Capítulo 1: Você deseja tanto assim a morte?
São Paulo, final de outono, garoa.
Seis da tarde, o auge do horário de pico.
Melissa estava parada no trigésimo sétimo andar. O vento gelado soprava impetuoso, misturado à chuva que a fazia balançar, prestes a cair.
Lá embaixo, uma multidão de curiosos já se aglomerava. Os bombeiros haviam chegado e posicionado os colchões de resgate, mas o lugar onde ela estava era alto demais; ninguém podia garantir que, se pulasse, ela cairia exatamente no alvo.
Alguns assistiam como se fosse um espetáculo, outros gritavam em provocação, e havia quem estivesse com o coração na mão por ela.
A pequena sacada de construção onde ela se apoiava tinha menos de meio metro de largura. Parecia que qualquer descuido a faria despencar dali, reduzindo-a a pedaços.
Mas Melissa não fazia menção de se mover. Seus dedos finos agarravam o corrimão descascado atrás de si, com os nós dos dedos brancos e levemente trêmulos.
Ela estava apenas angustiada e queria subir ao telhado para arejar a mente. Como aquilo se transformou subitamente em uma tentativa de suicídio?
Mas as coisas tinham chegado a tal ponto que ela não podia recuar. À frente estava o precipício, e atrás... não seria também um abismo?
Ela estava esperando. Esperando por aquela pessoa.
Atrás dela, os negociadores tentavam convencê-la com palavras amargas, mas ela permanecia com o olhar fixo no horizonte, até que uma voz fria e distante ecoou às suas costas. Chamava seu nome como sempre fizera: de forma monótona, sem um pingo de emoção.
Ele disse: "Melissa, você deseja tanto assim a morte?"
Melissa finalmente se virou, exibindo um sorriso pálido e sem forças: "Gustavo, você veio."
O homem estava parado em meio à multidão de resgate. Sua figura era alta e imponente, mas seu rosto belo estava tomado pelo gelo. Seus olhos eram cortantes e a observavam sem qualquer expressão.
Mesmo sob a cortina de chuva, ele continuava deslumbrante, sem um fio de cabelo fora do lugar, sempre o mais destacado entre todos.
A mão de Melissa apertou o corrimão. Seus lábios estavam arroxeados pelo frio, mas ela forçou as palavras: "Já que você me odeia tanto, se eu pular daqui, tudo finalmente termina?"
O olhar de Gustavo não mudou em momento algum. Ele apenas ajustou as abotoaduras com calma e falou sem pressa: "Se quer pular, pule. Eu não vou te impedir."
Melissa engoliu em seco, sentindo o amargor na garganta e a voz rouca: "Você realmente nunca me amou?"
"Nunca." Ele respondeu como se repetisse uma frase dita mil vezes antes, sem hesitação, com uma frieza absoluta.
Os socorristas e a multidão ficaram chocados com a resposta. Num momento crítico como aquele, não importavam os sentimentos, o foco deveria ser salvar a pessoa primeiro.
Os sussurros aumentaram. Muitos agora a olhavam com piedade, mas uma minoria ainda especulava se ela não seria uma amante tentando chantagear o homem. Uma mulher assim, diziam, nem merecia comoção ao morrer.
Ela soltou uma risada sem som e deu um passo à frente. Seu corpo frágil balançou perigosamente. Sua voz agora carregava um tom de desespero e vazio: "Ou seja, se eu pular daqui, você não sentirá nem um pouco de dor?"
Gustavo não disse nada, mas seu olhar gélido já dizia tudo.
Melissa sorriu. Sob o olhar aterrorizado de todos, ela soltou lentamente o corrimão e retirou o anel do dedo anelar: "Gustavo, eu nunca me arrependi de ter me casado com você nesta vida, nem mesmo agora. Mas, se houver uma próxima vida, meu único desejo é nunca mais te encontrar."
Após dizer isso, ela tentou descer dali, mas a barra do seu vestido prendeu na beirada. Melissa perdeu o equilíbrio e caiu para trás de forma incontrolável.
O anel caiu de sua mão enquanto ela despencava diante de todos, como uma pipa com a linha cortada.
Naquele instante, houve um breve momento de torpor nos olhos de Melissa, seguido por um sorriso de libertação.
Gustavo, só desejo que, na próxima vida, meu mundo não tenha você.
Capítulo 2: Viver para mim mesma
Quando Melissa acordou, sentia uma dor de cabeça terrível e o cheiro forte de desinfetante invadiu suas narinas.
Ela ficou atordoada por um momento antes de usar as mãos para se sentar na cama. Eu... não morri?
"Às duas da tarde, mandarei alguém te buscar para irmos ao cartório." A voz de Gustavo, fria e indiferente, veio do sofá ao lado.
Melissa olhou inconscientemente para ele. Ele mantinha aquela mesma expressão eterna, mas algo parecia fora de lugar.
