O corredor ficou em silêncio por um instante.
O rosto da Sra. Duarte mudou levemente e logo ela soltou uma risada fria: — Coagir e subornar? Menina, não use palavras tão pesadas.
— Estou ajudando vocês a reconhecerem a realidade.
— A realidade é — interrompi suavemente — que nem todo mundo está disposto a se curvar só porque você tem dinheiro.
Ela me encarou, e o gelo no seu olhar aumentou visivelmente.
— Você realmente tem uma língua afiada.
— Não é de admirar que tenha deixado minha filha naquele estado.
Não respondi a isso, apenas continuei: — Se a Alice realmente não consegue comer ou voltar para casa por causa do Lucas, quem ela deveria visitar não somos nós, mas um médico.
— Gostar de alguém não é aprisionar a pessoa, nem usar dinheiro para humilhá-la.
— O que a sua família ensinou a ela parece ser apenas "se eu quero, eu tenho que ter".
Assim que as palavras saíram, até o som da respiração no corredor pareceu parar.
Lucas olhou para mim de lado, com o cenho muito franzido, como se temesse que eu estivesse indo longe demais.
Mas eu não queria mais recuar.
Na vida passada eu recuei por tempo demais, até o ponto de quase não conseguir mais me respeitar.
E agora, eu só queria dizer aquelas palavras de forma honesta.
Não era para ganhar uma discussão.
Era apenas para que eles soubessem —
A suposta superioridade deles, o suposto controle sobre tudo, não podia fazer com que todos se calassem de medo.
O rosto da Sra. Duarte fechou-se completamente.
Os dois homens atrás dela, provavelmente motoristas ou seguranças, entreolharam-se sem coragem de intervir.
Após um longo tempo, ela disse entre dentes: — Vocês realmente não sabem o que é bom para vocês.
Eu sorri levemente.
— Talvez seja porque não precisamos da sua aprovação.
— E muito menos do seu dinheiro.
Alguém no corredor soltou uma exclamação de surpresa.
Claramente, o número de vizinhos observando estava aumentando.
A Sra. Duarte provavelmente percebeu que continuar com aquilo só seria mais vergonhoso; após várias mudanças de expressão, ela finalmente se abaixou e pegou o cartão bancário do chão.
Ela se empertigou, olhou primeiro para o rosto do Lucas e depois, lentamente, moveu o olhar para mim.
Aquele olhar era frio o suficiente para congelar.
— Está bem.
— Vocês têm princípios, eu vou me lembrar disso.
— Só não sei se, quando o futuro de vocês sumir e os caminhos se fecharem, vocês ainda conseguirão ser tão teimosos.
Dito isso, ela virou-se e saiu.
O som dos saltos altos nos degraus era agudo, como se estivesse arranhando os nervos de alguém.
Depois que ela e seus acompanhantes partiram totalmente, os vizinhos curiosos também foram se dispersando.
Uma senhora, ao passar, não resistiu em nos olhar duas vezes; parecia querer dizer algo, mas apenas suspirou.
As luzes foram se apagando uma a uma.
O corredor estreito recuperou o silêncio.
Percebi, com atraso, que a palma da minha mão estava suada e meus dedos tremiam levemente.
Assim que aquela força que me impulsionava se dissipou, senti-me exausta.
Lucas disse baixo: — Vamos entrar para conversar.
De volta ao quarto, assim que fechei a porta, minhas pernas fraquejaram e quase não consegui parar em pé.
Lucas estendeu a mão para me apoiar.
— Por que você quis ser forte desse jeito?
O tom dele não era pesado, trazia até uma ponta de uma rara resignação.
Apoiei-me na porta para me recuperar e olhei para ele: — E eu deveria assistir a ela humilhando você daquele jeito?
Lucas silenciou.
Um momento depois, disse baixo: — Eu não me importo com o que ela diz.
— Mas eu me importo.
Respondi quase instantaneamente.
— Lucas, eu sei que você aguenta. Mas eu não quero que você engula tudo sozinho.
— Com que direito elas pisam na dignidade alheia e ainda acham que é um favor?
— Com que direito?
No fim, minha voz deu uma leve fraquejada.
Lucas olhou para mim, e algo profundo pareceu se agitar em seus olhos.
A mão que segurava meu braço apertou-se levemente.
— Linne.
— Sim?
— No futuro, em momentos assim, não se coloque à frente tão rápido.
Fiquei atônita.
— Por quê?
— Porque se elas realmente enlouquecerem, você será o primeiro alvo.
Ao dizer isso, sua expressão era séria, claramente não era brincadeira.
Fiquei sem palavras.
Lucas baixou o olhar, com a voz rouca: — Eu ser xingado não é nada, mas não quero que você sofra junto.
O quarto ficou extremamente silencioso.
