Enquanto falava e tentava erguer a mala para subir, algo rolou para fora. Antes que ela pudesse alcançar, uma mão foi mais rápida e pegou o objeto.
Gustavo olhou para ela com o cenho franzido: "Por que você tem isso?"
Melissa revirou os olhos com impaciência: "Briguei com um cachorro na rua e roubei dele."
O boneco feio já havia perdido toda a sua dignidade, deitado mansamente nos braços de Gustavo, mantendo seu habitual sorriso educado, porém constrangido.
Gustavo franziu a testa ainda mais. Quando ia continuar o interrogatório, recebeu uma ligação. Sua expressão mudou imediatamente. Ele lançou um olhar para Melissa e saiu a passos largos.
Quando a porta bateu, Melissa olhou para o boneco feio, jogado no chão e abandonado mais uma vez, e soltou um riso triste.
Elas sempre foram iguais: abraçadas quando necessárias, descartadas como lixo quando não eram mais úteis.
Melissa não dormiu. Abraçou o boneco e ficou sentada na sala a noite inteira.
Quando o dia começou a clarear, ela moveu os membros rígidos e começou a subir as escadas. Tinha dado apenas dois passos quando ouviu o barulho na porta.
Gustavo voltara, carregando uma fúria avassaladora.
Melissa ergueu o olhar e abriu a boca para dizer algo, mas ele levantou a mão e desferiu-lhe um tapa no rosto. Sua voz era fria e cortante como um carrasco vindo do inferno: "Melissa, o quão perversa você é? Como consegue tirar a vida de alguém com tanta facilidade?"
Sabe Deus do que ele estava falando!
Melissa quis se explicar, mas as palavras morreram na garganta. Ele nunca acreditava nela; de que adiantaria explicar?
No fim, ela apenas respondeu com um "ah" indiferente e encarou aqueles olhos sem calor: "Você tem razão. Sou perversa, tenho o coração de escorpião e sou inescrupulosa. Então, por favor, tenha piedade e assine o acordo de divórcio. De agora em diante, não teremos mais nada a ver um com o outro."
Capítulo 23: Você me ama?
Durante todo esse tempo, Gustavo dizia a si mesmo que a tinha julgado mal, que nada daquilo era culpa dela. Mas qual era o resultado?
Melissa tentou fugir, mas suas costas encontraram a parede. Ela não teve tempo sequer de pronunciar uma palavra de recusa antes que Gustavo a arrastasse escada acima e a jogasse na cama, possuindo-a com força, sem qualquer aviso.
Melissa fechou os olhos, sentindo uma melancolia profunda.
Parecia que, mesmo renascendo, não conseguiria escapar desse destino. Gustavo apenas encontrara uma forma diferente de torturá-la.
Olhando para o homem sobre ela, Melissa perguntou como se estivesse sob um feitiço: "Gustavo, você me ama?"
Houve uma breve hesitação nos movimentos dele. Ele soltou um riso de escárnio e intensificou a força: "Você acha que merece?"
Sim, ela não merecia.
"Gustavo, vou te dar uma semana para pensar. Se você não assinar o acordo de divórcio, em uma semana o que você verá será o meu cadáver. Mas, como você não se importa, faça como quiser."
Gustavo rangeu os dentes: "Melissa!"
Ela não disse mais nada, apenas fechou os olhos e desviou o rosto.
Ela já imaginava qual seria a escolha dele. Tanto a vida passada quanto a presente eram uma piada; o final já estava escrito.
O motivo de ter pedido o prazo de uma semana era apenas porque ainda tinha coisas a fazer.
A fúria de Gustavo não encontrava vazão, mas a indiferença no rosto dela era como um espinho cravado em seu coração. Todas as palavras que ela dissera naquele camarim voltaram a ecoar em sua mente.
Ele não conseguia entender que tipo de mulher Melissa era.
Num momento ela dizia que só se casaria com ele, no outro faltava ao cartório no dia marcado para beber até cair em um bar. Por fora, parecia não se importar com nada; por trás, usava todos os meios possíveis.
O amor dela sempre fora construído sobre a vida dos outros.
Gustavo afastou-se e saiu, com os olhos transbordando uma melancolia densa.
Assim que chegou à empresa, Lucas aproximou-se com cara de pau: "Pode me deixar explicar? Eu e a Melissa não temos nada. Eu só a vi andando com uma mala na rua, ela parecia tão desamparada que a levei para comer. Como eu ia saber que encontraria vocês..."
Bum!
A porta foi fechada sem piedade.
Lucas coçou o nariz, praguejou baixinho e empurrou a porta para entrar. Olhando para o homem impassível sentado à mesa, sentou-se à frente dele sem cerimônia: "Gustavo, você não tem noção de por que a Melissa quer tanto o divórcio? Se não fosse pelo seu envolvimento mal resolvido com a Sophia, ela chegaria a esse ponto? Até eu, que sou de fora, vejo que ela te ama do fundo da alma."
