O ar ficou em silêncio por um segundo.
O sorriso no rosto de Gabriel desapareceu gradualmente.
Ele me encarou, e a emoção em seus olhos foi afundando lentamente.
— Pessoas como eu?
Eu sabia que tinha tocado em seu ponto fraco.
Alguém como ele, acostumado a estar no topo, não suportaria ser definido por alguém com um desprezo tão direto.
Mas não me arrependi.
Na vida passada, o meu medo, a minha submissão e o meu silêncio só resultaram em um controle cada vez maior sobre mim.
Nesta vida, prefiro deixá-lo descontente a ser novamente alguém que ele possa manipular.
Endireitei as costas: — Por favor, dê licença. Preciso voltar para a sala.
Gabriel me olhou por um longo tempo e, de repente, soltou uma risada baixa.
— Certo.
Ele realmente se afastou para me deixar passar.
Apenas quando passamos um pelo outro, ele se inclinou perto do meu ouvido e sua voz foi leve como uma brisa:
— Eu vou me lembrar disso.
— Espero que, no futuro, você ainda consiga me odiar desse jeito.
Não parei de caminhar, segui direto.
Só quando dobrei o corredor é que percebi que as palmas das minhas mãos estavam encharcadas de suor.
Mesmo assim, não tinha intenção de recuar.
Porque estava ficando cada vez mais claro para mim —
Se eu quisesse fugir, não poderia passar a vida toda apenas tentando me esconder.
Quando certas pessoas fixam o olhar em você, a simples retração só as deixa mais excitadas.
7
Depois que as aulas terminaram ao meio-dia, o Lucas veio me procurar.
Fomos para o pequeno jardim atrás do prédio de salas de aula; lá tinha pouca gente, a sombra das árvores era densa e era um bom lugar para conversar.
Entreguei a ele o formulário que o Professor Souza me deu.
O Lucas leu com muita atenção e, quanto mais lia, mais o seu cenho se franzia.
— A competição por essa vaga deve ser enorme, não é?
— Sim — assenti. — Mas não é impossível.
Ele ficou em silêncio por um momento e perguntou em voz baixa: — Por que você resolveu perguntar sobre isso de repente?
Olhei para ele, pensei um pouco e decidi contar uma parte da verdade.
— Porque eu acho que a Alice não vai desistir fácil.
— E — fiz uma pausa — eu sinto que o Gabriel também está agindo de um jeito estranho.
O Lucas levantou o olhar: — Ele foi falar com você?
Não neguei.
A expressão do Lucas ficou sombria na mesma hora: — O que ele te disse?
— Nada demais, só estava me testando — dei um sorriso forçado para aliviar o clima. — Mas isso só me deu mais certeza de que não podemos continuar sendo passivos.
A mão do Lucas apertou o formulário com força.
Depois de um longo tempo, ele finalmente falou: — Me desculpa.
Fiquei atônita: — Por que está pedindo desculpas?
— Se não fosse por minha causa, eles não teriam fixado o olhar em você.
Ao dizer isso, havia uma culpa e uma repressão muito profundas em seus olhos, como uma noite pesada.
Senti uma pontada no peito e lembrei-me imediatamente da vida passada.
O Lucas da vida passada era sempre assim.
Chamava para si toda a responsabilidade por cada erro, como se ser pobre, ser impotente e não conseguir me proteger fossem os seus maiores pecados originais.
Mas, claramente, quem estava errado nunca foi ele.
Não resisti e dei um passo à frente, olhando-o com seriedade.
— Lucas, escuta bem.
— Não foi por sua causa que eu me tornei um alvo. Foi porque eles, por natureza, não são boas pessoas.
— Quando alguém comete uma maldade, a culpa não é da vítima, muito menos sua ou minha.
O Lucas ficou me olhando, perplexo, como se não esperasse que eu dissesse aquilo.
Respirei fundo e suavizei o tom, mas mantendo a firmeza.
— Você não deve nada a ninguém e não precisa se sacrificar para garantir o meu futuro.
— O meu futuro eu mesma vou conquistar.
— E o seu futuro deve ser escolhido por você.
O vento passou pelas copas das árvores, trazendo um farfalhar suave.
Algo brilhou levemente no olhar do Lucas.
Ele disse baixinho: — Mas se eu pudesse garantir que...
— Não pode garantir nada desse jeito — eu o interrompi. — Lucas, nem mesmo por mim, você deve fazer isso.
Eu olhava para ele com as pontas dos dedos tremendo.
— Me promete que, não importa o que a Alice diga ou quais condições ela te ofereça, você não vai aceitar.
