Ele nunca escondia nada dela; fosse bom ou ruim, ele contava e deixava que ela escolhesse. Este era o respeito básico que ele, como o irmão recém-recuperado, podia oferecer.
Alice balançou a cabeça, com a voz muito baixa, mas extremamente clara: "Não quero."
Aqueles arrependimentos, súplicas, verdades tardias e dores, para ela, já pertenciam a uma vida passada.
Não eram capazes de gerar a menor ondulação em seu coração.
Arthur assentiu e não disse mais nada, apenas reforçou algumas recomendações sobre sua saúde antes de encerrar a chamada.
Gustavo pegou o tablet, olhou para o perfil sereno dela e perguntou: "Precisa que eu faça algo?"
Alice virou-se para ele. O reflexo das montanhas nevadas em seus olhos límpidos mostrava uma frieza cristalina. "Gustavo, se... algum veículo de imprensa quiser me entrevistar, você pode organizar? De forma remota, sem mostrar o rosto."
Capítulo 19
Gustavo surpreendeu-se por um instante, mas logo compreendeu. Ele não perguntou o porquê, apenas assentiu: "Está bem, eu organizarei."
Dois dias depois, uma entrevista especial por vídeo conectou a Suíça a um veículo de imprensa internacional influente no país de origem.
Alice não apareceu na imagem; apenas sua voz feminina, tratada eletronicamente e pacífica, foi transmitida através do equipamento.
A pergunta do jornalista foi direta e afiada: "Srta. Valente, qual a sua sensação em relação ao seu antigo irmão, o Sr. Bernardo Rocha, ter se ajoelhado em público implorando que a senhorita doe parte do seu pulmão para salvar a vida de Bianca? A senhorita acredita que, diante dos laços de sangue e da vida, as mágoas pessoais deveriam ser deixadas de lado?"
Houve um momento de silêncio na linha.
Justo quando o jornalista pensou que não haveria resposta, aquela voz calma soou.
"— Ele não está ajoelhado para mim", a voz de Alice era leve, mas cada palavra era clara, chegando aos ouvidos de inúmeros ouvintes. "Ele está ajoelhado para sua própria consciência pesada e pela vida de sua irmã de sangue. Nada disso tem a ver comigo."
O jornalista pareceu não esperar uma resposta tão direta e fria. Após uma pausa, insistiu: "Então, em relação à situação atual da Srta. Bianca, a senhorita realmente não tem a menor compaixão? Afinal, trata-se de uma vida."
"— Compaixão?" Alice repetiu a palavra. Não se percebia emoção em seu tom, mas aquilo causava um calafrio involuntário. "Lembro-me dela dizer que, em seu aniversário de dezoito anos, seu maior desejo era que eu desaparecesse completamente."
Ela pausou novamente, como se estivesse recordando, e então disse suavemente:
"— Agora, como ela desejou, eu desapareci completamente. Ela deveria... estar com seu desejo realizado agora."
A entrevista encerrou-se ali.
Sem choros, sem acusações, sem sequer emoções intensas; apenas fatos narrados de forma plana e uma indiferença que penetrava os ossos.
O vídeo da entrevista espalhou-se com velocidade impressionante.
O drama do "ajoelhar pelo pulmão" já era chamativo, e a resposta de Alice sobre o "desejo realizado" serviu como estopim para a opinião pública.
Alguns xingavam Bianca como maligna, dizendo que ela merecia.
Alguns lamentavam o que Alice passara, comentando: "Não julgue o caminho alheio se não calçou os sapatos dele".
Havia também quem, do alto de um pedestal moral, acusava Alice de ser fria por não salvar uma vida.
Mas, independentemente disso, a resposta de Alice foi como um tapa silencioso no rosto de todos que tentaram coagi-la usando "família" ou "vida".
E esse vídeo também foi levado ao quarto de Bianca por alguém interessado.
Naquele momento, Bianca já estava em estado terminal. Usava um respirador, estava extremamente magra, com os olhos encovados; sua antiga beleza fora totalmente consumida pela doença, restando apenas um aspecto cadavérico.
Quando o vídeo no tablet terminou e a frase de Alice — "Ela deveria estar com seu desejo realizado agora" — ecoou no quarto silencioso, os olhos turvos de Bianca arregalaram-se subitamente. Seu peito subiu e desceu violentamente, e sons guturais saíram de sua garganta.
"— AH!!!"
De onde tirou forças, ela arrancou bruscamente a máscara de oxigênio do rosto, abrindo a boca como um peixe fora d'água para tentar respirar. Apontou o dedo trêmulo para a tela agora escura, com o rosto ficando arroxeado.
"— Como... como ela ousa... Maldita! Alice, sua maldita! Você vai pagar por isso!!"
Ela praguejava com voz rouca e quebrada, e logo em seguida tossiu uma grande quantidade de sangue escuro que manchou os lençóis brancos.
"— Bianca!" A mãe de Bernardo, que vigiava ao lado, entrou em pânico e tentou segurá-la.
