Henrique com apenas oito anos de idade.
Stella deu alguns passos rápidos à frente, puxando a manga da blusa de Henrique, transbordando felicidade.
"Ah, Letícia, eu mudei de nome. Agora me chamo Stella Albuquerque. Este é meu irmão, Henrique. Podem se conhecer!"
Henrique olhou para mim e assentiu com a cabeça de forma quase imperceptível.
Um contraste brutal com a efusividade de Stella.
A personalidade dele parecia ter sido sempre assim.
Diante de pessoas desconhecidas, ele sempre mantinha uma postura fria, altiva e distante.
Na vida passada, logo quando fui adotada pelos Albuquerque, ele quase nunca dirigia a palavra a mim por iniciativa própria.
Cheguei a pensar por muito tempo que ele me odiava.
Foi só depois de muito tempo de convivência que nós dois começamos a nos aproximar aos poucos.
"Irmão, ela era minha amiga no orfanato, o nome dela é Letícia."
"A propósito, Letícia, você mudou de nome também?"
Mudar de nome?
Fiquei um pouco pensativa, mas logo balancei a cabeça negativamente:
"Ainda não."
Na vida anterior, após ser adotada pelos Albuquerque, eu de fato mudei de nome.
Passei a me chamar Letícia Albuquerque.
Esse nome me acompanhou até os meus dezoito anos.
Até o dia em que Isadora retornou para a mansão.
Ao ouvir que meu nome carregava o sobrenome da família e ao me ver chamar os Senhores Albuquerque de pai e mãe, Isadora teve uma crise de fúria terrível, chamando-me de cínica e sem-vergonha.
Acusou-me de roubar seus pais e seu irmão.
Pouco tempo depois, a Senhora Albuquerque me procurou, pedindo que eu passasse a chamá-la apenas de tia.
Compreendi a mensagem dela imediatamente.
A partir daquele momento, passei a chamar a Senhora Albuquerque de tia e o Senhor Albuquerque de tio.
Até mesmo Henrique, deixei de chamá-lo de irmão.
A família Albuquerque tratou rapidamente de remover o sobrenome deles dos meus documentos, deixando apenas meu nome de registro original.
Somente após essa sucessão de atitudes foi que Isadora se acalmou um pouco.
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"Letícia, qual é o sobrenome da família que adotou você? Talvez meu irmão conheça eles. Eu vou poder ir à sua casa para brincar?"
Stella...
Digo, Stella Albuquerque continuava a tagarelar ao meu lado.
Para ser sincera.
Eu já estava com vontade de ir embora.
Essa menina tinha uma personalidade um tanto sem filtros.
Ela ainda não havia percebido que tanto eu quanto Henrique não tínhamos o menor interesse em socializar um com o outro.
"Nós somos tão íntimos assim? Por que ela deveria deixar você ir à casa dela brincar?"
Uma voz infantil e um tanto ríspida intrometeu-se na conversa.
Olhando em direção ao som.
Era Davi.
Stella ficou visivelmente sem graça ao ver aquela nova presença surgir de repente ao meu lado.
"Quem é ele?" ela perguntou por instinto.
Hesitei por um instante e respondi:
"Meu irmão, Davi."
Os olhos de Stella arregalaram-se imediatamente, fixando-se nele.
"O que está fazendo aqui?"
Davi direcionou a pergunta a mim.
"Nada de mais", respondi em voz baixa.
"Não fique conversando com qualquer um por aí, vocês nem são íntimos. Vamos, eu te levo de volta para a sua sala."
Stella, afinal de contas, era apenas uma garotinha e seu rosto transpareceu o constrangimento.
Henrique lançou um olhar breve para Davi, permanecendo em silêncio do início ao fim.
Ao retornarmos para a minha sala.
"Alguém na sua classe está te incomodando? Se tiver, é só me falar."
Davi disse-me com toda a seriedade do mundo.
Apesar das feições infantis daquele rosto, as palavras dele soavam com a gravidade de um adulto.
Não pude conter um sorriso terno.
Embora meu corpo físico fosse o de uma criança de seis anos.
Minha alma era a de uma adulta de vinte e cinco anos.
Olhando para todo o ensino fundamental daquela escola, dificilmente alguém conseguiria me intimidar.
Ainda assim, assenti de forma dócil para tranquilizar Davi.
"Tudo bem."
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Foi dessa maneira que fui acolhida pela família Vasconcelos.
A Senhora Vasconcelos nunca tocou no assunto de alterar meu nome, pelo contrário, ela me disse de forma leve:
"Letícia soa muito melhor, não há necessidade de mudar nada."
Talvez percebendo minha hesitação e timidez iniciais, ela mesma tomou a iniciativa de sugerir que eu a chamasse de tia Vasconcelos, e que chamasse o pai de Davi de tio Vasconcelos.
No fundo, eu sabia bem que o principal motivo para a família Vasconcelos ter me adotado era satisfazer o desejo de Davi de ter uma irmãzinha para brincar.
Às vezes eu achava aquilo inacreditável.
