuo a troca do meu calçado."
"Acho desnecessário o seu empenho."
"Mostra-se totalmente imperativo; diante do adiantar da hora, há sempre o risco de cruzarmos com algum indivíduo de conduta perversa."
Eu...
Perfeitamente, sem objeções.
23
Após o sepultamento da matriarca da família do motorista, o estado de saúde de seu progenitor também apresentou complicações severas.
A situação demandaria o pedido de uma licença por período prolongado, impossibilitando seu comparecimento habitual ao posto de trabalho.
A estrutura dos Vasconcelos contava permanentemente com o suporte de três motoristas profissionais em atividade.
Um operava sob a demanda exclusiva do tio Vasconcelos.
Outro atendia aos compromissos da tia Vasconcelos.
E o terceiro assumia a responsabilidade pelo nosso transporte escolar diário.
Em menos de dois dias, o profissional selecionado para assumir as funções de substituição apresentou-se ao serviço.
Contudo.
Ao fixar os olhos naquela fisionomia que emanava simplicidade e retidão, fiquei estática no mesmo lugar.
Aquele senhor de meia-idade era alguém que eu já conhecia.
Na minha vida anterior, após o resgate de Isadora pelos Albuquerque.
Devido à minha permanência na casa, ela convertia o cotidiano do lar em um inferno diário com suas crises de fúria.
Sem alternativas viáveis para harmonizar o ambiente, a Senhora Albuquerque formalizou a proposta para que eu desocupasse a mansão.
No momento da minha saída, ela efetuou a transferência de uma soma financeira, montante este suficiente para garantir a locação de um imóvel e o meu sustento ao longo de todo o último ano do ensino médio.
No entanto, mal transpús as linhas do condomínio, fui interceptada pela abordagem de Isadora.
Ela fitou-me com um semblante carregado de profundo desprezo.
"Letícia, a sua capacidade de demonstrar desfaçatez ultrapassou qualquer limite aceitável? A nossa família arcou com a sua criação até este momento, e você ainda ostenta a falta de vergonha de aceitar os recursos financeiros da minha mãe?"
"Se eu me encontrasse na sua posição, preferiria a degradação das ruas a aceitar essa caridade."
"Demonstre o mínimo de dignidade e efetue a devolução imediata desses valores para as minhas mãos."
Isadora submeteu-me a uma enxurrada de ofensas verbais.
Ato contínuo, confiscou o meu aparelho celular de forma autoritária, realizando a transferência compulsória da totalidade dos recursos até zerar o saldo.
No meio da noite.
Eu arrastava minha mala de viagem pelas calçadas, vagando sem rumo pelas vias públicas.
No exato instante em que eu debatia internamente sobre a conveniência de acionar algum colega de classe para solicitar um auxílio financeiro emergencial.
Um veículo de altíssimo luxo deteve-se bem diante da minha trajetória, e o senhor de meia-idade que o pilotava, após dirigir-me breves questionamentos, estendeu-me a quantia de cinquenta mil yuans em espécie, arrancando com o automóvel logo em seguida, sem hesitar.
Fiquei em estado de total aturdimento.
Felizmente, aquele benfeitor teve o cuidado de deixar um canal de contato telefônico.
Três meses mais tarde, após ser reconduzida à mansão por Henrique.
Meu intuito inicial concentrou-se em efetuar a restituição daquela quantia ao senhor, contudo, ele respondeu através da linha informando que o reembolso era desnecessário.
A partir daquele telefonema, ele jamais voltou a atender as minhas chamadas.
Por um longo período, cheguei a cogitar que havia sido agraciada por alguma divindade da fortuna.