O olhar de Gustavo esfriou levemente. Ele soltou a mão dela e recuperou o tom indiferente: "A sua vida ou morte só eu decido, não tem nada a ver com..."
Antes que ele terminasse de falar, um toque macio e quente cobriu seus lábios, trazendo consigo um leve aroma de álcool.
Melissa passou a ponta da língua suavemente, com os olhos revelando a fragilidade da embriaguez: "Gustavo, você me odeia tanto... vamos nos divorciar, tudo bem?"
As belas sobrancelhas de Gustavo se franziram. Quando ele ia estender a mão para afastá-la, ela se enroscou nele novamente, abraçando seu pescoço enquanto lágrimas caíam silenciosamente.
Lágrimas amargas.
"Gustavo, Gustavo... você poderia... parar de me odiar?"
Depois de muito tempo, Gustavo a afastou gentilmente. A emoção em seus olhos era de uma calma profunda: "Melissa, você sabe do que eu mais desgosto em você?"
Ela olhou para ele, em silêncio.
"Desde que você me obrigou a casar, há três anos, você nunca ousou me olhar nos olhos. Cada palavra que dizia era pensada com extrema cautela por muito tempo. Você tinha medo de me irritar, se importava com cada sentimento meu, era capaz de desistir de tudo e ficava aqui, dia após dia, fazendo as mesmas coisas. Mas, desde que reencontrou o Lucas, você mudou muito. Se..."
A expressão de Gustavo permanecia inalterada, mas, mesmo assim, ele hesitou antes de concluir: "Se estar com ele te ajudar a se reencontrar, eu aceito o divórcio."
Capítulo 56: Sem medo nem da morte
Melissa riu. Ela não sabia por que estava rindo, apenas sentia uma torrente de emoções correndo por seu peito.
Ela tocou a cicatriz atrás da orelha e disse: "Gustavo, você está errado. Eu nunca me reencontrei. Sabe, quando eu era pequena, eu tinha uma cicatriz no rosto, era horrível. Ninguém queria ficar perto de mim. Naquela época, eu era insegura, tímida, tinha medo de lugares cheios e de falar alto. Eu vivia na escuridão todos os dias."
"Mas houve uma pessoa que me deu um boneco feio, igual a mim. Naquele momento, senti pela primeira vez que o mundo tinha luz. Desde então, eu o amei por quase vinte anos. A cicatriz no meu rosto sumiu depois do acidente, e pensei que pudesse me livrar das sombras do passado. Mas, exclusivamente diante dele, eu nunca conseguia erguer a cabeça. Você sabe por quê?"
Porque ele sempre foi tão excelente, sempre sagrado e inviolável.
Toda vez que estava diante dele, aquela insegurança que ela carregava desde a infância brotava freneticamente, capaz de devorá-la.
Por isso, ela só conseguia se rebaixar ao pó.
Gustavo não disse nada. A luz fraca escondia todas as emoções em seus olhos.
Melissa estava cansada. Ela limpou as lágrimas, virou-se e disse: "Se você quer o divórcio, que seja."
Ao pensar nos ferimentos no corpo dele, Melissa sentia uma dor dilacerante. O que ela fizera para merecer ser tratada assim por ele?
Foi erro dela. Se ela não tivesse aparecido desde o início, se não tivesse escolhido pular do prédio para acabar com tudo, Gustavo ainda seria o mesmo Gustavo, sem ter sua trajetória de vida alterada por ninguém.
Se o seu amor se tornara um fardo, ela preferia abrir mão.
Melissa deu apenas dois passos quando seu pulso foi segurado.
Ela tentou controlar suas emoções e forçou um sorriso. Quando se virou para dizer algo, um beijo avassalador caiu sobre ela, como se uma tempestade estivesse prestes a consumi-la!
Gustavo abriu os lábios dela com facilidade, sua língua explorando cada centímetro com uma força que parecia querer fundi-la ao seu próprio sangue.
As mãos de Melissa envolveram naturalmente o pescoço dele, retribuindo o beijo intensamente.
Lá fora, a neve caía pesadamente, curvando os galhos das árvores.
Pontos de luz prateada dançavam pelo céu.
Restava apenas o clima de paixão dentro do quarto.
Uma semana depois.
Lucas entrou furioso no escritório da presidência e perguntou com indignação: "Ouvi do Henrique que vocês se divorciaram?"
Gustavo nem ergueu a cabeça: "Quem?"
"A Melissa, claro! De quem mais você iria querer se divorciar?"
Ele apenas confirmou com um som baixo.
Lucas não conseguia entender mais nada. Eles não se amavam profundamente? Todos os mal-entendidos não tinham sido resolvidos?
Por que se divorciar!
Seus traços delicados estavam vermelhos de raiva. Ele sentou-se na cadeira com a intenção de não sair dali: "Gustavo, me diga, o que não poderia ser resolvido para chegar ao ponto de um divórcio?"
