Alguns segundos depois, ele riu de repente.
Foi uma risada gélida.
— Certo.
— Você tem coragem.
Ele recuou para o carro e, antes de fechar a porta, lançou-me um último olhar.
— Espero que você continue tendo essa coragem no futuro.
A porta do carro bateu com força, e o veículo preto rapidamente se afastou.
Só quando as lanternas desapareceram é que os meus nervos relaxaram e minhas pernas fraquejaram.
Lucas virou-se para mim, com o cenho muito franzido.
— Você não devia ter provocado ele.
Assenti: — Eu sei.
— Então por que...
— Porque eu precisava que ele soubesse — eu o interrompi, com a voz baixa mas clara — que eu não sou alguém que ele pode manipular como quiser.
Lucas ficou em silêncio.
Olhei para a rua escura e vazia, sentindo a palma da mão gelada.
Eu sabia que isso deixaria o Gabriel mais descontente e tornaria as coisas mais perigosas.
Mas eu sabia ainda mais que, se eu apenas demonstrasse medo e recuo, ele me trataria como a pessoa da vida passada que podia ser moldada conforme sua vontade.
Eu queria deixá-lo desconfortável, fazê-lo saber que não sou um alvo fácil.
Mesmo que esse "desconforto" atraísse uma atenção ainda mais intensa dele.
De volta ao quarto, quase não dormi.
Na manhã seguinte, assim que cheguei à sala, o Professor Souza chamou a mim e ao Lucas para a coordenação.
Lá estavam ele e o diretor de ensino.
Ao ver aquela cena, meu coração já desanimou.
Como esperado, o diretor empurrou sua xícara de chá e, com um tom que parecia cordial mas não dava margem para negociação, disse:
— Os professores conhecem a situação de vocês e realmente estávamos considerando as inscrições.
— Mas surgiram alguns boatos desagradáveis na escola recentemente.
— Alguns alunos relataram que vocês têm contato frequente com elementos marginais fora da escola, o que gera uma má impressão.
Meus dedos se apertaram.
Gabriel.
Ou melhor, Alice.
Eles agiram mais rápido do que eu imaginei.
Lucas disse com voz grave: — Não são marginais, são alunos desta escola.
O diretor sorriu: — Se são alunos ou não, não importa. O que importa é a repercussão. A escola precisa ser mais cautelosa com as recomendações de vocês agora.
O Professor Souza estava com uma expressão ruim, mas não podia nos defender abertamente. Ele apenas disse de forma velada: — Podem voltar agora. Sejam discretos e não causem mais problemas.
Ao sair da coordenação, parei no corredor com o peito apertado.
Lucas fechou os punhos, com as veias da têmpora saltando.
— Eles fizeram isso de propósito.
— Sim.
— E o que fazemos agora?
Respirei fundo para me acalmar.
— Ainda há uma chance.
Lucas olhou para mim.
Levantei a mão e comecei a alisar, pouco a pouco, a barra do meu uniforme que eu tinha amassado de nervosismo.
— Já que o caminho da recomendação foi bloqueado, vamos pelo caminho público.
— Notas, rankings, avaliações, competições... se fizermos tudo de forma impecável, eles não conseguirão agir tão facilmente às claras.
— E — fiz uma pausa — precisamos mudar de casa primeiro.
Sermos seguidos uma vez significa que haverá uma segunda.
Enquanto eles souberem onde moramos, estaremos sempre vulneráveis.
Lucas assentiu: — Vou pedir dispensa à tarde para procurar um lugar.
— Não, seria óbvio demais — balancei a cabeça. — Esperamos o fim de semana. Por enquanto, vamos manter a calma.
Dito isso, lembrei-me de algo e corri para a sala para pegar o celular.
Como eu esperava, havia um novo e-mail recebido dez minutos antes.
O remetente era o grupo de um projeto de intercâmbio de uma escola de elite de outro estado.
Meu coração deu um salto.
Esse era o projeto de intercâmbio para o qual eu tinha sido selecionada na vida passada.
Naquela época, como o dinheiro para a mensalidade e o custo de vida se tornaram um problema, eu não pude ir e, depois que tudo saiu do controle, não houve mais chance.
Mas agora, o aviso chegou antecipadamente.
Abri o e-mail rapidamente e, ao ler a linha mais importante, quase parei de respirar:
[Este plano de intercâmbio oferece bolsas parciais e auxílio-moradia; a lista final dependerá dos resultados do teste de competência.]
Este era um novo caminho.
Não dependia de favores de ninguém, nem de esmolas da escola, mas de uma oportunidade conquistada por mim mesma.
Mais importante ainda: se eu conseguisse essa vaga, poderia deixar esta cidade temporariamente, saindo da visão deles.