Bianca empurrou a mãe com força e, pelo excesso de ímpeto, acabou rolando da cama para o chão, encolhendo-se enquanto tossia sangue e sofria espasmos. Seu olhar era carregado de veneno, como se Alice estivesse parada ali.
"— Nem como fantasma... eu vou te deixar em paz... Alice... eu te amaldiçoo..."
A equipe médica entrou às pressas para realizar as manobras de emergência.
O caos, os alarmes agudos dos monitores e os gritos dilacerantes da mãe de Bernardo misturavam-se.
Bianca foi reanimada mais uma vez, mas o médico balançou a cabeça e disse a Bernardo em particular que o corpo e o espírito dela chegaram ao limite; ela poderia morrer a qualquer momento.
O transplante era a única e ínfima esperança, e essa esperança estava se apagando completamente com as palavras de Alice.
A mãe de Bernardo não suportou o golpe e colapsou mentalmente.
Ela parou de implorar chorando e passou a encarar Bernardo com olhos avermelhados e fixos. Aquele olhar não era de uma mãe para um filho, mas de alguém para um inimigo.
"— Bernardo Rocha!" Ela gritou o nome completo dele, com uma voz aguda e estridente. "Vou lhe dizer uma coisa! Se hoje você não trouxer a Alice de volta, se não arrancar o pulmão dela para colocar na Bianca, eu vou me jogar do topo deste hospital! Se a Bianca morrer, eu também não quero viver! Nós duas morreremos juntas, para que você carregue o peso na consciência pelo resto da vida!"
Dizendo isso, ela realmente começou a lutar para correr em direção à janela.
Bernardo e os enfermeiros a seguraram com força.
A mãe dele agia como uma louca, debatendo-se, chutando e mordendo; suas unhas deixaram vários sulcos ensanguentados no rosto de Bernardo.
"— Mãe! Acalme-se!" rugiu Bernardo, com uma voz pesada de cansaço e desespero.
Seu rosto ardia em dor, mas não chegava a um décimo da dor em seu coração.
De um lado, a moribunda Bianca — que usara todos os meios para praticar o mal, mas ainda era sua irmã de sangue — e uma mãe mentalmente instável fazendo chantagem com a própria morte.
Do outro lado, na Suíça, a Alice que ele ferira profundamente e que dissera com determinação que "nunca mais se veriam".
E ainda havia o aviso gelado de Arthur Valente e a retaliação esmagadora daquela família.
Ele estava sendo queimado vivo, com sua alma prestes a ser rasgada ao meio.
Capítulo 20
Enquanto isso, Diego trancou-se em seu apartamento, assistindo repetidamente ao vídeo da entrevista de Alice sem dormir ou comer.
A voz calma dela e a frase "desejo realizado" eram como a lima mais afiada, desgastando seu coração que já estava em carne viva.
Ele também assistia repetidamente ao vídeo de Bernardo ajoelhado, vendo aquele homem outrora orgulhoso e nobre prostrado no chão como um cão, em prantos.
No entanto, ele sentia apenas que aquilo era patético e ridículo.
Tarde demais.
Tudo era tarde demais.
O que Alice queria nunca fora o ajoelhar deles ou seus arrependimentos tardios.
O que ela queria, talvez desde o início, fosse apenas a confiança e a justiça mais básicas.
Mas o que eles deram a ela?
Prisão, injustiça, uma experiência de quase morte por alergia e... aquelas mãos destruídas.
O olhar de Diego pousou em suas próprias mãos, longas, limpas e de articulações definidas.
Essas mãos um dia acariciaram os cabelos de Alice com ternura, tocaram piano com ela a quatro mãos e também... seguraram com força o pulso dela contra o chão gelado, mantendo-a imóvel enquanto o martelo caía.
"— Quando eu segurava a mão dela, ela me disse: 'Diego, eu te odeio'..."
Em sua memória, os gritos roucos e desesperados de Alice sobrepuseram-se aos lamentos de Bernardo no vídeo à sua frente.
Ódio.
Ela disse que o odiava naquela época.
Mas só agora ele entendia que o ódio existe porque ainda há expectativa, inconformismo e amor.
Mas o último olhar que ela lhe dirigiu estava vazio.
Não havia nem ódio.
Aquele era o verdadeiro fim, algo muito mais cruel que o ódio: a indiferença total.
Diego subitamente começou a rir baixo. O riso ecoava no apartamento vazio, soando pior do que um choro.
Enquanto ria, as lágrimas rolaram sem aviso, caindo no chão frio.
Ele pegou as chaves do carro e saiu impetuosamente.
Não foi para a empresa Valente, nem para a casa dos Rocha.
Ele contatou diretamente a mídia conhecida e, na qualidade de herdeiro do Grupo Diego, exigiu a convocação de uma coletiva de imprensa de emergência.
A notícia atraiu atenção imediata. Todos pensavam que Diego falaria em favor dos Rocha ou anunciaria uma aliança com eles.