Bernardo olhou para o rosto distorcido e macabro da irmã pela proximidade da morte, olhou para o desejo e o medo primitivos da vida em seus olhos, e então lembrou-se das mãos ensanguentadas de Alice que nunca mais poderiam tocar violino. Lembrou-se do olhar calmo e indiferente que ela lhe dirigiu da última vez, como se olhasse para um estranho.
O coração dele parecia apertado por uma mão invisível, doendo tanto que não conseguia respirar.
Ele retirou lentamente sua mão, com movimentos rígidos.
"— Bianca", ele começou, com a voz seca como lixa. "Descanse bem."
Ele não prometeu, nem recusou.
Apenas deu tapinhas leves nas costas da mão dela, levantou-se e saiu do quarto, sem olhar para trás.
Capítulo 22
Ele foi para a Suíça.
Não tentou ver Alice. Ele sabia que não conseguiria e que não tinha dignidade para isso.
Apenas, através de canais especiais, fez chegar às mãos de Arthur Valente uma carta e uma pequena caixa metálica selada, pedindo que fossem entregues a Alice sem falta.
A carta era curta, apenas uma frase, com a caligrafia desordenada, como se tivesse usado toda a sua força para escrever:
"Alice, sinto muito.
Irmão... eu, devolvo o que te devo."
E dentro daquela caixa metálica, preservada cuidadosamente em um saco selado com gelo, estava a ponta de um dedo mindinho.
O corte era reto, claramente feito com um instrumento muito afiado, de uma só vez.
Era o dedo mindinho da mão esquerda de Bernardo.
Alice recebeu a caixa metálica enquanto estava na sala de reabilitação.
A terceira cirurgia de restauração fora um sucesso. Uma equipe de especialistas mundiais elaborou o plano mais detalhado para ela; a cirurgia durou dez horas. No pós-operatório, embora suas mãos ainda não tivessem voltado ao estado original e exibissem sinais de deformidade e rigidez, estavam muito melhores do que antes, quando não se moviam nada.
Após um exame minucioso, o médico-chefe mostrou um alívio discreto e disse cautelosamente a Arthur e Gustavo:
"— A recuperação da Srta. Valente é melhor do que o esperado. Embora... tocar violino em nível profissional seja impossível, pois exige flexibilidade e força extremas, com um treinamento sistemático de reabilitação, a função de autocuidado para a vida diária poderá ser recuperada em mais de 70%. Até mesmo... no futuro, realizar execuções simples em instrumentos que não exijam dedilhados complexos, como tocar peças simples de piano, é uma possibilidade."
Tocar piano.
Peças simples.
Para uma ex-violinista genial, isso era como cair das nuvens para o fundo do vale.
Mas para Alice, que caminhara na escuridão por tanto tempo e quase esquecera como era a luz, essa pequena possibilidade era como um raio de luz extremamente fraco, mas real.
Gustavo transmitiu as palavras do médico para ela exatamente como foram ditas, sem adornos.
Alice encostou-se na cabeceira da cama, olhando para as próprias mãos ainda envoltas em gaze, com formas estranhas, por muito, muito tempo.
Tanto tempo que Gustavo pensou que ela não falaria mais.
Então, ele viu uma lágrima cair sem aviso dos cílios baixos dela, atingindo a gaze branca e abrindo uma pequena mancha escura.
Em seguida, veio a segunda, a terceira...
Ela não emitiu som algum, apenas chorava silenciosamente, com os ombros tremendo de forma quase imperceptível.
Não era um choro escandaloso ou histérico. Era uma injustiça e uma tristeza reprimidas por tanto tempo, enterradas tão fundo que ela própria pensou estarem secas, encontrando finalmente uma saída minúscula e fluindo silenciosamente.
Pelas mãos que nunca mais tocariam violino.
E também por essas mãos que ainda podiam se mover um pouco, e que talvez no futuro pudessem tocar as teclas de um piano com certa desajeitabilidade.
Gustavo não disse "não chore", nem ofereceu um lenço.
Apenas aproximou-se, sentou-se na beira da cama e estendeu o braço, com um movimento leve mas firme, envolvendo-a em um abraço.
Seu abraço era quente, com um aroma limpo e fresco; não era excessivamente robusto, mas era excepcionalmente estável.
Alice ficou rígida por um instante, mas logo aquele tremor reprimido pareceu encontrar um ponto de apoio. Ela enterrou o rosto no ombro dele, e as lágrimas logo molharam a camisa de tecido fino.
Ele não disse nada, apenas usava a mão para dar tapinhas rítmicos e leves nas costas dela, como se acalmasse uma criança que sofreu todas as injustiças e finalmente voltou para casa.
Não se sabe quanto tempo passou, mas os soluços de Alice cessaram gradualmente.