Fiquei encarando a tela, com as pontas dos dedos tremendo.
Talvez esse fosse o primeiro passo para mudar o jogo.
11
Durante o almoço, mostrei o e-mail ao Lucas.
O refeitório estava barulhento, com o som de bandejas e conversas de alunos se misturando, mas entre mim e o Lucas parecia haver uma bolha de silêncio.
Ele leu a mensagem e ficou sem falar por um bom tempo.
Depois de um tempo, perguntou baixo: — Você quer ir?
Olhei para ele.
Na verdade, eu já tinha feito essa pergunta a mim mesma.
Na vida passada, quando fui selecionada, fiquei muito feliz. Foi a primeira vez que senti que a pobreza não significava que o mundo estaria sempre fechado para mim; que alguém como eu poderia conseguir um passaporte para o futuro através de notas e esforço.
Mas depois, aquela oportunidade se tornou o início da perseguição da Alice e do Gabriel.
Eles achavam ridículo que uma garota pobre, que mal conseguia pagar os estudos, sonhasse com um intercâmbio. Foi a partir daí que o Gabriel focou ainda mais em mim.
Na vida passada, achei que aquele foi o ponto de partida do desastre.
Mas agora eu percebi —
O erro não estava na oportunidade, mas no fato de eu não ter capacidade de me proteger na época.
Nesta vida, eu não podia deixar de agarrar a chance por puro medo.
Então, assenti: — Quero.
A mão do Lucas que segurava os pauzinhos hesitou.
— Então vá.
Fiquei surpresa.
— Você não está preocupado?
— Estou — ele foi sincero. — Mas não adianta nada se preocupar.
Ele me olhou com olhos escuros, calmos e sérios.
— Se esse é o caminho que você quer seguir, eu não vou te impedir.
— Eu apenas vou dar um jeito de garantir que você caminhe com segurança.
Senti meu nariz arder de repente.
Às vezes eu realmente sinto que o Lucas é gentil de um jeito muito desajeitado e obstinado.
Ele nunca diz palavras doces, mas sempre coloca a minha escolha em primeiro lugar nos momentos cruciais.
Baixei a cabeça para comer e disse abafado: — Não seja tão bom o tempo todo.
Ele pareceu sorrir de leve, com a voz suave: — Então dê o seu melhor.
Assenti.
— Eu vou dar.
Após a primeira aula da tarde, o Professor Souza me chamou em particular.
Ele me entregou a notificação impressa do projeto de intercâmbio com uma expressão complexa.
— Essa vaga sempre dependeu de notas e desempenho geral. Você sempre esteve nos planos.
— Mas você sabe que ultimamente... — Ele parou ali, como se não tivesse coragem de continuar.
Eu tomei a iniciativa: — Professor, tem gente tentando me impedir de ir?
Ele olhou para mim e suspirou.
— Tem coisas que eu não posso dizer abertamente.
— Mas o que eu posso te dizer é: se você vai ou não, depende de você conseguir uma nota muito superior no teste.
— Se você passar apenas raspando, é fácil para alguém te derrubar.
— Mas se a sua nota for muito maior que a dos outros, nem a escola pode mexer nisso facilmente.
Eu entendi.
Aquele era o maior aviso que ele poderia me dar.
— Eu entendi, professor.
— E outra coisa — ele baixou a voz. — Você e o Lucas devem ser discretos, especialmente sobre o fato de morarem fora da escola. Não deem motivos para falarem de vocês.
Meu coração vacilou.
Ele provavelmente já percebeu algo, mas preferiu não dizer abertamente.
Assenti com seriedade: — Obrigada, professor.
No caminho de volta para a sala, caminhei bem devagar.
Ainda havia neblina à frente, mas, pelo menos, não era mais um beco sem saída e escuro.
À noite, ao sairmos, eu e o Lucas não fomos juntos.
Não por outro motivo, mas porque vi a Alice no portão da escola.
Ela estava encostada naquele conhecido carro branco, de saia curta, com o cabelo muito bem arrumado e segurando um chá gelado, como se esperasse alguém.
Mas assim que ela me viu, o sorriso sumiu.
— Vá na frente — disse baixo para o Lucas.
Lucas franziu a testa: — Não.
— Ela veio atrás de você, não de mim — eu disse rápido. — Se você ficar aqui, ela só vai se empolgar mais.
Lucas não se mexeu.
Alice já vinha caminhando na nossa direção com seus sapatos de couro de salto.
— O quê, tem medo que eu a morda?
Ela inclinou a cabeça para o Lucas, com um tom de deboche evidente. — Lucas, você dá importância demais para ela.