Existirem pais que mimavam o filho a esse ponto.
Apenas para dar um par de brincadeiras ao menino, irem até um orfanato adotar uma filha.
Com certeza.
Crianças nascidas em berço de ouro nunca sofriam por falta de afeto.
Não gastei mais energia tentando entender por que as escolhas da família Vasconcelos nesta vida divergiam do passado.
Apenas atribuí o fato ao efeito borboleta.
Eu não queria ser adotada pelos Albuquerque.
Mas a família Albuquerque inevitavelmente adotaria uma menina de qualquer maneira.
Como eu havia previsto.
Ao não me escolherem, eles simplesmente acolheram outra criança no meu lugar.
Na vida passada, o destino trágico de Isadora parecia estar selado desde o princípio.
Quanto a esta vida...
12
Não fazia muito tempo que eu havia sido adotada pela família Vasconcelos.
Um acontecimento de grandes proporções abalou o Condomínio Vista Alegre.
A verdadeira filhinha da família Albuquerque, que havia sido levada por uma babá e estava desaparecida há quase um ano inteiro, fora finalmente encontrada.
Sim.
Isadora estava de volta.
O condomínio inteiro ficou em polvorosa.
As pessoas da família Albuquerque, naturalmente, estavam radiantes, quase loucas de tanta alegria.
Disseram que a Senhora Albuquerque não apenas doou uma quantia astronômica para aquele místico de antes.
Como também planejava dar uma festa na mansão por três dias consecutivos para celebrar.
A tia Vasconcelos também recebeu o convite para a festa.
Morando no mesmo condomínio fechado, quando algo tão grandioso acontecia na casa de um vizinho, era de praxe ir parabenizar, por uma questão de cortesia e bom senso.
A tia Vasconcelos perguntou a mim e ao Davi se gostaríamos de ir.
Recordando a minha vida passada, a convivência com Isadora nunca fora das melhores.
Desde o momento em que me casei com Henrique, ela passou a me tratar praticamente como uma inimiga mortal.
E eu, por minha vez, há muito tempo já não nutria aquela culpa e insegurança iniciais em relação a ela; no fim, restara apenas a mais pura indiferença.
Obviamente, eu não tinha a menor intenção de comparecer, de modo que balancei a cabeça negativamente sem hesitar.
Davi demonstrou o mesmo desinteresse.
"Por que iríamos a um lugar desses? Prefiro ficar em casa jogando xadrez com a Letícia."
No entanto, as duas famílias moravam tão perto uma da outra.
Mesmo que eu tentasse me esquivar, seria impossível evitá-los para sempre.
Uma semana depois, cruzei com Isadora na escola.
Isadora com apenas seis anos de idade.
Vestindo o uniforme escolar azul-marinho, caminhando lado a lado com Henrique.
Talvez por ter passado um ano inteiro perdida no interior após o sequestro, ela parecia um pouco bronzeada e consideravelmente magra.
Sua estatura era muito semelhante à minha.
Os traços do rosto lembravam muito os da Senhora Albuquerque.
A testa proeminente, os olhos profundos e expressivos, negros e brilhantes.
Não deixava de ser uma garotinha bonita.
De repente, o cadarço de seu tênis desamarrou.
Isadora olhou para baixo, franziu os lábios fazendo um bico e direcionou um olhar manhoso para o irmão ao seu lado.
Aquele Henrique que sempre fora frio, altivo e habituado a manter todos à distância de um braço.
Ao ver a cena, agachou-se sem o menor vestígio de hesitação para amarrar o cadarço da irmã.
Em seguida, levantou-se e acariciou a cabecinha dela com profundo afeto.
Um Henrique tão doce, gentil e acessível assim; somente alguém como eu, que crescera ao lado dele no passado, seria capaz de mensurar o quão raro aquilo era.
Provavelmente, era apenas diante da própria irmã de sangue que Henrique revelava uma faceta tão terna e calorosa.
A ligação entre os dois irmãos sempre fora inabalável.
Na vida anterior, Isadora retornara para casa aos dezoito anos.
Ao descobrir que a irmã havia abandonado os estudos aos quatorze, dado à luz aos dezesseis e tido um rim removido aos dezessete.
A dor estampada nos olhos de Henrique quase o consumiu por completo.
Ele simplesmente não conseguia aceitar que o destino da irmã tivesse se tornado aquela ruína.
Não conseguia aceitar que eu, uma mera órfã adotada pelos Albuquerque, estivesse vivendo de forma saudável, radiante e impecável.
Para se vingar de mim, ele não mediu esforços e chegou ao ponto de se casar comigo.
Seu objetivo foi plenamente alcançado.
Os três anos de casamento com ele foram os mais excruciantes da minha existência.
Ele começou me submetendo ao gelo do desprezo e da indiferença absoluta.
Aos poucos, evoluiu para a tortura psicológica e humilhações diárias.
Ele costumava apertar meu pescoço, esgoelando-se em um fúria histérica.
Por que não fora eu a ser levada para o interior?