Hilda encolheu seus pezinhos descalços. O terno folgado escorregou de seus ombros, deixando-a com um aspecto desolado. Para piorar, sentiu que seu cinto havia afrouxado; temia que, se levantasse agora, suas calças cairiam no chão diante de todos aqueles homens.
Cícero prendeu a respiração e começou a rezar, de mãos postas, para que Deus tocasse o coração do Duque. Ele não queria que houvesse o primeiro morto em seu clube.
Afinal, o Duque estava em seu período de sensibilidade, o que o tornava muito mais agressivo e instável do que o normal. Ele precisava de conforto, mas como ainda não havia marcado seu próprio Omega, buscava alívio em clubes como aquele durante suas crises.
Hilda tentou ajustar o cinto, mas não teve tempo.
O homem à sua frente ergueu sua perna longa.
"Ah!" Hilda soltou um grito de dor ao ser chutada violentamente para o canto da parede. Suas costas bateram contra o concreto com um estrondo seco. Seus cabelos loiros pareciam sem vida enquanto ela tentava, tonta de dor, apoiar-se nos cotovelos. Tremendo sem parar, ela se encolheu contra a parede, agarrando-se às próprias roupas com medo.
"Você bloqueou o meu caminho." Uma sombra imponente a cobriu. Ele estava de costas para a luz, seus olhos roxos fixos no topo da cabeça dela, e sua voz grave parecia vir das profundezas do inferno.
Este homem é apavorante.
Uma lágrima finalmente escapou e rolou pelo seu rosto; o terror era tamanho que ela tentava enfiar seus tornozelos finos para dentro das calças o máximo que podia.
Tallon lançou um último olhar para Hilda e desviou os olhos.
"Vossa Excelência, este é um novato. Ele é ignorante, ainda não tive tempo de treiná-lo", disse Cícero com um sorriso comercial forçado, enquanto as rugas ao redor de seus olhos pareciam dançar de puro nervosismo. "Aqueles ali na porta é que estão à sua disposição."
"E quem você acha que eu deveria escolher entre esses azarados?" Tallon sorriu com escárnio.
"Veja o nosso favorito. Venha aqui, Kiran! Por que ainda está aí parado?" Cícero amaldiçoava internamente aqueles rapazes inúteis.
"Vossa Excelência", disse Kiran, aproximando-se com hesitação. Ele não queria acabar desfigurado ou com sequelas graves; estava ali apenas por um trabalho temporário.
"Parece que este aqui não está muito disposto", comentou Tallon, achando que o cabelo verde de Kiran lembrava os arbustos mal cuidados da propriedade ducal.
"Claro que está!" gritou Cícero, puxando outro rapaz. "Nosso 'Príncipe' espera pela sua visita todos os dias, não é, Rael?"
Rael assentiu repetidamente: "Vossa Excelência é o homem mais atraente da Capital! Quem não desejaria o seu favor?"
A cabeça de Tallon latejava com as vozes agudas; ele sentia-se exausto e não queria mais ter que escolher.
Tallon tirou a mão direita do bolso do casaco. Todos os acompanhantes contraíram os músculos, temendo ser o alvo daquele dedo coberto de anéis.
Por fim, viram que o dedo do Duque apontava diretamente para a figura trêmula e azarada encolhida no canto.
——— Continua ———
0006 6 Ela Implora por Perdão
Cícero olhou para o dedo estendido do Duque e depois para Hilda no chão, balançando a cabeça incrédulo. No fim, confirmou que o Duque realmente queria aquele pequeno loirinho.
Ele previu que alguém morreria em seu clube naquela noite; aquela criaturinha não parecia capaz de suportar tal provação. Cícero sentiu uma ponta de pena, mas sua consciência não era maior que seu instinto de negociante.
"Levem Vossa Excelência para o quarto imediatamente!" ordenou Cícero.
Hilda assistiu aterrorizada enquanto Tallon se retirava. Sua mente era um caos, mas ela sabia que acabara de escapar da morte por um fio, pois aquele homem terrível era o Duque mencionado no lema de entrada da cidade.
Mas por que ele a havia escolhido?
Seus ouvidos ainda zumbiam, e ela não conseguira processar o diálogo anterior, apenas as referências constantes e reverentes ao Duque.
Hilda tentou fechar o cinto; queria pedir desculpas a Cícero pelo erro. Não podia perder o emprego, especialmente agora que conseguira comer alguns biscoitos.
Contudo, mais uma vez, ela não conseguiu tocar no cinto.
Hilda foi arrastada do canto por Kiran e Rael. Suas calças de terno escorregaram pela cintura, deixando-a apenas com o paletó e a camisa — felizmente, longos o suficiente para cobri-la.
"O Duque escolheu você", disse Kiran, sem expressão.
"Você tem sorte, loirinho. Mal começou e já vai ganhar uma recompensa enorme", disse Rael com um sorriso. Hilda não sentiu sinceridade, mas sim uma satisfação oculta, como se ele estivesse aliviado por não ser o escolhido.
