Por que não fora eu a ter um rim arrancado?
Por que eu tive que usurpar a vida que pertencia à sua irmã Isadora?
Aquele casamento maldito finalmente encontrou o seu fim com a minha morte.
No exato milésimo de segundo em que fui arremessada pelo caminhão, percebi com clareza que não sentia dor alguma.
Pelo contrário, fui tomada por uma sensação de alívio sem precedentes.
Que maravilha!
Eu e a família Albuquerque finalmente estávamos quites, tudo estava devidamente zerado.
Se houvesse uma próxima vida.
Eu com certeza, com toda a certeza absoluta, jamais aceitaria ser adotada por eles de novo.
13
Talvez aquela máxima esteja correta.
Quanto menos você deseja ver alguém, mais essa pessoa surge bem diante dos seus olhos.
Isadora acabou sendo transferida justamente para a minha sala de aula.
Aquilo era algo que eu jamais poderia prever.
Parecia que havia um carma bizarro nos unindo.
Felizmente, uma sala de aula contava com mais de quarenta alunos.
Se eu me mantivesse firme no propósito de não interagir com ela, nós mal trocaríamos duas palavras.
Tratá-la como uma completa desconhecida até o término do ensino fundamental era um plano perfeitamente executável.
Contudo, essa minha ilusão foi desfeita em um piscar de olhos.
Tudo começou durante um intervalo entre as aulas.
Ao ir ao banheiro feminino, ouvi por acaso um clamor desesperado vindo da última cabine do fundo.
Aproximei-me e notei que a porta havia sido trancada por fora com um pedaço de madeira atravessado na tranca.
Assim que removi o obstáculo, a pessoa que saiu lá de dentro, para minha surpresa, era Stella.
"Stella, quem prendeu você aqui dentro?"
Seus olhos esquivaram-se imediatamente e ela balançou a cabeça com veemência, como se fosse um chocalho.
"Ninguém, não foi ninguém."
Depois disso.
Situações semelhantes repetiram-se mais duas ou três vezes.
Tentei questionar Stella, mas ela permanecia irredutível em seu silêncio absoluto.
Até que um dia, por volta das oito e meia da noite.
Eu voltava para casa após comprar algumas coisas no supermercado da entrada do condomínio e me deparei com Stella, vestindo roupas finas demais para o frio, encolhida sozinha perto de um canteiro da área verde, soluçando baixinho.
Foi naquele momento que finalmente tive a certeza de quem era a mentora daquelas agressões frequentes.
"Foi a Isadora quem expulsou você de casa?"
Ao me avistar, Stella levantou-se apressadamente, tentando enxugar as lágrimas do rosto.
Ela parecia querer negar a realidade mais uma vez.
"Não, não foi."
"Então por que você está aqui sozinha, no meio do nada, em vez de ir para casa?"
Stella gaguejou, visivelmente sem argumentos para camuflar a situação.
Uma chuva fina começava a cair do céu e as vestes dela eram inadequadas para o clima.
Hesitei por um breve segundo e acionei meu relógio inteligente de comunicação.
"Davi, eu poderia levar uma colega da escola para passar um tempo aqui em casa?"
Houve uma breve pausa do outro lado da linha.
"Onde você está?"
Cinco minutos depois, Davi surgiu segurando um guarda-chuva para me buscar.
Stella nos acompanhou até a residência dos Vasconcelos com passos hesitantes e encolhidos.
Ao notar que ela ainda não havia jantado, Davi pediu para a Dona Maria preparar uma tigela de sopa com macarrão para ela.
"Foi a Isadora quem te expulsou?"
Perguntei a Stella novamente.
Desta vez, ela não esboçou negação e apenas abaixou a cabeça em silêncio.
Estando mais próxima, notei marcas roxas de beliscões e apertos em seus pulsos.
"Vocês brigaram?"
Stella cobriu a região com a manga do casaco por puro instinto, balançando a cabeça negativamente.
Ao nosso lado, Davi soltou um estalo de desdém com a língua:
"Ela nunca teria coragem de enfrentar aquela bruxinha, está mais para ter apanhado calada de um lado só."
Bruxinha?
"De quem você está falando?"
"De quem mais seria? Da Isadora, claro."
Davi relatou que Isadora sempre tivera um comportamento rebelde e cruel, sendo famosa por suas travessuras em todo o condomínio.
Por essa razão, os moradores mirins haviam lhe dado aquele apelido.
Como eu parecia cética.
Davi fez questão de afastar o cabelo para me mostrar uma cicatriz sutil em sua testa.
Ele contou que, no inverno do ano retrasado, estava brincando de guerra de bolas de neve com alguns colegas do condomínio.
Uma das bolas de neve acabou atingindo acidentalmente o ombro de Isadora. Mesmo estando todos cobertos por casacos grossos de inverno.
E sem que o impacto representasse qualquer dor real.
A garotinha teve um ataque de fúria descontrolado, agarrou uma pedra pontiaguda do chão e avançou contra ele feito um leopardo, desferindo um golpe direto em sua cabeça.
