O Duque curvou-se para recolhê-los.
— Obrigado. — Charles ajeitou os óculos e pegou os documentos entregues por Tallon, sem jeito. — O chão aqui é liso demais, que droga.
Só então ele percebeu que aquele homem usava luvas brancas repletas de anéis de pedras preciosas, com um visual de novo-rico.
Ele levantou o olhar e deixou escapar um som de admiração.
Embora as roupas do homem fossem estranhas — afinal, pouca gente usaria um uniforme britânico tão formal na rua hoje em dia — sua primeira reação foi de que se tratava de um Cosplay.
Mas a aparência daquele homem... era bonita demais. Cabelo prateado puro, olhos roxos profundos, alto e imponente... era uma beleza surreal.
Enquanto Charles divagava:
— Por favor, o senhor sabe onde fica o orfanato "Sunshine"?
— Hein?? Orfanato Sunshine? Se for o do Distrito X, ele já não foi demolido há muito tempo?
Assim que Charles terminou de falar, percebeu que a expressão do homem à sua frente tornou-se excitada. Ele pronunciou um nome familiar: Hilda.
— Quem é você para ela? — Charles pensou que, com a personalidade da Senhorita Hilda, ela não deveria ter amigos com esse estilo de novo-rico.
Mas o que ouviu em seguida o deixou boquiaberto. O homem bonito disse:
— Eu sou o marido dela.
0142 142 Tipos Estranhos
A princípio, Charles não acreditou muito; achou que aquele homem fosse algum tipo de vigarista.
Mas quando ele chamou, sem hesitar, a Senhorita Hilda pelo apelido e implorou, de cabeça baixa, para que lhe dissesse onde ela estava...
Charles teve certeza de que ele era mesmo o marido dela.
Era um sexto sentido masculino.
Infelizmente para Charles, as memórias do orfanato Sunshine eram muito antigas; ele fora adotado ainda no ensino fundamental.
Portanto, não tinha o contato da Senhorita Hilda, já que na época eram todos apenas crianças.
Charles indicou a localização do antigo terreno do "Sunshine" para Tallon; não ficava muito longe dali, cerca de vinte quilômetros.
Poderia pegar a linha X do metrô e depois o ônibus X.
Mas vendo a expressão de dificuldade do homem casado, Charles percebeu que ele parecia não entender nada do que era dito.
Por azar, Charles tinha um jantar importante naquela noite e precisava se apressar; não queria mais se questionar por que aquele homem, que parecia um nobre da realeza, não tinha celular em pleno século XXI ou sequer conseguia contatar a própria esposa.
Charles arrancou uma folha de seu bloco de notas, escreveu instruções detalhadas para Tallon e partiu apressado.
Tallon olhou confuso para o papel e recomeçou sua jornada de pedir informações, mas pelo menos agora tinha um objetivo.
O sol deixava um rastro alaranjado no céu. Seguindo as orientações dos transeuntes, ele chegou a uma via um pouco isolada.
Estava com fome e sede, mas não conseguia encontrar a entrada da estação de metrô que as pessoas mencionaram, e agora não havia pedestres por perto.
— ~~~
O som de um piano ecoou ao longe.
O Duque seguiu o som.
Havia uma cerejeira ali, com pétalas caindo sobre um piano de cauda branco.
Uma garota de cabelos rosa estava tocando.
A paisagem era belíssima.
Mas, no momento, o Duque só queria pedir informações.
Ele caminhou em direção a ela, prestes a falar.
— Precisa de algo? — Zhong Zhi, usando seus óculos escuros brilhantes, estava sentado em um banco público não muito longe de Liu Xing, com as pernas cruzadas. Ele perguntou em um inglês fluente.
— Desculpe interromper, gostaria de pedir uma informação de caminho.
Zhong Zhi, por trás das lentes, fixou os olhos dourados nas pedras preciosas que brilhavam nas roupas do homem.
— Pode perguntar.
— Eu não consigo entender muito bem o endereço neste bilhete.
Zhong Zhi levantou-se, tirou os óculos e pegou o papel de Tallon.
Tallon também observou Zhong Zhi; sentiu que aquele homem era diferente dos outros pedestres, não parecia um local.
Ele era ainda mais alto que o Duque, e aqueles olhos dourados pareciam estranhamente exóticos.
Zhong Zhi tirou o celular do bolso e abriu o mapa para navegar.
— Mestre, o que houve? — Liu Xing parou de tocar e aproximou-se deles.
— Alguém pedindo informação — respondeu Zhong Zhi.
— Voltamos! — Ao Lie e Qiu Tong chegaram trazendo quatro sorvetes de casquinha que levaram quase uma hora e meia na fila para comprar.
O Duque não entendia a língua deles.
Mas olhava para o sorvete na mão de Ao Lie, engolindo em seco.
