— Mas agora estamos apenas nós dois aqui — interrompeu Olie. A luz da manhã refletia no seu topo calvo de forma quase ofuscante. — Isso pode ser o nosso segredinho.
Hilda estacou por um segundo, então soltou um suspiro de alívio com um leve sorriso.
— Muito obrigada.
Olie abaixou-se para pegar um caderno antigo de sua mochila no canto da mesa e entregou a ela.
— Pode começar dando uma olhada nisto. São registros que fiz há mais de vinte anos no subúrbio oeste sobre alguns modos de uso e introduções simples à magia.
Hilda abriu o caderno; as páginas estavam repletas de anotações, mas a caligrafia era organizada e clara. Comparado ao livro antigo de antes, este era muito mais fácil de entender.
— Mas, pequena senhorita, a senhora não vem justamente do subúrbio oeste? — Olie ainda achava estranha a curiosidade dela. — Não deveria me perguntar isso. Embora a magia tenha decaído muito em comparação ao passado, ainda há muitas pessoas no oeste que a utilizam.
Portanto, teoricamente, ela deveria entender do assunto melhor do que ele.
— Na verdade, eu não sou de lá... — Hilda decidiu revelar a verdade. Talvez apenas o Sr. Olie pudesse ajudá-la agora.
A biblioteca estava silenciosa. No ar frio, sentia-se o leve cheiro de mofo dos livros antigos. O relógio de madeira na parede girava segundo a segundo; o som do tique-taque parecia martelar contra o seu peito.
Ela abriu a boca, os dedos apertando o caderno velho sobre a mesa.
— Eu venho de outro mundo.
———
Perto do entardecer, a carruagem branca e dourada da mansão retornou. Joellet estava prestes a ajudar o Duque a descer, quando ouviu o som apressado de cascos de cavalo que pararam subitamente ao lado deles.
Ao virar-se, viu uma carruagem aberta em preto e dourado. O Grande Secretário Sion desceu do veículo, apoiando-se em sua bengala com uma expressão severa.
Ao mesmo tempo, o Duque puxou a cortina da carruagem. Cruzou suas pernas longas para fora, ajeitou o uniforme e, com um olhar roxo rápido, notou a presença do tio.
0110 110 Sorte a dele
— Tio, o que faz aqui? — Tallon foi o primeiro a cumprimentar, embora não estivesse surpreso com a visita repentina; afinal, Sion nunca avisava quando vinha.
— Hoje eu vim especificamente para ver você — enfatizou Sion, caminhando passo a passo com sua bengala em direção ao sobrinho, que era uma cabeça mais alto que ele.
— Ah, eu estou ótimo, não se preocupe — respondeu o Duque sutilmente, esperando que o tio entendesse a indireta de que deveria ir embora logo.
— Você tem noção de que já não é mais nenhuma criança? — Sion ignorou completamente a polidez de Tallon.
— É claro que sei — respondeu o Duque sem pestanejar, enfiando a mão no bolso da calça social e preparando-se para passar pelo tio com seus sapatos de couro branco para ir atrás do seu "coraçãozinho".
Sion, insatisfeito com a atitude arrogante de Tallon, agarrou-o pela orelha no momento em que ele passava e gritou:
— Você sabe? Sabe o quê, seu imbecil?!
Sion achou que, após a ajuda que dera da última vez, receberia o convite de casamento logo. Mas o inverno passou e não houve nenhum movimento na mansão!
O que esse moleque anda fazendo?!
Se ele não viesse conferir, o sobrinho provavelmente continuaria sem entender a própria situação. Além de ter um rosto levemente bonito, o resto da personalidade dele era um desastre completo.
Sion sempre achou que, para uma Omega tão linda, gentil e jovem quanto Hilda ter se interessado por esse sobrinho cabeça-dura, era muita sorte a dele.
— O que está fazendo! Solte-me! — O Duque foi forçado a baixar a cabeça e curvar a cintura, com a orelha ficando vermelha de dor e a expressão contorcida.
— Você já a pediu em casamento ou não?! — Sion estava com o rosto vermelho de ansiedade.
— Esses assuntos importantes precisam de um processo gradual!
— Processo gradual?! Que processo gradual?! A criança já deve estar com quatro ou cinco meses!
— O quê? Quatro ou cinco meses? — Tallon ficou confuso. A primeira coisa que veio à sua mente foi o tio Carter, marido de Sion.
O Duque exclamou: — O tio Carter deu à luz? Ele ainda consegue engravidar nessa idade?
— ..... — O ar congelou por alguns segundos.
O olhar de Sion passou da fúria para a descrença total. Ele concluiu que o sobrinho provavelmente estava com algum problema mental ou ficara louco de tanto revisar documentos.