"Você não entende." A voz dele permanecia apática, sem emoção aparente.
"Se eu entendesse, não estaria aqui te perguntando! Você não teve medo nem da morte, e agora tem medo de admitir que a ama?"
Desta vez, Gustavo ergueu os olhos levemente, com os lábios levemente curvados: "Não, eu tenho medo da morte. Mas eu e a Melissa entramos em um beco sem saída. Ela não consegue se perdoar por eu ter sofrido ferimentos tão graves por causa dela; e eu não consigo me perdoar por ter causado tanto mal a ela por causa das palavras dos outros."
Na verdade, Melissa não estava errada, nem ele.
O destino apenas pregou uma peça neles.
Capítulo 57: Esperando por ela
Gustavo parecia ter lembrado de algo. Após uma pausa, ele disse: "Entendeu agora?"
"Ainda... não entendo."
"Quando chegar a hora, ela voltará."
Lucas suspirou e disse: "O orfanato ligou dizendo que o novo prédio foi concluído. Você quer ir dar uma olhada?"
Pouquíssimas pessoas sabiam que, após o acidente de mais de dez anos atrás, o novo orfanato fora construído com investimentos da família Cavalcante.
Gustavo era o maior acionista.
Independentemente do tamanho do assunto, o diretor sempre o notificava.
"Não precisa."
Depois que Lucas saiu, Gustavo ergueu a cabeça e olhou pela janela.
Naquela noite, Melissa lhe contou que, durante os seis meses em que esteve em coma, teve um sonho muito longo.
Um sonho feliz ao extremo, mas também doloroso ao extremo.
Ele a machucara desde o início, deixando-a em uma casa vazia, pensando que era um castigo para ela, mas não imaginava que quem estava sendo torturado era ele mesmo.
Em três anos de casados, a razão pela qual ele não queria voltar para aquela casa era o medo de vê-la, o medo de que os sentimentos reprimidos no fundo do coração crescessem descontroladamente.
Ele deveria odiá-la.
Mas, sem que percebesse, toda vez que voltava e a via dormir sobre a mesa após preparar o jantar; quando ela queria falar com ele, mas não ousava; quando ela persistia mesmo doente e acabava caindo no chão...
O interior de Gustavo já não estava em paz há muito tempo.
Ele não entendia por que ela se rebaixava tanto, nem quando se apaixonara por ela. Ele pensou que seria um casamento sem sentimentos.
Mas não imaginava que, no fim das contas, perderia toda a razão.
O que ele precisava fazer agora era apenas esperar que ela voltasse.
Toc, toc —
Henrique entrou e disse respeitosamente: "Senhor, a Sophia disse que quer te ver."
Gustavo desviou o olhar, sua voz era gélida: "Você está ficando cada vez mais incompetente?"
Henrique assustou-se e, após responder apressadamente, retirou-se.
Ele não deveria ter sentido pena de Sophia nem tentado fazer esse favor.
Erro dele.
Do outro lado, Sophia, que estava sob prisão domiciliar, ao receber a notícia de que Gustavo se recusava até a vê-la, desabou no chão, como se tivesse caído em um abismo gelado.
A prisão domiciliar não era o castigo; a atitude de Gustavo era o maior castigo para ela!
Sophia nunca entendeu em que momento errara. Nesses três anos, ela preparara o terreno com perfeição.
Aos olhos de todos, Melissa era uma mulher cruel que não media esforços para atingir seus objetivos.
Além disso, ela subornara os empregados do avô de Gustavo para mencionarem que a morte do velho fora incomum, e ela mesma mencionara a "garota feia" para Gustavo diversas vezes...
Mas por que, ainda assim, Gustavo se apaixonou pela Melissa?
Essa era uma pergunta que ela não entenderia nem no momento da morte.
Porque ela não tinha coração. Do início ao fim, ela apenas tentou desesperadamente obter o que não lhe pertencia. Algumas essências já haviam mudado silenciosamente no momento em que ela tirou duas vidas.
...
O céu das seis horas já estava pesadamente escuro, como se estivesse prestes a desabar.
As luzes das ruas já estavam acesas, projetando longas sombras.
O sedã preto entrou pelo portão de ferro e parou. Gustavo desceu do carro e abriu a porta da casa.
Não havia luzes acesas, o ambiente estava frio.
Aquela pessoa que preparava o jantar para ele e que, não importa a hora, sempre deixava uma luz acesa esperando por sua volta, já não estava mais lá.
Ele subiu para o escritório, abriu uma gaveta e tirou duas coisas.
Um era o boneco feio, e o outro... era o anel que Melissa jogara fora antes de pular do prédio.
Capítulo 58: Que bom que você ainda está aqui
Ele lembrava que ela dissera que não se arrependia de tê-lo conhecido nesta vida, mas que, se houvesse uma próxima vida, não queria encontrá-lo novamente.