Embora fosse estranho aquele jovem loiro com o sorvete estar usando orelhas de leopardo tão realistas e até uma cauda combinando atrás.
Realmente muito liberais... essas coisas deveriam ser usadas apenas para fins íntimos.
0143 143 O Duque faminto
A balsa ancorada no porto partiu sob a escuridão da noite.
Zhong Zhi segurava a safira que Tallon retirara de um anel e lhe dera, observando-a sob a luz do luar.
Tinha uma cor límpida e lapidação refinada; era uma joia de primeira classe.
Aquele homem fora generoso: um sorvete e o custo de um táxi trocados por uma recompensa tão valiosa.
Ele guardou a joia no bolso de seu sobretudo prateado.
Zhong Zhi levantou o olhar e notou Liu Xing no convés, apoiada no parapeito observando a paisagem.
O longo cabelo rosa dela era soprado pela brisa noturna, e a saia bege flutuava em curvas suaves.
Ele caminhou até ela, envolveu sua cintura fina por trás e inclinou-se perto de seu pescoço.
— Não está com frio?
— Não.
— Lembre-se de ir ao meu quarto à noite.
— Quando estiver em missão, pode parar de pensar apenas nessas coisas?
——————
No caminho de volta para o apartamento, Hilda contou a Tallon tudo o que lhe acontecera naqueles dias: sobre a pedra mágica, sobre Chris e outras conversas triviais.
No entanto, ela ainda não mencionara a gravidez.
— É aqui. — Hilda girou a chave e abriu a porta do apartamento.
Ela observou Tallon curvar-se para entrar, de forma não muito ágil, naquela porta pequena que parecia estreita demais para ele.
— Aqui estão os chinelos, são novos.
— Hum.
O Duque tirou os sapatos de couro obedientemente e calçou os chinelos masculinos pretos. Mas o tamanho não era adequado; eram pequenos, e seus calcanhares ficaram para fora.
Esses chinelos haviam sido comprados por Hilda para Chris no início do ano, mas como ele raramente ia à casa dela, ficaram guardados.
— Minha casa é pequena, certamente não se compara à mansão. — Ela corou um pouco ao segurar a mão dele, guiando-o para dentro.
— Não tem problema. Quando eu era pequeno, adorava dormir no estábulo; achava que o feno era mais confortável que a cama. — O Duque caminhou ao lado de Hilda e olhou para ela. — Agora, sinto que apenas ter você por perto já é felicidade suficiente.
O coração dela disparou. Com o rosto vermelho, ela se aninhou no peito dele e sussurrou: — Eu também...
Ele segurou o rosto dela com uma das mãos, observando com seus olhos roxos os lábios rosados dela entreabertos.
Hilda ficou na ponta dos pés e envolveu o pescoço dele; a respiração apressada dos dois ficava cada vez mais próxima.
Ronco —
O som vindo do estômago de Tallon quebrou o clima romântico.
— Bebê, estou com fome.
O Duque não havia comido nada o dia todo, exceto o sorvete que o "bom homem" que o guiara lhe dera.
— Vá tomar banho primeiro — riu Hilda. — Vou preparar algo para você comer.
— Tá bom. — Ele lhe deu um beijo estalado e entrou no banheiro.
Não haviam passado nem cinco minutos.
Ela ouviu um grito de pavor vindo do banheiro: — Querida!! O que é essa coisa comprida se mexendo!!!
— ... —
Hilda suou frio. Ela abriu a porta do banheiro e segurou a mangueira do chuveiro que balançava para todos os lados.
Depois, entregou-a para Tallon, que estava encolhido no canto do box, com seu corpo grande e musculoso nu, tremendo de susto.
———
Enquanto o Duque tomava banho, Hilda preparou um macarrão instantâneo. Ela pegou um ovo na geladeira, presunto fatiado e algumas folhas de verdura para adicionar.
Não havia muitos ingredientes em casa; como ela não comia muito, costumava comprar apenas o necessário para o dia.
Tallon saiu do banheiro usando apenas sua cueca dourada, já que não havia roupas de troca para ele ali.
— Que cheiro bom. — Ele salivava com o aroma. Sentou-se imediatamente, pegou os hashis e começou a comer.
Hilda sentou-se ao lado observando-o. Ela achou que ele talvez fosse um pouco exigente, já que na mesa da mansão nunca houvera pratos que não fossem requintados.
Mas vê-lo comendo com tanto gosto a fez achá-lo muito fofo.
Em pouco tempo, ele terminou tudo.
— Posso comer mais uma tigela? — pediu o Duque com expectativa. — O que você faz é muito gostoso, bebê.
— Haha...
No final, o Duque comeu três tigelas de macarrão.
Não se sabia se ele realmente gostara ou se a fome de um dia inteiro era tamanha.