— .... — Hilda sentiu medo. Por instinto, aproximou-se do Duque e segurou firme os botões do uniforme dele. Ela achou que ele a confortaria de imediato.
Mas, obviamente, o Duque estava com ainda mais medo. Suas pupilas tremiam; ele não conseguia articular uma palavra sequer. Era como se tivesse inalado uma lufada de ar gélido que deixara sua garganta seca e dolorida. Seu corpo parecia ter caído em um poço de gelo.
— Mesmo que a Senhorita Hilda não queira voltar, ela deve primeiro retornar ao seu mundo original — disse Olie pausadamente. — É a forma mais segura.
Os criados já haviam terminado de limpar a sujeira, mas o homem à frente continuava sem dizer uma palavra.
— Sr. Duque? — Olie chamou.
— ...? — Hilda puxou a roupa de Tallon. Ela, curiosamente, já estava aceitando a situação. Ergueu o rosto para dizer algo, mas viu que ele estava paralisado, com o olhar vago.
Claramente, a resistência de Hilda sob pressão era muito superior à do Duque.
— Sr. Tallon? — Ela tocou o rosto dele com a mão e, em seguida, foi envolvida por um abraço esmagador de tão forte.
— Não vou deixar nada acontecer com você... — a voz do Duque estava rouca. Ela sentia os braços dele tremendo contra suas costas.
Apoiada no peito dele, o calor e o aroma que já lhe eram tão familiares a fizeram lembrar vagamente do sonho de antes.
[ E se eu nunca mais vir o Duque? ]
A ideia trouxe-lhe uma sufocação e uma dor no peito que superavam com facilidade a saudade de sua loja de hamsters ou de Chris...
Hilda sentia-se culpada por isso, mas era forçada a admitir: agora, ela não queria mais deixá-lo.
Olie tirou um caderno do bolso, de onde extraiu um talismã mágico dado pelo Sr. Dishuva.
— Não resta muito tempo. Temos que enviar a Senhorita Hilda de volta ainda hoje.
0129 129 O Duque não é como Chris
Ao meio-dia, o interior da mansão do Duque estava muito silencioso, quase não se ouvia o menor ruído.
Hilda estava sentada sozinha no grande sofá do quarto principal, segurando uma pequena pedra de cor bege claro; sua aparência não diferia em nada de um seixo comum.
Sobre a mesa de centro repousava um pedaço de pergaminho que parecia bastante desgastado, impresso com caracteres antigos e densos. Segundo o Sr. Olie, aquele pedaço de papel, que mais parecia um jornal velho, já era o último talismã mágico no mundo que ainda podia ser usado normalmente.
E a pequena pedra que ela apertava na palma da mão havia absorvido a magia daquele talismã, tornando-se algo como um meio de ligação com este mundo.
Ela teria que voltar ao seu próprio mundo através daquele pergaminho estável e, depois, usar o seixo para retornar para cá.
Essa escolha seria a última.
O som do relógio tiquetaqueava, congelado no ar. Ela ergueu seus olhos rosa avermelhados para observar o quarto imenso, o aroma inebriante do incenso, o lustre de diamantes cintilantes, seus vestidos ocidentais dispostos no armário ao lado do uniforme branco e dourado do Duque.
O vento da primavera soprava pelas frestas da janela, e a luz morna do sol banhava a cama macia deles.
De repente, sentiu que os três meses que passara ali haviam voado. O primeiro encontro com o Duque parecia ter sido ontem, mas as memórias que faziam seu coração vibrar estavam gravadas profundamente em sua mente como películas, fazendo com que seu passado perdesse o brilho. Ela começou até a perder a noção de quais memórias eram reais.
Afinal, a qual mundo ela pertencia?
Hilda suspirou, colocou a pedra mágica delicadamente sobre o talismã e olhou para eles com um misto de resignação em seus olhos rosados.
Ela realmente precisava voltar para resolver muitas coisas. Talvez nos jornais de amanhã ainda houvesse uma crônica sobrenatural: { Mulher desaparece no ar }, anexo: imagens das câmeras de segurança da porta da clínica veterinária. Seria o mundo de Hogwarts se manifestando ou a reencarnação de uma garota mágica?!
Hilda baixou a cabeça e começou a rezar para que não houvesse câmeras instaladas na porta daquela clínica.
A porta do quarto foi aberta e o assento ao lado dela afundou imediatamente. Sua cintura foi envolvida, suas mãos pequenas foram firmemente seguradas pelas mãos grandes dele, e sua cabeça loira repousou no peito robusto do homem.
A respiração do Duque estava pesada. Hilda fechou os olhos lentamente enquanto olhava para o talismã que estava prestes a enviá-la de volta. Naquela escuridão, ela ouvia claramente as batidas fortes do coração dele, o que gradualmente acalmava sua ansiedade.