Fiquei estática.
Na vida passada.
Quando Isadora retornara para a mansão.
Sua personalidade era instável e agressiva, resultando em frequentes crises de fúria domésticas.
A Senhora Albuquerque costumava chorar as mágoas diante de mim, relembrando o quanto Isadora fora uma criança doce, meiga e obediente em seus primeiros anos de vida.
Dizia que, se ela tivesse sido criada sob os cuidados da família, com certeza seria a moça mais sensata e brilhante de todas.
Contudo.
A Isadora descrita por Davi não parecia em nada com a doce princesinha idealizada pelas memórias da Senhora Albuquerque.
Será que tudo aquilo não passava do mais puro filtro de amor materno?
Stella terminou de comer.
Dediquei mais alguns minutos para confortá-la.
De repente, a campainha da mansão ecoou.
O tio Vasconcelos não se encontrava no país, tendo viajado para o exterior para tratar de negócios.
A tia Vasconcelos havia saído para celebrar o nascimento do bebê de uma amiga e avisara que retornaria mais tarde.
Imaginei, logicamente, que fosse ela chegando de viagem.
Ao abrir a porta, porém, deparei-me com uma fisionomia totalmente inesperada.
Minhas feições endureceram instantaneamente.
"Por acaso a Stella..."
Talvez intimidado pela frieza cortante que tomou minha expressão.
As palavras de Henrique cessaram no ar.
Ele fitou-me com um olhar repleto de confusão.
Mantivemos o contato visual por alguns segundos em silêncio.
Percebendo que havia demonstrado minha hostilidade de forma evidente demais, suavizei sutilmente a postura e dei um passo para o lado, abrindo caminho.
"Stella, seu irmão está aqui."
Ao ouvir o chamado, Stella levantou-se em um salto, correu em direção à porta com passos rápidos e pronunciou com a voz embargada de mágoa:
"Irmão."
Henrique olhou para ela e soltou um suspiro brando.
"Eu já chamei a atenção da Isadora, não fique triste. Vamos, venha comigo de volta para casa."
Stella fungou levemente e seguiu os passos dele de forma obediente.
Após caminhar alguns metros, ela pareceu lembrar-se de algo, virou-se e acenou para mim.
"Letícia, muito obrigada por tudo hoje à noite, estou indo."
Eu me preparava para fechar a porta.
Quando meus olhos cruzaram diretamente com o olhar de Henrique.
Ele mantinha a atenção fixa em mim, com uma expressão carregada de análise, escrutínio e pura estranheza.
Bum.
Fechei a porta na cara dele sem o menor pudor.
14
Comecei a questionar se minhas atitudes haviam sido corretas.
Sim.
O motivo pelo qual Isadora conseguiu retornar para a família Albuquerque de forma tão célere nesta vida foi uma mensagem de texto anônima que enviei ao Senhor Albuquerque no passado.
Na vida anterior, o resgate de Isadora daquele vilarejo distante chegara a ser veiculado nos principais jornais.
O vilarejo rural para onde ela fora levada após o sequestro era um reduto amplamente conhecido pela polícia como um núcleo de tráfico humano.
Muitas jovens universitárias haviam sido mantidas em cativeiro ali e forçadas a constituir famílias.
Embora minha convivência com Isadora no passado tivesse sido um inferno.
Se um simples gesto anônimo da minha parte pudesse libertar aquelas jovens daquele pesadelo.
Eu considerava meu dever moral agir sem hesitação.
O que eu jamais supus era que o destino de Stella seria arrastado e transformado por essa minha intervenção no tempo.
Originalmente, ela deveria trilhar o mesmo caminho que o meu, crescendo sob a proteção estável da mansão Albuquerque até completar seus dezoito anos.
Mas agora, com o retorno antecipado de Isadora, sua realidade tornara-se extremamente hostil e vulnerável.
15
Minhas previsões mostraram-se exatas.
Após aquele episódio, Stella passou a ser colocada para fora de casa por Isadora de forma recorrente.
Houve ocasiões em que, já passava das nove e meia da noite, e eu ainda a avistava sentada sozinha na beira do canteiro de flores.
Em algumas vezes, Henrique vinha ao seu encontro para buscá-la.
Em outras, era eu quem a acolhia para dentro da residência dos Vasconcelos.
E após eu intervir em favor de Stella por algumas vezes.
Isadora acabou direcionando toda a sua hostilidade contra mim.
Em mais um fim de tarde marcado pela chuva, encontrei Stella tremendo de frio em um banco da praça do condomínio, restando-me apenas segurá-la pelo braço para trazê-la comigo.
Por azar, fomos interceptadas pela aparição repentina de Isadora.
Ela fixou os olhos em Stella, com as feições infantis tomadas por uma ira nítida.
"Que ótimo! Eu sempre me perguntava como você conseguia se safar intacta todas as vezes, agora vejo que encontrou uma cúmplice."
Fitei-a com um olhar gélido.