O casal de secretários nunca teve filhos por questões de saúde e, além do mais, ambos já estavam em idade de se aposentar; como haveria possibilidade de gravidez?
Sion ergueu a bengala; precisava dar umas batidas na testa de Tallon para ver se ele acordava.
— Você é o pai! Ah! E sabe menos do que eu?!
— Tio, do que você está falando?!
— Pare de bater! Está doendo muito!
Mais tarde, os criados chamaram apressadamente a pequena senhorita, que acabara de sair da biblioteca. Hilda, com o rosto ardendo de vergonha, explicou ao tio Sion que não estava grávida e que estava se dando muito bem com Tallon, pedindo que ele não se preocupasse.
Isso obviamente tranquilizou o parente. Embora ela não tenha entendido por que o tio Sion piscou para Tallon ao lado dela no final, ouviu claramente o homem ao seu lado murmurar alguns sons de concordância.
Ela olhou desconfiada para Tallon, que imediatamente fingiu estar ajeitando os cabelos loiros dela que flutuavam ao vento.
Sempre ao entardecer, o brilho nos olhos roxos do Duque ao olhá-la era extraordinariamente suave. O seu cabelo prateado e a pele alva ganhavam uma aura dourada, suavizando suas feições marcantes.
O toque da mão dele em sua bochecha era quente, fazendo o rosto dela esquentar.
— ..Ainda dói?
— O quê?
— A sua cabeça.
— ....
0111 111 O Duque está estranho
Hoje é segunda-feira. Normalmente, o Duque já deveria ter ido trabalhar, mas hoje ele dormiu com ela até acordarem naturalmente. Ele explicou que era o seu "dia de folga semanal" anual.
Hilda aceitou a explicação, mas sentia que ele estava estranho hoje. O modo como a olhava era diferente; havia uma carência que raramente se via em sua expressão.
...Parecia um pouco com um pequeno Samoieda que ela teve no passado...
Foi só quando levantaram para tomar café que Hilda percebeu que algo estava realmente errado. Os criados haviam desaparecido; havia apenas a comida fumegante sobre a mesa comprida, como se eles estivessem evitando o casal propositalmente.
Ela ia perguntar algo, mas foi pega no colo por Tallon. Ele sentou-se na cadeira de jantar com ela instalada de lado sobre as suas coxas.
Hilda sentiu-se desconfortável comendo assim. Tentou pular do colo dele, mas ele a impediu e colocou uma colher na mão dela.
— Totó~ — chamou ele, alegremente.
— O que foi, Sr. Tallon? — Hilda estava confusa.
— Quero que você me dê comida na boca~ — A primeira parte foi dita com firmeza, mas a segunda soou quase tímida. — ..Como daquela vez que você me deu bolo..
Hilda quis recusar, pois era muito inconveniente comer daquela forma, mas o olhar expectante dele a fez amolecer. Isso a lembrou de quando, no orfanato, ela costumava alimentar as crianças menores que ainda estavam aprendendo a falar.
Sentia que ele, agora, não era muito diferente deles; apenas uma versão em tamanho maior.
O Duque observou seu pequeno algodão-doce erguer a tigela gentilmente e pegar uma colherada de mingau de aveia. Ela inclinou a cabeça, com os longos cílios baixos, e soprou o mingau antes de levá-lo à boca dele. — Aqui.
Ele comeu, sentindo-se nas nuvens. Pela primeira vez, achou que aquele mingau simples estava delicioso. Não resistiu e começou a balançar as pernas sob a mesa. — Totó, você é tão boa~
— ..... — Ela sorriu timidamente e continuou dando várias colheradas para ele.
Enquanto comia, ele apoiava a cabeça no ombro dela, sem parar de sorrir. — Você é tão boa para mim, Totó~~
Definitivamente, algo aconteceu com Tallon hoje; ele não costumava ser assim.
Após a refeição, ele continuou abraçando-a, querendo ficar perto. Ela achou inadequado, comentando que talvez estivessem sendo íntimos demais hoje, mas ele insistiu que só queria estar com ela.
Ela concordou, mas nas horas seguintes, ele a seguiu como uma sombra para onde quer que ela fosse, sem deixar um centímetro de espaço privado. Isso a fez pensar em um termo: "chiclete". Embora não chegasse a odiar, era um pouco irritante; nem aquele Samoieda era tão grudento.
Sempre que ela fazia menção de dizer não, a expressão dele tornava-se profundamente triste e ele a abraçava ainda mais forte.
Ao meio-dia, Hilda finalmente viu Wilder. Ele entrou com um carrinho de comida pela porta principal, cumprimentando-os com um sorriso.
— Totó~ — O Duque obviamente o ignorou, ainda agarrado à cintura de Hilda. — Me dá mais um beijinho~ por favor~