Hilda olhou para os outros "garçons" na porta; todos a observavam com sorrisos estranhos, como se estivessem vendo um bode expiatório.
Ela finalmente compreendeu que aquele lugar não tinha nada a ver com um restaurante e que aquelas pessoas não eram servidores de mesa.
Um medo sem precedentes a dominou; seu corpo parecia ter caído em um poço de gelo. Cada passo que a arrastava para o quarto parecia um passo em direção ao abismo.
Por fim, ela foi levada diante de uma porta luxuosa, toda folheada a ouro.
"Vossa Excelência já está esperando, ande logo!" Cícero olhou para Hilda e, de repente, agachou-se para ficar na altura de seus olhos cheios de lágrimas.
Ele suspirou. Para ser sincero, aquele loirinho o lembrava de seu próprio neto; deveriam ter idades parecidas. Sentindo um breve remorso, ele disse: "Vou te dar um conselho: nunca resista ao Duque. Faça tudo o que ele mandar. Essa é a única forma de sobreviver nesta cidade."
"Não tenha medo, garoto. É apenas um momento com o Duque", disse Rael, ajeitando a roupa de Hilda antes de segurá-la firmemente pelos braços.
Hilda entendeu perfeitamente o que era aquele lugar. O desespero a consumiu, mas ela não tinha força para se livrar do aperto dos dois homens.
"Por favor, me soltem..." Ela caiu de joelhos, implorando a Cícero como se ele fosse o diretor de seu orfanato. "Eu errei, senhor... por favor... eu não vou mais roubar biscoitos... senhor, me ajude... por favor, me ajude..."
Cícero não deu ouvidos. Começou a ordenar que preparassem álcool esterilizante e lençóis novos.
A voz fria de Cícero ecoou no coração de Hilda: "Joguem-no lá dentro. Lembrem-se de trancar a porta por fora. Não o deixem sair."
0007 7 O Duque Não Consegue Sentir Seus Feromônios
Kiran abriu a porta dourada. O interior estava escuro, impedindo Hilda de ver qualquer coisa, mas ela sabia que o inferno a aguardava. Sua loja de hamsters mal tinha se estabilizado; sua nova vida nem sequer começara.
Hilda foi jogada para dentro sem esforço. Ela caiu sobre um tapete macio perto da entrada, e o som da tranca girando atrás dela selou seu destino. Com a alma desolada, ela ergueu a cabeça mecanicamente.
O homem estava sentado em uma luxuosa cadeira dourada. A luz azulada da lua entrava pela janela, iluminando sua figura imponente. Ele era tão atraente quanto uma pintura; de pernas cruzadas e com a mão apoiada na cabeça, observava Hilda caída no chão como se observasse um prato servido para o jantar.
Hilda não ousava dizer nada nem se mover; sentia-se observada pelo próprio abismo.
"Aproxime-se", disse Tallon. Sua voz grave fundia-se à escuridão do quarto.
Faça tudo o que o Duque mandar.
Hilda rastejou. Suas pernas estavam trêmulas e ela não tinha forças para se levantar.
Ela rastejou até chegar diante dos sapatos de couro branco dele, da mesma forma que havia caído momentos antes. Com a cabeça baixa, tentava suportar a dor nas costas, esperando que a qualquer momento pudesse receber outro chute.
No entanto, talvez porque Tallon estivesse de pernas cruzadas, ele não a chutou. Em vez disso, ele usou a mão para erguer o queixo dela. A luva de couro estava fria, mas Hilda começou a suar frio. Ela desviou o olhar, fixando-o nos detalhes dourados da cadeira.
Tallon avaliou Hilda: cabelos loiros curtos, grandes olhos cor de rosa que lembravam rosas tingidas de floriculturas, cílios longos e densos, e pele muito clara. Mas o que mais o intrigava era sua estrutura física: era pequena e frágil demais, com pernas finas como gravetos.
Contudo, ele tinha que admitir que o rosto do jovem era extremamente belo e delicado. Talvez fosse o acompanhante mais bonito que ele já tivera em anos, e também o menor.
Tallon tinha certeza de que ele era um Omega, mas parecia ter usado supressores, pois ele não sentia nenhum cheiro de feromônio vindo dele, apenas um aroma doce de shampoo de laranja vindo do cabelo.
Parecia que Cícero não mentira; ele realmente não havia treinado esse "garoto". Como ele ousava usar supressores em um lugar como aquele, onde os feromônios eram o principal meio de estimulação?
Tallon sentiu um leve desapontamento. Ele não acreditava que apenas aquele rosto bonito seria suficiente para despertá-lo, a menos que o garoto possuísse técnicas excepcionais. Mas, ao ver o estado deplorável em que ele se encontrava, rastejando como um animal, descartou essa ideia imediatamente.
0008 8 Ela Fechou os Olhos
Tallon sentiu-se irritado pelo fato de Hilda estar fixada nos detalhes da cadeira em vez de olhar para ele.