Só então Gustavo falou lentamente: "Eu e a Sophia?"
"No dia do casamento, você a abandonou por causa da Sophia e cancelou a cerimônia. Logo após casarem, você levou a Sophia para a Inglaterra por dias sem dar nenhuma explicação. Dias atrás, você levou uma mulher para um hotel, se não era a Sophia, quem era? Melissa é sua esposa, onde você a coloca nessa história?"
Gustavo franziu o cenho ainda mais, mas não deu explicações. Apenas perguntou friamente: "Você acha que a Melissa é inocente?"
"Pelo menos eu não acho que ela tenha culpa de nada."
Ele soltou um riso frio e levantou-se: "Vou te levar a um lugar."
Num porão sombrio, sem sol ou calor, havia apenas uma luminária oscilante no teto que não conseguia iluminar o ambiente.
A porta rangeu ao abrir, e o homem lá dentro ficou subitamente agitado: "Senhor, por favor, me solte! Tudo o que eu disse ontem é verdade, eu sei que errei e assumirei qualquer responsabilidade."
A voz de Gustavo era gélida: "Repita o que você me disse ontem à noite."
Capítulo 24: Enredados até a morte
O homem tremia, mas foi obrigado a repetir: "Dezesseis anos atrás, eu dirigia pela estrada da montanha quando, de repente, três meninas surgiram na pista. Eu pisei no freio, mas como estava rápido demais, acabei atingindo-as. Uma menina ficou paralisada de medo, as outras duas tentaram puxá-la, mas não sei se foi pelo pavor, ela acabou empurrando as duas amigas para frente do carro..."
"Senhor, senhor, eu não deveria ter fugido, mas eu estava com muito medo e meu filho tinha acabado de nascer. Eu cometi um erro por um momento de fraqueza. Assumirei qualquer responsabilidade, só peço que poupe minha família!"
Assim que ele terminou, a porta foi fechada novamente.
Lucas seguia Gustavo, com uma expressão desconfortável: "O que isso significa? Não me diga que quem empurrou as meninas foi a Melissa?"
"Você já sabe a resposta, precisa me perguntar?"
"..." Ele só perguntara por perguntar, não sabia resposta nenhuma.
Mas algo não batia.
Ele lembrava que Melissa fora internada após um grave acidente e ficara dois meses de cama. Segundo Gustavo, se ela tivesse empurrado as amigas para se proteger, não deveria ter se ferido tanto.
"Como você pode ter certeza de que quem empurrou foi a Melissa?"
Gustavo parou e olhou para ele com um semblante gélido: "Havia três pessoas no local: uma era a Sophia, outra era a Melissa e a outra era..."
Ele fechou os punhos, tentando controlar suas emoções: "Ela causou a morte de alguém. Essa conta pode ser apagada?"
Lucas suspirou: "Gustavo, você ama a Melissa?"
Essa era a segunda pessoa no mesmo dia a lhe fazer aquela pergunta.
Mas Gustavo não sabia responder.
Amor? Como poderia?
"O que te incomoda é a pessoa que morreu ou o fato de ela ter matado alguém? Você tem coragem de encarar seu próprio coração?"
Lucas foi embora após dizer isso, deixando Gustavo sozinho. Um sorriso sarcástico surgiu nos lábios de Gustavo. Aos dez anos, ele encontrara uma menina que queria proteger e cuidar, mas essa menina morrera por causa de Melissa.
Como ele poderia amá-la? Como seria possível?
Talvez Lucas estivesse certo: ele não ousava encarar o próprio coração porque havia uma ferida ali que, se aberta, sangraria.
Mas, mesmo assim, ele não deixaria Melissa partir.
Mesmo que ficassem enredados até a morte, não importava.
...
Melissa estava aproveitando o sol no jardim quando Lucas ligou com um tom sério. Ela saiu bocejando para encontrá-lo.
No café, Lucas estava com a testa franzida, hesitando em falar.
"Ei, você me chamou aqui só para eu ver sua performance de sobrancelhas?"
"..."
O clima pesado de Lucas foi quebrado por um riso contido: "Melissa, você realmente não tem coração."
Após ser criticada, Melissa fez um bico e foi direta ao ponto: "Diga logo o que aconteceu."
"Você..." Embora Lucas não acreditasse que ela fosse capaz de tal coisa, era um assunto de vida ou morte. Como perguntar isso a uma moça?
Melissa, vendo-o hesitar várias vezes, franziu a testa: "Vai falar ou não? Se não, eu vou embora."
"Vou falar, vou falar. Os jovens não têm paciência hoje em dia." Lucas respirou fundo e perguntou cautelosamente: "Você se lembra de como foi o seu acidente de carro na infância?"