Tallon agora tinha certeza: havia algo de errado com aqueles dois.
0066 66 O Duque Não é Bom Nisso
O bosque era vasto e silencioso. Os cascos de Amani afundavam na neve espessa, deixando uma longa trilha de pegadas.
O Duque avistou um grande pássaro pousado no galho de uma árvore à frente; suas asas pareciam molhadas pela neve.
Ele pegou a besta, mas seus movimentos não eram ágeis, já que o pequeno algodão-doce ainda abraçava sua cintura com força, com a cabeça colada em seu peito. Hilda tinha pavor de escorregar da sela; embora o Duque achasse aquele contato doce, era muito difícil se movimentar.
Com as mãos trêmulas, Tallon semicerrou os olhos roxos, tentando mirar no pássaro.
Seus dedos enluvados soltaram o gatilho, e a flecha de madeira voou, traçando um belo arco no ar antes de cair precisamente na neve. O pássaro continuou imóvel no galho; chegou a soltar dois grasnidos para eles.
Hilda ouviu um pigarro abafado de Tallon. Ela olhou para ele e, alegremente, agitou a bandeira da rã com uma voz doce: "Força, Sr. Tallon~"
"Está bem, obrigado, bebê." Tallon animou-se e armou a besta novamente.
Biu~ O pássaro parecia estátua no galho. Ele olhou para a flecha fincada na raiz da árvore e começou a limpar as penas, entediado.
..... Tallon decidiu desistir daquele pássaro maldito.
Amani levava o Duque e Hilda sem rumo pelo bosque. Ocasionalmente, cruzavam com outros competidores que saudavam o Duque respeitosamente. Hilda agitava sua bandeirinha para eles também, enquanto Tallon espiava os cestos dos caçadores, todos cheios, em contraste com o seu, vazio.
O Duque começou a se sentir envergonhado. Ele deu um tapinha suave no ombro de Hilda.
"Bebê, você pode me soltar um pouco? Senão, fica difícil me mexer." Seu tom era de desamparo, mas terno.
"Não quero.." Hilda fez manha, apertando o abraço. Ela não queria soltá-lo; sentia-se segura ali. Lembrava-se de ter visto notícias na TV sobre pessoas que caíam de cavalos e ficavam deficientes, e estava muito preocupada.
"Tudo bem." O Duque não a forçou. Ele acariciou o cabelo dela, tirando alguns flocos de neve, e pegou a besta novamente.
À frente, surgiu um velho bode procurando comida na neve.
A flecha voou novamente. Tallon rezou a Deus para que, ao menos na frente do seu pequeno algodão-doce, ele acertasse uma.
Mas colocar a esperança na divindade obviamente não funcionou.
A flecha errou de novo, e o bode levou um susto, fugindo em disparada.
Na verdade, a educação de Tallon fora voltada para as artes e letras. Seus dois pais eram do tipo refinado e gentil. Mas, após as cinzas do passado, ele aprendera uma lição de sangue: para ser um governante, segurar apenas uma pena macia não deteria os tiranos. Por isso, desde os nove anos, praticava artes físicas de alto nível, tornando-se alto e robusto.
Contudo, só o Duque sabia que ele não tinha talento algum para esportes de precisão; ele era muito mais talhado para tocar violino e despachar documentos.
0067 67 Apenas Amigos?
Tallon ficou com o braço estendido segurando o arco, ao ouvir a risada baixa de Hilda.
O Duque achou que ela ria de sua técnica pífia e sentiu-se humilhado mais uma vez. Na verdade, Hilda apenas sentira cócegas com os flocos de neve que ele removera.
As flechas estavam quase acabando. Das cerca de trinta ou quarenta, ele não acertara nenhuma. Ele não queria mais passar vergonha diante dela.
Afinal, homens gostam de se exibir para as mulheres que amam, mas não o seu lado incompetente.
Antigamente, o Duque não tinha essa preocupação; era excessivamente autoconfiante. Mas agora percebia seus muitos defeitos.
Amani continuou o passeio tranquilo e passou por uma pequena nascente na floresta. O cenário era lindo, com uma camada de gelo cristalino sobre a água, pinheiros cobertos de branco e seixos coloridos ao redor.
Ele olhou em volta; havia apenas o branco da neve e nenhum som. Parecia seguro.
Tallon parou o cavalo e ajudou o pequeno algodão-doce a descer.
Ele pretendia ir capturar qualquer coisa que fosse.
"Bebê, espere por mim aqui, volto logo." O Duque colocou o capuz branco de veludo nela, ajustou-o e beijou sua testa.
"Está bem." Hilda não entendeu por que ele a deixava subitamente, mas achou que fosse alguma regra da competição. Sempre fora obediente e assentiu.
Ela ficou à beira da nascente gelada vendo Tallon montar Amani com destreza. O cavalo partiu em galope, parecendo um príncipe encantado de cinema.
Quando o Duque desapareceu de vista, ela sentou-se na neve. Entediada, moldou bolinhas de neve e as jogou no gelo. De vez em quando, a neve caía dos galhos dos pinheiros sobre suas sobrancelhas finas e franja, fazendo-a rir.