— Mesmo que eu acabe em uma situação muito ruim, mesmo que eu não consiga mais estudar ou não tenha o que comer, você não pode se entregar por mim.
A respiração do Lucas travou.
Provavelmente foi a primeira vez que ele me viu enfatizar algo de forma tão visceral, quase perdendo o controle; seu olhar misturava choque e confusão.
— Por quê?
Por quê?
Porque eu vi o fim daquela estrada.
Porque eu sei que, uma vez que ele ceda, um erro levará a outro.
Porque o suposto "ser amado" ou "ser sustentado" não é um presente do destino para os pobres, mas sim um abismo coberto de açúcar.
Mas eu não podia dizer tudo isso agora.
Apenas olhei para ele com os olhos marejados e a voz rouca.
— Porque eu não suportaria.
— Lucas, eu não quero te ver infeliz, não quero que você se humilhe por minha causa, e muito menos quero que, cada vez que eu te veja no futuro, eu sinta que fui eu quem te empurrou para aquele buraco.
— Então, por favor, eu te imploro.
O Lucas olhou para mim, e o seu pomo de Adão se moveu lentamente.
Depois de um tempo, ele respondeu baixinho: — Está bem.
Aquela resposta foi leve, mas pareceu finalmente acalmar o meu coração que estava suspenso há duas vidas.
Senti um calor nos olhos e quase chorei de novo.
Felizmente, desta vez, cheguei a tempo.
A tempo de impedir que o pior acontecesse.
Enquanto conversávamos, ouvimos passos vindos do outro lado do jardim.
A Alice vinha caminhando com seus sapatos de couro, acompanhada por duas garotas, e parou na nossa frente.
O olhar dela passou pelo formulário na mão do Lucas, pousou no meu rosto e ela sorriu.
— Não admira que você ande me evitando tanto ultimamente, estava ocupada planejando isso.
Meu coração afundou.
Ela viu.
O Lucas se levantou, colocando-se na minha frente: — O que você quer?
— O que eu quero? — Alice desdenhou. — Só vim te avisar para não perder tempo.
Ela levantou a mão e tocou levemente no formulário.
— Alunos com a condição familiar de vocês realmente são o perfil ideal para essas bolsas. Uma pena que essas coisas não dependem só de notas.
Ela arqueou os lábios em um sorriso bonito e maldoso ao mesmo tempo.
— Imagina só o que acontece se eu der uma palavrinha com os organizadores?
Senti os meus dedos congelarem subitamente.
A expressão do Lucas ficou péssima: — Alice!
— Por que está me gritando? — Ela inclinou a cabeça. — Eu te dei uma oportunidade, você é quem não quis.
Dito isso, ela virou-se para mim.
— E você.
— Ontem não estava cheia de orgulho? Como é que hoje já começou a procurar uma rota de fuga?
Encarei o olhar dela e, por incrível que pareça, o meu coração foi se acalmando aos poucos.
Se antes eu ainda tinha uma ponta de esperança de que pudéssemos evitá-los sem um confronto direto, agora a Alice tinha deixado as coisas bem claras.
Ela não ia nos deixar em paz.
Ela estava disposta até a usar os recursos da família para bloquear as nossas oportunidades legítimas.
Sendo assim, não adiantava mais eu recuar.
Levantei-me devagar e olhei para ela: — Se você realmente gosta tanto do Lucas, por que não tenta fazer com que ele goste de você por vontade própria?
Alice soltou uma risada, como se tivesse ouvido a melhor piada do mundo.
— Vontade própria?
— O orgulho de vocês, pobres, é sempre usado nas coisas mais ridículas.
Ela cruzou os braços, com um olhar de total desprezo.
— Se eu quero uma pessoa, por que eu precisaria que ela estivesse de acordo?
— Eu tenho dinheiro, tenho contatos e tenho mil maneiras de fazer ele ficar do meu lado. Se ele está feliz ou não, isso importa?
Olhei para ela e senti uma profunda tristeza.
Não é que ela não entendesse o amor; ela simplesmente nunca aprendeu a respeitar os outros.
No mundo dela, gostar é sinônimo de exigir, e posse é sinônimo de vitória.
E o Lucas era apenas um objeto que ela desejava conquistar.
Eu disse baixinho: — Mas e se ele nunca gostar de você?
O sorriso da Alice congelou instantaneamente.
O que ela mais odiava, provavelmente, era ouvir aquilo.
Porque o fato de o Lucas não gostar dela era um golpe direto em seu ego orgulhoso.