— Dias atrás, aprendi uma palavra nova com o Will. — O queixo de Tallon estava encostado no topo da cabeça de Hilda. Suas sobrancelhas prateadas arquearam-se levemente enquanto seus longos olhos roxos observavam as mãos dela nas suas.
— O quê? — perguntou ela baixinho.
A palma da mão do Duque sempre conseguia envolvê-la com facilidade. Seus dedos longos acariciavam as costas da mão dela, fazendo seu coração palpitar.
— Esposa. É assim que se diz?
Ela, encostada no peito dele, murmurou um "hum".
Embora devesse ser algo alegre, aquela palavra "esposa" fez com que a culpa de Hilda por esconder algo de Tallon aumentasse infinitamente. Até agora, ela não tivera coragem de lhe contar que, na verdade, possuía um noivo.
Antes, ela temia que a confissão fizesse com que ele a banisse de volta para as favelas aterrorizantes, mas agora, ela simplesmente tinha pavor de que isso a fizesse perdê-lo.
Mas aquele chamado de "esposa" no momento da despedida tornava a tristeza da separação iminente ainda mais difícil de suportar. Suas lágrimas caíram sem parar, seus lábios tremiam e, além de soluços, ela não conseguia dizer nada.
— O que houve? — O Duque ficou tenso. Ele não sabia lidar com as lágrimas dela; sentia-se tão perdido quanto nas vezes anteriores em que ela chorara pelos hamsters ou pelo cabelo longo.
Mais uma vez, ele limpou o nariz e as lágrimas dela com todo o cuidado.
Ela ergueu os olhos para observar detalhadamente o rosto dele, tão próximo ao seu.
O Duque não era como Chris. Chris nunca a fizera chorar assim, nem a fizera chorar tantas vezes.
E, claro, Chris nunca limpou suas lágrimas ou seu nariz com tanta paciência.
Ela enterrou-se no abraço dele.
— Não quero te deixar — disse ela, soluçando.
O Duque ficou feliz ao ouvir aquilo, mas, como governante de uma nação, ele sempre soube separar o pessoal do profissional.
— Não pode ser assim. Não se pode ser teimosa com esse tipo de coisa. — Tallon beijou a testa dela. — Vamos dar uma volta lá fora agora? O tempo está ótimo hoje. Quer passear com o Amã?
— Quero... — Hilda ergueu a cabeça do peito dele, enlaçou o pescoço do homem e inclinou-se para beijá-lo.
Hilda o abraçou com força. Queria memorizar sua temperatura, tudo sobre ele. Aquele mundo não tinha celulares nem fotos coloridas; eles nem sequer tiveram tempo de encontrar alguém para pintá-los. Embora tivesse que ficar fora por apenas uma semana, ela certamente sentiria muita falta dele.
O beijo profundo terminou em respirações ofegantes. Com as pálpebras avermelhadas, ela sentiu ele roçar o nariz no dela.
— Eu te amo, Sr. Tallon.
— Eu também te amo, bebê. Vamos cavalgar agora? Acho que o Amã já está nos esperando há muito tempo.
Ela deu algumas risadinhas leves e segurou a mão dele.
Assim que os dois saíram, uma pessoa apareceu na porta do quarto principal. Ele aproximou-se da mesa de centro; o tampo de porcelana branca polida refletia o nariz torto e os hematomas sob os olhos de Nova. Seus olhos castanhos estavam sem vida. Ele estendeu a mão, pegou a pedra mágica que estava no sofá e, em seguida, tirou do bolso do paletó manchado de sangue uma pedra branca idêntica e a colocou no lugar.
0130 130 Cacos de vidro
À noite, Olie terminou de desenhar o círculo mágico em um grande pergaminho branco e o estendeu no chão do escritório.
O pequeno cômodo foi instantaneamente preenchido pelo cheiro de tinta; Hilda sentiu uma súbita náusea ao sentir o odor.
Antigamente não era assim; ocasionalmente ela mesma fazia algumas pichações decorativas em sua loja de hamsters.
— Sem mais delongas, vamos começar agora. — Olie virou-se para sinalizar, mas ao ver que Hilda, ao lado do Duque, estava com uma expressão abatida, ele pensou que talvez precisassem de mais tempo para se prepararem psicologicamente. — Claro, podemos adiar por no máximo dez minutos.
— Então... — O Duque ia aceitar a sugestão, apertando a mão dela com tanta força que Hilda chegou a sentir dor.
— Sr. Tallon, eu preciso ir. — Ela olhou para ele. — Vou sentir sua falta.
— Eu também. — Ele soltou a mão dela lentamente, observando-a caminhar passo a passo para dentro do círculo mágico desenhado por Olie.
O Sr. Olie começou a recitar o feitiço. Logo, os cabelos loiros de Hilda foram desalinhados por um vento mágico impressionante. O talismã em sua mão entrou em combustão e o círculo mágico emitiu instantaneamente um brilho azulado que a envolveu como camadas de chamas.