Ao desligar, Melissa pensava em como abordaria o assunto com Gustavo, quando recebeu uma ligação de Henrique. O tom era o mesmo de sempre, estritamente profissional: "Senhora, o patrão quer que você venha à empresa agora."
...
Na porta do escritório, Melissa encontrou Lucas.
Ao trocarem olhares, ambos viram a surpresa um no outro.
Por que Gustavo chamaria os dois ao mesmo tempo?
Todas as dúvidas foram respondidas ao abrirem a porta.
Sophia estava sentada no sofá, com o nariz vermelho de tanto chorar, parecendo ter sofrido a maior das injustiças. Já o homem sentado na poltrona ao lado dela tinha uma expressão gélida ao extremo, como um demônio capaz de congelar a alma de qualquer um.
"Gustavo, a culpa é toda minha. Eu não sei o que fiz de errado para que o Lucas se aliasse a ela para conspirar contra mim. Apenas considere que tudo foi obra minha; eu sou a mentora, a pior pessoa de todas."
Quanto mais falava, mais triste ficava, e as lágrimas desciam como pérolas de um colar arrebentado.
Lucas sentiu que aquilo era o cúmulo do absurdo; por um momento, as palavras sumiram de sua boca.
Comparada a ele, a protagonista, Melissa, parecia muito mais calma. Ela nem sequer olhou para Sophia; apenas encarou, sem medo, os olhos sombrios de Gustavo e perguntou: "Você acredita nela?"
"Por que não acreditaria?" A voz dele parecia ter saído de uma câmara frigorífica, capaz de cobrir o coração de qualquer um com uma camada de gelo. Mas... a Melissa de agora não se abalaria.
Embora não soubesse o que Sophia havia dito, imaginava que ela ainda estivesse omitindo partes cruciais.
Melissa respirou fundo e, quando ia começar a falar, Sophia soluçou: "Gustavo, realmente tudo foi culpa minha, não os culpe. Eu sou apenas uma órfã, que poder eu teria para enfrentar a família de Lucas? Por favor, eu te peço, não investigue mais..."
Lucas soltou uma risada amarga. Se antes ele tinha dúvidas sobre o que Melissa lhe dissera, agora acreditava plenamente nela.
A atuação de Sophia era realmente impecável; se ele não soubesse a verdade dos fatos, provavelmente acreditaria nela também.
A voz de Gustavo ficou ainda mais fria, e o olhar dele brilhava como uma nevasca violenta. Ele se levantou e caminhou em direção a Melissa; cada passo parecia carregar uma pressão invisível: "Melissa, é isso que você faz depois de acordar? Eu pensei que você estaria diferente de antes."
Capítulo 44: Realmente deveria estar morta
Melissa foi encurralada contra a parede, mas continuou encarando-o: "Eu nunca mudei, apenas você nunca acreditou em mim."
Ele soltou um riso de escárnio e agarrou o pescoço dela com uma das mãos: "Vou te perguntar mais uma vez: o que você foi fazer com ele ontem?"
O pescoço dela era fino, como se pudesse ser quebrado com o mínimo de força.
Lucas não se conteve: "Gustavo..."
"Saia daqui."
"Gustavo..."
"Saiam todos!"
Sophia nunca o vira com tanta raiva e ficou hesitante por um instante. No entanto, falar demais poderia ser contraproducente; ela mordeu o lábio, levantou-se e saiu.
Ao passar por Lucas, notou os olhos dele semicerrados.
Sophia riu internamente. Não importava; ela não ligava para a opinião dos outros, desde que Gustavo acreditasse nela.
Mas sobre a "garota feia", ela não mencionou uma única palavra hoje.
Esse era o ponto central de todo o ódio de Gustavo por Melissa. De qualquer forma, agora que ela chegara a esse ponto na conversa, não importava o que Melissa dissesse, Gustavo não acreditaria; ele apenas pensaria que ela estava em seus últimos suspiros de desespero.
Heh, essa era a "verdade" que ela queria.
Lucas olhou para Melissa, que fez um sinal com os olhos para que ele saísse primeiro.
Aquele era um problema entre os dois e, independentemente do resultado, teria que ser enfrentado.
Lucas suspirou levemente, mas não foi longe; ficou esperando na porta para o caso de algo grave acontecer.
O pequeno gesto entre eles não escapou aos olhos de Gustavo. Ele aumentou a força da mão e seu olhar foi coberto por uma fina camada de gelo: "O que há entre vocês dois, hein?"
"Mesmo que eu diga, você não vai acreditar. Para que o esforço?"
Gustavo curvou os lábios, com uma voz cortante: "Melissa, você acredita que eu posso te estrangular agora mesmo?"
"Acredito." Melissa sorriu de leve. "Tão firmemente quanto você acredita na minha culpa."
Não a surpreendia que Sophia tivesse invertido o jogo, mas ela não sabia até que nível chegava o ódio de Gustavo nesta vida.