Flocos de neve começaram a cair do céu, brilhando como estrelas sob o sol.
Vozes surgiram no bosque.
"Melhor parar de procurar, este bosque é grande demais e quase não vi presas."
"E se visse, faria o quê? As bestas da competição foram todas alugadas. Só com essas duas facas de caça você não alcança esses bichos de quatro patas."
Dois jovens vestindo casacos verde-militares surgiram. Não eram robustos, mas eram altos. Um tinha o cabelo raspado e o outro tinha cabelos longos tingidos de vermelho e um charuto na boca.
"Droga! Não se vê uma alma!! Se não acharmos aquele ômega hoje, você vai ver só quando voltarmos."
"Irmão, esquece ele. Tem outros ômegas solteiros bonitos na escola..."
"Espera." O ruivo parou o colega e apontou para a frente.
O de cabelo raspado semicerrou os olhos. Ele viu a nascente gelada e Hilda sentada à beira, com seu vestido branco de veludo. O rosto dela estava de perfil, e mechas de seu longo cabelo loiro escapavam do capuz.
Aquele ômega era lindo, tinha um corpo pequeno e não tinha cheiro de marcação.
"Vamos lá fazer amizade?" O olhar do ruivo tornou-se malicioso.
"Tem certeza que é só amizade?" o outro duvidou.
0068 68 Onde Você Foi?
"Ei, o que você está fazendo sentada aqui sozinha?"
Hilda virou-se para trás. Dois homens se aproximavam. Pareciam jovens, com rostos de calouros de universidade.
"Estou esperando alguém," ela disse educadamente. "Desejam algo?"
"Você é uma gracinha." O ruivo jogou fora o charuto e aproximou-se dela com passos largos. Ele puxou o capuz de Hilda para trás; seus cabelos loiros macios caíram sobre os ombros e seus grandes olhos cor-de-rosa brilhavam. Ele estendeu a mão para tocar seu cabelo e rosto, mas o pequeno ômega obviamente não gostou e esquivou-se.
"...." Hilda sentiu que algo estava errado. Ela recuou, sentindo medo, e avisou baixo: "Por favor, não me desrespeitem.."
"Eu só quero ser seu amigo, gracinha." O ruivo sentou-se ao lado dela, e o cheiro de cigarro a fez sentir náuseas.
Hilda viu quando ele começou a desabotoar o próprio casaco, enquanto o outro homem observava os arredores.
Ela logo entendeu o que pretendiam. Seu coração falhou uma batida e seus dentes começaram a bater, mas desta vez ela se levantou. Não permitiria que aquilo acontecesse novamente. A situação era diferente de quando entrou na "boate" por ignorância; ela jamais se venderia novamente por alguns biscoitos.
Mas ela não conseguiu correr muito. Seu calcanhar foi agarrado facilmente e ela caiu pesadamente, com o rosto ficando vermelho de frio na neve.
"..Me soltem!" Hilda chutou com força, em pânico. "Não me toquem!!"
"Não faça assim." O ruivo achou o grito daquele ômega peculiar e sua força era ridiculamente pequena, como a de uma boneca. Com um sorriso nos olhos, ele prendeu facilmente os joelhos e os pulsos de Hilda. "Eu sou filho do Diretor da Guarda da Capital; você não vai sair perdendo comigo."
Todo o seu corpo arrepiou-se e ela estremeceu. Ele soltou as pernas dela e parecia querer continuar tirando a roupa. Ele também estava suando, assim como o Duque na primeira vez. Parecia estar com calor, mas, desta vez, Hilda não hesitou e chutou com força entre as pernas do homem.
Ela conseguiu um instante de liberdade e jogou-se na neve à frente, enquanto sua capa branca caía lentamente.
"Sr. Tallon!!!" Hilda levantou-se e gritou com todas as forças. "Tallon!!! Mmm..."
"!!" O ruivo tapou a boca dela. Com a testa franzida de dor, ele disse rouco: "Eu sempre gostei dos que são obedientes. É melhor cooperar, ou eu posso quebrar aquele gelo e deixar você esfriar lá dentro."
Hilda mergulhou no desespero novamente.
【 Sr. Tallon, onde você foi... 】
———
O Duque cavalgava Amani velozmente pelo bosque, tentando encontrar uma presa azarada.
Mas, após várias voltas, não encontrara nada, e sua última flecha errou o alvo.
Ele suspirou, preparando-se para voltar para seu pequeno algodão-doce.
Amani virou-se, e seu casco tocou em algo. Ele e o Duque olharam para baixo.
Era um coelho-das-neves. Estava mastigando ervas silvestres; seus olhos vermelhos eram pequenos e tinham um olhar vago e perdido. Estava imóvel na neve.
Aquele coelho parecia realmente estúpido.
Mas o pequeno algodão-doce certamente adoraria um coelhinho fofo.
O Duque saltou do cavalo, jogou-se na neve e levantou a cabeça coberta de branco, rindo enquanto segurava as orelhas compridas do coelho estúpido. Limpou a neve do uniforme e montou Amani, sentindo-se extremamente alegre. Queria mostrar seu troféu para ela imediatamente.