Gustavo não se demorou. Antes de sair, deixou mais uma frase desprovida de afeto: "Não esqueça, foi você quem quis se casar comigo. Espero que esteja preparada."
"..." Observando as costas dele, Melissa sentiu algo estranho, até que seus olhos se arregalaram ao ver o calendário eletrônico na parede.
Como pode... Por que a data é de três anos atrás?!
Melissa lembrou-se de repente que, antes de registrar o casamento com Gustavo, ela teve uma febre alta e foi internada. Naquela época, ele foi visitá-la e, antes que ela pudesse comemorar o fato de que iriam se casar, ele lhe disse aquela frase cruel.
Naquele tempo, ela só pensava em se casar com ele e não deu importância às palavras que a feriam.
Sentindo que era inacreditável, ela afastou as cobertas e correu para fora da cama, encontrando a enfermeira que entrava para a ronda. Ela perguntou apressadamente: "Olá, por favor... as horas naquela parede estão certas?"
A enfermeira respondeu com um leve sorriso: "Pode estar um ou dois minutos atrasado, mas nada grave. Senhorita Duarte, precisa do horário exato? Se quiser, posso buscar um cronômetro..."
"E o calendário? Também está quebrado?"
"O calendário está normal."
Melissa franziu a testa. Será que aquilo era uma pegadinha de Gustavo para se vingar dela?
Após uma breve reflexão, sob o olhar surpreso da enfermeira, Melissa trocou de roupa rapidamente no banheiro, pegou o celular na cabeceira e se preparou para sair.
Mas, ao ver o aparelho, seus movimentos vacilaram.
Aquele celular fora comprado com seu primeiro salário; era um modelo idêntico ao de Gustavo, um "celular de casal". Ela se recusava a trocá-lo mesmo quando ficou velho, até que um dia Gustavo o viu e o jogou no lixo como se fosse sucata.
Mas agora, ele estava ali, intacto, como novo.
Os dedos de Melissa tremeram. Ela saiu do hospital a passos largos.
Não importava para onde olhasse, tudo indicava que ela havia voltado três anos no tempo, para antes de se casar com Gustavo.
Talvez o destino tenha tido piedade dela, dando-lhe a chance de recomeçar.
Ela havia dito: se houvesse uma próxima vida, nunca mais queria encontrá-lo.
Ao sair do hospital, Melissa folheou a agenda de contatos e ligou para Ana Clara, convidando-a para beber naquela tarde.
Desde que se casara com Gustavo na vida anterior, ela dedicara todo o seu tempo e energia a ele, afastando-se gradualmente dos amigos.
Desta vez, ela viveria para si mesma.
Duas da tarde, em frente ao cartório.
Gustavo estava sentado no carro. Baixou o olhar para o relógio, com uma expressão gélida.
"Senhor, quer que eu ligue para a Senhorita Duarte?"
"Não precisa."
Até às duas e meia, Melissa ainda não havia aparecido.
O rosto de Gustavo não podia mais ser descrito apenas como frio; ele parecia um demônio vindo do inferno, capaz de congelar a alma de qualquer um.
Henrique atendeu uma ligação e sentiu um calafrio na espinha. Falou com cautela: "Senhor, acabei de receber a informação de que a Senhorita Duarte... está em um bar bebendo com amigos."
"Acelere."
"Sim, senhor."
Henrique não ousava olhar para a expressão do patrão pelo retrovisor. Mas ele também achava estranho: aquela moça não vivia implorando para casar com o senhor? Agora que finalmente ia acontecer, por que ela deu o bolo no momento crucial?
Mulheres... vai entender.
Capítulo 3: Oi, lindo. Está livre?
Desta vez, Melissa estava se divertindo com uma leveza que nunca sentira antes. Sem preocupações, sem pensamentos pesados.
Ela era alguém que já havia morrido uma vez; agora, muitas coisas pareciam irrelevantes.
Ana Clara, vendo-a virar um copo atrás do outro, não pôde deixar de se preocupar. Puxou sua manga: "Mel, você acabou de sair do hospital, não deveria beber tanto."
Melissa balançou a cabeça para ela e sorriu: "Ana, isso aqui é a celebração da minha sobrevivência."
Ana Clara não conseguiu impedi-la. Mas achou estranho que, pela primeira vez em muito tempo, não ouviu o nome de Gustavo sair da boca da amiga.
O bar à tarde estava bem mais vazio que à noite, mas Melissa continuou bebendo até o anoitecer.
Ana Clara, resignada, ajudou-a a sair do bar. Enquanto Melissa vomitava, ela dava tapinhas em suas costas para ajudar na respiração: "Mel, aconteceu alguma coisa? Por que bebeu tanto?"
"Não, eu estou feliz." Melissa levantou-se cambaleando e declarou com firmeza: "Só de pensar que a partir de agora o Gustavo vai sumir da minha vida, eu sinto vontade de comemorar. Ana, vamos para o próximo bar?"