Ela ergueu a cabeça do abraço dele; os olhos e a ponta do nariz estavam vermelhos como os de um coelho, mas seu olhar não era mais de uma morte vazia; estava marejado, mas parecia ter um brilho mínimo.
"— Gustavo", a voz dela ainda estava carregada de congestão nasal, baixa, mas excepcionalmente clara. "Eu... eu quero tentar."
Gustavo olhou para ela, e no fundo de seus olhos gélidos, surgiu um sorriso muito leve, quase invisível.
"— Tudo bem." Ele assentiu, com a voz estável e gentil de sempre. "Vamos tentar. Sem pressa, Alice. A vida é longa, podemos ir devagar."
A vida é longa. Podemos ir devagar.
Essas palavras foram como uma pequena semente caindo no campo do coração de Alice, antes seco e rachado.
Ela não sabia se iria brotar ou florescer, mas, pelo menos, o solo não parecia mais tão frio e duro.
Foi nesse momento que Arthur chegou, trazendo a caixa metálica e a carta manchada de sangue com a caligrafia desordenada.
Alice ouviu Arthur relatar, em um tom sem emoções, tudo o que havia acontecido no país.
A coletiva de imprensa de Diego, a condenação pública de Bianca, a ruína da família Rocha e... o incidente do dedo cortado de Bernardo.
Não havia expressão em seu rosto, mas quando ouviu "o dedo mindinho da mão esquerda de Bernardo", seus longos cílios tremeram de forma quase imperceptível.
Mas foi apenas por um instante.
Arthur colocou a carta e a caixa na mesa diante dela. Não disse muito, apenas: "As coisas estão aqui. Como lidar com isso, você decide. Se não quiser ver, eu jogo fora."
Capítulo 23
O olhar de Alice pousou na pequena caixa metálica.
Ela estendeu a mão, com as pontas dos dedos ainda tremendo levemente sem controle, e abriu a caixa devagar.
Dentro do saco selado, uma seção pálida de um dedo jazia silenciosamente entre cubos de gelo.
A carne e o osso no local do corte eram claramente visíveis.
Ao lado, Gustavo franziu a testa quase imperceptivelmente e desviou o olhar.
Alice, no entanto, olhou com atenção, por um minuto inteiro.
Então, ela estendeu a mão e pegou a carta fina ao lado.
Abriu-a.
Apenas uma frase.
"Alice, sinto muito.
Irmão... eu, devolvo o que te devo."
Seu olhar permaneceu por muito tempo na palavra "Irmão". Aquela palavra fora escrita pela metade e depois riscada com força, sobrando apenas um borrão de tinta e um "eu" cauteloso logo atrás.
Ele, afinal, não tinha dignidade para se chamar de "Irmão" novamente.
Alice olhou e, de repente, contraiu o canto da boca, como se quisesse sorrir, mas não conseguiu. No fim, restou apenas uma curva gélida e leve.
Ela dobrou o papel casualmente e o entregou a Arthur junto com a caixa metálica.
"— Queime isso", disse ela, com a voz calma e sem oscilações. "Me incomoda a vista."
Arthur pegou os objetos, assentiu sem fazer perguntas e saiu para lidar com o descarte.
Gustavo olhou para o perfil calmo dela e perguntou baixinho: "Está triste?"
Alice balançou a cabeça, voltando o olhar para a linha de neve das montanhas distantes através da janela, que estavam banhadas pelo pôr do sol dourado.
"— Não sinto nada." Ela pausou e acrescentou: "É como ver uma notícia policial sangrenta com a qual não tenho relação."
O tom dela era tão plano que fez o coração de Gustavo apertar um pouco.
Não por Bernardo, mas por ela.
Quantas decepções e danos uma pessoa precisa sofrer para lapidar uma antiga intimidade em uma indiferença tão absoluta?
Ele estendeu a mão, cobrindo gentilmente a mão dela que estava sobre o joelho. A mão dela ainda estava fria e frágil após a lesão.
"— Não pense mais nisso", disse ele. "O que quer comer à noite? O chef disse que chegaram aspargos brancos muito frescos por transporte aéreo hoje."
Alice virou-se para ele. O brilho do entardecer caía em seu rosto, dando um tom quente à sua pele pálida.
Ela pensou um pouco e disse: "Tudo bem. E também uma sopa de creme de cogumelos, pode ser?"
"— Claro", Gustavo sorriu.
Parecia que tudo estava evoluindo para um caminho um pouco melhor.
A mão de Alice estava se recuperando lentamente, e seu espírito, sob a companhia diária de Gustavo e a proteção meticulosa de Arthur, estava descongelando pouco a pouco.
Entretanto, a família Rocha, no país de origem, caíra completamente no inferno.
No mesmo dia em que Alice recebeu o dedo e a carta, a última janela para o transplante de Bianca fechou-se definitivamente.
Naquela noite profunda, seus sinais vitais deterioraram-se drasticamente. Os aparelhos de monitoramento emitiram alarmes agudos.