Por isso, ela precisava apostar em desmascarar Sophia. Mesmo que Gustavo não acreditasse de imediato, pelo menos plantaria uma semente de dúvida. Ela buscaria evidências por outros meios; não seria tola de correr até ele e dizer: "Eu sou a pessoa que você procura, eu não morri, Sophia me incriminou".
Isso teria ainda menos credibilidade.
Gustavo riu friamente e a soltou: "Você realmente deveria estar morta."
"Eu não morri. Isso não prova que há uma injustiça ainda não resolvida?"
"Por que você acha que sobreviveu?" Gustavo se virou de costas para ela e ajustou os punhos da camisa. "Saia. Não deixe que eu te veja de novo."
Melissa franziu a testa, mas naquela situação não convinha falar mais nada. Antes de sair, disse: "Vou te esperar em casa."
Ao sair do escritório, a tensão de Melissa finalmente se quebrou. Como se tivesse perdido todas as forças, sua expressão era de exaustão extrema.
"Você está bem?" Lucas aproximou-se para ampará-la, mas hesitou com a mão no ar e a recolheu. Gustavo era extremamente possessivo; se visse aquilo, quem sabe o que faria.
Melissa balançou a cabeça, massageou o pescoço e, após tossir um pouco, disse: "Sinto muito por envolver você nisso."
"Eu sou homem, isso não é nada. Mas e você? Sua relação com o Gustavo já não era boa, e depois desse episódio, como vocês vão..."
"Tudo bem. Já chegamos nesse ponto; não tem como ficar pior."
Mas há um ditado que diz que, ao chegar ao fundo do poço, a única opção é subir.
Ela não desistiria.
Capítulo 45: Isso já é o suficiente
Lucas suspirou: "Eu realmente não imaginei que a Sophia fosse esse tipo de pessoa. Eu estava mesmo cego... O que você pretende fazer agora?"
"Esperar." Pelo que conhecia de Sophia, ela não pararia por ali. No limite, tentaria dar um fim nela...
Ao pensar nisso, algo relampejou na mente de Melissa, mas ela não conseguiu captar a ideia.
"O que foi?"
"Nada, vamos."
Pouco depois de eles saírem, Henrique bateu à porta do escritório da presidência. Após relatar o trabalho, disse: "Senhor, recebemos uma ligação da DUR agora há pouco. Disseram que a esposa do presidente do Grupo Cavalcante ligou pessoalmente dizendo que tem assuntos a tratar com o Diretor Ricardo."
Gustavo franziu a testa: "Com quem a Melissa se encontrou desde que acordou?"
"Nossos homens têm seguido a senhora o tempo todo. Desde que saiu do hospital, ela só viu o Sr. Lucas, a Srta. Sophia e uma tal de Ana Clara, uma antiga amiga. Além deles, ninguém mais."
Gustavo silenciou. Após um instante, disse calmamente: "Continue mandando segui-la. Qualquer movimento, me avise imediatamente."
"Sim senhor." Quando Henrique ia saindo, foi chamado novamente. "Mande vigiarem a Sophia."
Gustavo desviou o olhar, com os olhos negros e frios. Suas emoções eram indecifráveis.
...
Embora tivesse dito que o esperaria em casa, Melissa não queria voltar naquele momento.
Ela sabia que Gustavo não mudaria de opinião por causa de algumas frases, nem voltaria para casa só porque ela disse que o esperaria.
Melissa vagou pelas ruas até depois das dez da noite antes de ir para casa.
No caminho, ela pensava em que outras evidências fariam Gustavo acreditar que ela não estava mentindo.
Mas ele já tinha um julgamento formado: para ele, ela era uma mulher malvada e calculista. Não importava o que ela dissesse ou fizesse, ele veria apenas como manipulação.
Suspiro.
Melissa começou a puxar o próprio cabelo de tanta preocupação.
Um passo de cada vez. Ela já esperara tanto tempo que não se importava com mais alguns dias.
Nos dias seguintes, Melissa não viu Gustavo. Ela foi ao orfanato, mas soube que a diretora falecera há seis meses. Os registros antigos estavam lacrados em um banco de dados que exigia muitos trâmites para ser acessado.
Melissa não quis incomodá-los. Ela já sabia que Sophia era, na verdade, a "Pequena Sophia", então não havia mais necessidade daquilo.
Parada na faixa de pedestres, ela soltou um suspiro e começou a contar os segundos do sinal vermelho.
Não sabia se era porque o sol estava forte demais, mas ela semicerrou os olhos. Pareceu ver Gustavo parado do outro lado, olhando para ela com um leve sorriso e ternura no olhar.
Melissa pensou subitamente que, se fizesse tudo o que podia e Gustavo ainda não acreditasse nela, a morte talvez fosse uma forma de libertação a se considerar.
Pelo menos ela sabia que a pessoa que ele amava, e a que ele odiava, eram a mesma: ela.