Lá fora, ouvia-se o som de uma moto passando e uma criança reclamando que queria ver desenhos.
Eram sons comuns e cotidianos.
Mas meu peito parecia ter sido atingido por algo pesado, sentindo ondas de ternura e dor.
— Mas você também não é alguém que deveria ser tratado assim por elas — eu disse suavemente.
Lucas olhou para mim e, após um tempo, subitamente levantou a mão e, como naquela madrugada distante, deu tapinhas desajeitados nas minhas costas.
— Eu sei.
— Por isso temos que sair daqui logo.
A visita da Sra. Duarte esta noite tinha exposto toda a situação.
Ela não pararia por ali.
Nem a Alice.
Tínhamos planejado mudar no domingo, mas agora parecia que não deveríamos esperar nem mais um dia.
Levantei a cabeça: — Vamos arrumar tudo esta noite.
Lucas não hesitou: — Está bem.
Naquela noite, quase não dormimos.
Livros antigos, roupas, simulados, panelas, cobertores... tudo o que podia ser levado foi sendo organizado pouco a pouco. Ao juntar tudo, percebi que, afinal, na nossa pobreza de todos esses anos, não tínhamos acumulado muitos bens materiais.
Lucas foi pedir emprestado um triciclo de carga.
Às quatro da manhã, o céu ainda não tinha clareado e todo o beco estava em silêncio. Aproveitamos esse horário para levar as coisas para o novo endereço, viagem após viagem.
Metade das luzes do poste no bairro antigo estava queimada, e o som das rodas sobre as pedras fazia um ruído rítmico.
Eu seguia atrás segurando uma caixa de livros, com o braço dormente de cansaço, mas com o coração estranhamente em paz.
Parecia uma fuga.
E parecia que estávamos finalmente partindo de verdade.
Na última viagem, o horizonte já começava a clarear.
Paramos no quarto alugado quase vazio e olhamos para aquele pequeno espaço onde vivemos por tanto tempo; ninguém disse nada.
Era muito simples, quente no verão, ventava no inverno e as paredes estavam amareladas, a cozinha era tão pequena que mal dava para se virar.
Mas, afinal, ele abrigou muitos dos nossos anos mais difíceis e mais calmos.
Eu disse suavemente: — Vamos.
Lucas assentiu e fechou a porta para mim.
Quando ouvi o clique da fechadura, tive uma sensação indescritível de estranheza.
Era como se estivesse me despedindo formalmente de uma parte do meu eu do passado.
14
O novo endereço era mais apertado e barulhento do que imaginei.
Desde cedo, ouvia-se o pregão dos vendedores de café da manhã lá embaixo; ao lado, não sabia em qual casa o rádio transmitia as notícias matinais. Pela janela, os fios elétricos se emaranhavam e pombos batiam as asas partindo do telhado oposto, deixando uma fina poeira para trás.
Mas eu, parada à janela, observando aqueles estranhos apressados lá embaixo, senti-me segura pela primeira vez.
Ali, ninguém sabia quem éramos.
Ninguém parava propositalmente para nos avaliar.
No meio da multidão, a pobreza, o cansaço e a pressa tornavam-se as coisas mais comuns do mundo.
Éramos como duas gotas de água fundindo-se em um rio; finalmente, não estávamos mais em evidência.
Após a mudança, eu e o Lucas dormimos apenas duas horas antes de corrermos para a escola.
No caminho, ele comprou leite de soja e pães recheados para mim; dei duas mordidas, mas meu estômago continuava apertado de vazio, embora o cansaço falasse mais alto.
Contudo, assim que cruzei o portão da escola, forcei-me a suprimir toda a exaustão.
Pois nesta semana começariam os testes de competência do projeto de intercâmbio.
Eu não podia falhar logo agora.
Logo após a segunda aula da manhã, fui notificada para buscar o cronograma dos testes na secretaria.
Quando a professora me entregou o papel, sua expressão era razoavelmente gentil; ela até fez questão de dizer: — Prepare-se bem, não se deixe afetar pelas fofocas lá fora.
Peguei o cronograma e senti um leve alento.
Parecia que, internamente, nem todos na escola se curvavam à pressão da família Duarte.
Pelo menos ainda havia professores dispostos a reservar oportunidades para alunos realmente capacitados.
Saindo da secretaria, olhei para o cronograma em minhas mãos: horários, locais e etapas estavam claramente descritos.
Prova escrita, entrevista oral e avaliação de conhecimentos gerais.
Cada passo dependeria apenas do meu próprio esforço para ser superado.
Essa sensação, ao contrário do que se poderia esperar, trouxe-me paz.
Mas essa paz não durou muito.
Ao meio-dia, algo aconteceu na sala.
Alguém colocou uma foto dentro da minha mesa.
Não era uma foto atual.
Era da vida passada.